quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
E o tempo passa junto com os anos...
Encontrei Mario na Costa rica... e agora leio Mario...
Pasatiempo
Mario Benedetti
Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.
Luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque un océano
la muerte solamente
una palabra.
Ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.
Ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.
Pasatiempo
Mario Benedetti
Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.
Luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque un océano
la muerte solamente
una palabra.
Ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.
Ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.
pra não dizer que eu não falei do final do ano...
Reinauguração
Carlos Drummond de Andrade
Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmistificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade - velho ou moço - pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza,
a exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas ao redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos os olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos
Esta é a magia do tempo
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Aniversario
presentes...
HACE MUCHO ENCONTRE UN PAJARITO EN EL BOSQUE, PAJARO ENCANTADOR, ESTABA HERIDO Y LE CONSTRUI UN NIDO TEMPORAL, YO SABIA QUE ERA TEMPORAL Y SE FUE, SOÑE COMO SE IBA, PERO UN DIA DE SORPRESA VOLVIO Y NO ERA PRIMAVERA, VOLVIO AL NIDO POR UNA NOCHE,Y SE FUE.
HACE POCO ME ENCONTRE OTRO PAJARITO QUE HISO QUE YO CONTRUYERA UN NIDO PARA NOSOTROS, (PENSE EN EL OTRO NIDO CON AMOR,PERO ESE FUE TEMPORAL) LO CONSTRUI Y PASARON LOS DIAS Y CUANDO ME DECIDI A OLVIDARME DEL NIDO TEMPORAL LLEGE A MI NIDO NUEVO Y EL PAJARITO TENIA OTRO PAJARITO EN MI LUGAR, ME LLENE DE ODIO POR DENTRO Y ME DI CUENTA DE QUE ESE NIDO FUE INSPIRADO EN EL PRIMER NIDO, Y LO QUE ME CON TODO Y PAJARITO DENTRO.
HOY ME ENCUENTRO EN MI PRIMER NIDO Y NO ES PRIMAVERA Y SE QUE EL PAJARITO QUE VOLO ALGUN DIA VOLVERA(TEMPORALMENTE)QUIERO VER AL PAJARITO.
HACE MUCHO ENCONTRE UN PAJARITO EN EL BOSQUE, PAJARO ENCANTADOR, ESTABA HERIDO Y LE CONSTRUI UN NIDO TEMPORAL, YO SABIA QUE ERA TEMPORAL Y SE FUE, SOÑE COMO SE IBA, PERO UN DIA DE SORPRESA VOLVIO Y NO ERA PRIMAVERA, VOLVIO AL NIDO POR UNA NOCHE,Y SE FUE.
HACE POCO ME ENCONTRE OTRO PAJARITO QUE HISO QUE YO CONTRUYERA UN NIDO PARA NOSOTROS, (PENSE EN EL OTRO NIDO CON AMOR,PERO ESE FUE TEMPORAL) LO CONSTRUI Y PASARON LOS DIAS Y CUANDO ME DECIDI A OLVIDARME DEL NIDO TEMPORAL LLEGE A MI NIDO NUEVO Y EL PAJARITO TENIA OTRO PAJARITO EN MI LUGAR, ME LLENE DE ODIO POR DENTRO Y ME DI CUENTA DE QUE ESE NIDO FUE INSPIRADO EN EL PRIMER NIDO, Y LO QUE ME CON TODO Y PAJARITO DENTRO.
HOY ME ENCUENTRO EN MI PRIMER NIDO Y NO ES PRIMAVERA Y SE QUE EL PAJARITO QUE VOLO ALGUN DIA VOLVERA(TEMPORALMENTE)QUIERO VER AL PAJARITO.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
A Dor da Colômbia
Da Colômbia brotou Botero, de Botero também brotou uma Colômbia...
'O Massacre na Colômbia' 'A Morte na Catedral'
Botero possui uma série de obras mais recente e menos conhecida, que retrata o sofrimento do povo colombiano em conseqüência da guerra entre governo, narcotraficantes, guerrilheiros e paramilitares.
Os 'gordinhos' também sofrem!
'Sem Teto'
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Tentativa de tomar cerveja em Cartagena n°2
Enquanto nossa estadia se prolongava em Cartagena, è espera de um veleiro que nos resgatasse dali e cruzasse o mar caribenho para nos deixar em algum ponto da costa panamenha, continuávamos em busca de um cerveja barata! E um lugar legal. Apesar da fama de baladas homéricas, só se via vestígios do que imaginávamos ser aquela cidadela em temporada (turismo e muita vida noturna)! Mas por enquanto sem turistas e com tudo cerrado! Entramos em um bar cubano, que ficava em um sobrado, com mesinhas dentro e fora, nas varandas. A decoração e a música realmente eram muito boas, mas não havia uma viva mosca fora o garçom...e o preço da cerveja...cortava qualquer barato! Então descemos a escada do bar e sentamos no boteco que ficava logo abaixo: mal acreditamos, era o maior ponto de encontro das prostitutas da cidade! Maravilha! Uma delas sentou-se na mesa, apresentou-se por mera formalidade pois de cara nos tratava como se ja fossemos grandes amigas. Conhecia todos por ali e nos apresentava a cada um que entrava no bar... A cervejinha barata e acompanhada se multiplicou em várias durante toda a madrugada. Quanta história. Quanta vida difícil. Tanta risada, tanta falácia, tanta liberdade... era tudo aquilo de verdade? Do lado tinha uma mesa cheia de gente, homens e mulheres, quase todos negros, riam muito. Alta rotatividade no bar, praticamente todos conhecidos. Ela selecionava as pessoas com quem podíamos falar. Seu olhar tornava-se cada vez mais embaralhado, os gestos todos mais e mais desincronizados, escutava tropeçando na fala.
Um pouco mais tarde começavam a chegar os vendedores ambulantes, ou mais popularmente conhecidos como hippies. Um pouco antes, na caminhada da tarde, reclamávamos da abordagem, da filação de cigarro, da esmolagem. Agora compartilhávamos a cerveja do boteco. Houve um, ja nao me lembro mais seu nome..., que integrou a nossa mesa. Era um dos "selecionados". Dia vazio para ele também, a solução era mesmo gastar com algumas.
Agora era o momento onde ninguém mais barganhava, vendia ou cobrava. Esquecíamos um pouco os nossos papéis, nossas classes, origens, nacionalidades ou dificuldades e simplesmente bebíamos um gelada cerveja de boteco, com tudo o que isso possa representar.
Museu de Arte Moderna de Cartagena, "Damitas-2005", Alfredo AraujoUm telefone chamado Gabriel
Tentávamos improvisar em Cartagena e encontrar um lugar legal pra sentar, comer e tomar umas cervejinhas. Algum lugar no sítio histórico, entre aqueles muros todos que separam Cartagena 'histórica' de Cartagena 'nova'. Voltas e mais voltas sob a luz de charmosos lampiões elétricos e sentamos em um lugar mais afastado, menos glamouroso. Simples. E barato. De um dono e garçons simpáticos. De repente o telefone toca e ele, o dono, atende. Muitas risadas...conversa longa. Ele chama músicos pra tocar cantigas tradicionais para o telefone...chama pessoas para falar com o telefone...a conversa se prolonga... tem jeito de especial...o telefone também fala...bastante...Dá uma certa curiosidade de saber o que diz aquele aparelho que circula pelas mesas da rua, pela calçada, entra e sai do balcão. Toma cerveja! Até que... ele desliga!
Foto: Gabi
Então tá, adios, Gabriel Garcia Marques!
sábado, 8 de dezembro de 2007
Plágios (?)
Desde o primeiro dia, eu quis falar dela... mas não assim de uma maneira descritiva... Queria antes uma forma poética, mas que não perdesse o concreto de vista, e que sendo concreto não deixasse fugir sua essência. O tempo passou, não resistiu à separação, a cidade ficou vazia de palavras. Foi então que apareceu a outra... Conheci outra cidade que, apesar de diferente, me despertava a mesma impressão. Como se fossem duas irmãs gêmeas sem ser iguais, mas fruto de um mesmo parto, ou de um mesmo sentimento. A dificuldade voltou! Como falar daquela nova paisagem que antes de se fazer vista, foi primeiro habitada, e habitada se fez de novo...a primeira...OLinda...
Aí Ítalo Calvino me descreveu Sofrônia... E aí sim, que eu nunca mais consegui ensaiar nada escrito sobre elas...troquei o "Sofrônia" por 'Olinda' e em seguida por 'Alajuela'... e sequer acrescentei palavras minhas...
...
As Cidades Delgadas
A cidade de Sofrônia (Olinda) é composta de duas meias cidades. Na primeira, encontra-se a grande montanha-russa de ladeiras vertiginosas, o carrossel de raios formados por correntes, a roda-gigante com cabinas giratórias, o globo da morte com motociclistas de cabeça para baixo, a cúpula do circo com os trapézios amarrados no meio. A segunda meia cidade é de pedra e mármore e cimento, com o banco, as fábricas, os palácios, o matadouro, a escola e todo o resto. Uma das meias cidade é fixa, a outra é provisória e, quando termina a sua temporada, é desparafusada, desmontada e levada embora, transferida para os terrenos baldios de outra meia cidade.Assim, todos os anos chega o dia em que os pedreiros destacam os frontões de mármore, desmoronam os muros de pedra, os pilares de cimento, desmontam o ministério, o monumento, as docas, a refinaria de petróleo, o hospital, carregam os guinchos para seguir de praça em praça o itinerário de todos os anos. Permanece a meia Sofrônia (Olinda) dos tiros-ao-alvo e dos carrosséis, com o grito suspenso do trenzinho da montanha-russa de ponta-cabeça, e começa-se a contar quantos meses, quantos dias se deverão esperar até que a caravana retorne e a vida inteira recomece.
...
La ciudad de Sofronia (Alajuela) se compone de dos medias ciudades. En una está la gran montaña rusa de ríspidas gibas, el carrusel con el haz estrellado de sus cadenas, la rueda con sus jaulas giratorias, el pozo de la muerte con sus motociclistas cabeza abajo, la cúpula del circo con su racimo de trapecios colgando en el centro. La otra media ciudad es de piedra y mármol y cemento, con el banco, las fábricas, los palacios, el matadero, la escuela y todo lo demás. Una de las medias ciudades está fija, la otra es provisional y cuando ha terminado su tiempo de estadía, la desclavan, la desmontan y se la llevan para trasplantarla en los terrenos baldíos de otra media ciudad.Así todos los años llega el día en que los peones desprenden los frontones de mármol, deshacen los muros de piedra, los pilones de cemento, desmontan el ministerio, el monumento, los muelles, la refinería de petróleo, el hospital, los cargan en remolques para seguir de plaza en plaza el itinerario de cada año.Ahí se queda la media Sofronia (Alajuela) de los tiros al blanco y los carruseles, con el grito suspendido de la navecilla de la montaña rusa invertida, y empieza a contar cuántos meses, cuántos días tendrá que esperar antes de que la caravana regrese y la vida completa vuelva a empezar.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Sonho
Acreditávamos que mudaríamos o mundo:
À noite, sonhávamos e, durante o dia, comíamos os sonhos da padaria em frente.
À noite, sonhávamos e, durante o dia, comíamos os sonhos da padaria em frente.
Alex Polari
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Embarcando em "O Turista Aprendiz"
O dia de partida para uma grande viagem é sempre único e inesquecível. Para cada um provoca sensações diferenciadas... a consumação de tão grandiosos planos no ato da despedida é um marco emocional, que se inicia em alguma estação, aeroporto, porto, rodoviária... e vai se transformando, ao longo da travessia...
Assim como Mario Quintana
Eu sempre que parti fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...
Alguns partem dispostos a transformar esta travessia em bloco de notas, que podem ser extensos relatos ou apenas anotações rápidas, "telegráficas". As minhas não foram nenhuma nem outra! Foram notas esparsas, preenchidas por outras realizadas apenas no registro da memória, que é bastante falha... Agora tento recuperar algumas delas e durante este processo embarco com Mario de Andrade em "O Turista Aprendiz", uma espécie de releitura de suas notas de viagem muitos anos depois de seu regresso, notas tomadas durante sua passagem pelo norte do Brasil lá pelos idos 1927. Ele, no entanto, adverte logo no prefácio: 'provavelmente mais resolvido a escrever que a viajar, tomei muitas notas... nenhuma intenção de obra de arte, nem com a menor intenção de dar a conhecer aos outros a terra viajada...' Eu? Advirto: 'muitas intenções em uma única viagem, talvez nenhuma realizada de forma plena... evocar sensações e impressões... mudar o foco, ver através de outros olhares...'
E Mario partiu...
São Paulo, 7 de maio de 1927 - Partida de São Paulo. Comprei pra viagem uma bengala enorme, de cana-da-Índia, ora que tolice! Deve ter sido algum receio vago de índio... Sei bem que esta viagem que vamos fazer não tem nada de aventura ou de perigo, mas cada um de nós, além da consciência lógica possui uma consciência poética também. Às reminiscências de leitura me impulsionaram mais que a verdade, tribos selvagens, jacarés e formigões. E a minha alminha santa imaginou: canhão, revólver, bengala, canivete. E opinou pela bengala.
Pois querendo mostrar calma, meio perdi a hora de partir, me esqueci da bengala, no táxi lembrei da bengala, volto buscar bengala e afinal consigo levar a bengala pra estação. Faltam apenas cinco minutos pro trem partir. Me despeço de todos, parecendo calmo, fingindo alegria. "Boa Viagem, "Traga-me um jacaré"... Abracei a todos. E ainda faltavam cinco minutos outra vez!
Não fui feito pra viajar, bolas! Estou sorrindo, mas por dentro de mim vai um arrependimento assombrado, cor de inceto. Entro na cabina, agora é tarde, já parti, nem posso me arrepender. Um vazio compacto dentro de mim. Sento em mim.
Eu...
Eu não anotei nada sobre as sensações da partida desta última viagem. Nem soube fazer relatos como este, de Mario...Mas me lembro da convicção e da certeza que me acompanharam até o dia derradeiro, depois de abandonar trabalhos, recusar projetos, criar e controlar expectativas e acreditar na escolha. Abraçar causas e crer nelas é como se fosse uma necessidade, um pré requisito fundamental, algo visceral, tem que ser pleno. Algo que me impede ou esconde de mim, a minha tristeza, essa tristeza que acompanha as despedidas, esse olhar encolhido, distante... esse frio na barriga...
OBS: eu, optei pelo canivete suisso, mas o que mais me serviu foi a opçao "lanterna" do meu primitivo aparelho celular!
Assim como Mario Quintana
Eu sempre que parti fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...
Alguns partem dispostos a transformar esta travessia em bloco de notas, que podem ser extensos relatos ou apenas anotações rápidas, "telegráficas". As minhas não foram nenhuma nem outra! Foram notas esparsas, preenchidas por outras realizadas apenas no registro da memória, que é bastante falha... Agora tento recuperar algumas delas e durante este processo embarco com Mario de Andrade em "O Turista Aprendiz", uma espécie de releitura de suas notas de viagem muitos anos depois de seu regresso, notas tomadas durante sua passagem pelo norte do Brasil lá pelos idos 1927. Ele, no entanto, adverte logo no prefácio: 'provavelmente mais resolvido a escrever que a viajar, tomei muitas notas... nenhuma intenção de obra de arte, nem com a menor intenção de dar a conhecer aos outros a terra viajada...' Eu? Advirto: 'muitas intenções em uma única viagem, talvez nenhuma realizada de forma plena... evocar sensações e impressões... mudar o foco, ver através de outros olhares...'
E Mario partiu...
São Paulo, 7 de maio de 1927 - Partida de São Paulo. Comprei pra viagem uma bengala enorme, de cana-da-Índia, ora que tolice! Deve ter sido algum receio vago de índio... Sei bem que esta viagem que vamos fazer não tem nada de aventura ou de perigo, mas cada um de nós, além da consciência lógica possui uma consciência poética também. Às reminiscências de leitura me impulsionaram mais que a verdade, tribos selvagens, jacarés e formigões. E a minha alminha santa imaginou: canhão, revólver, bengala, canivete. E opinou pela bengala.
Pois querendo mostrar calma, meio perdi a hora de partir, me esqueci da bengala, no táxi lembrei da bengala, volto buscar bengala e afinal consigo levar a bengala pra estação. Faltam apenas cinco minutos pro trem partir. Me despeço de todos, parecendo calmo, fingindo alegria. "Boa Viagem, "Traga-me um jacaré"... Abracei a todos. E ainda faltavam cinco minutos outra vez!
Não fui feito pra viajar, bolas! Estou sorrindo, mas por dentro de mim vai um arrependimento assombrado, cor de inceto. Entro na cabina, agora é tarde, já parti, nem posso me arrepender. Um vazio compacto dentro de mim. Sento em mim.
Eu...
Eu não anotei nada sobre as sensações da partida desta última viagem. Nem soube fazer relatos como este, de Mario...Mas me lembro da convicção e da certeza que me acompanharam até o dia derradeiro, depois de abandonar trabalhos, recusar projetos, criar e controlar expectativas e acreditar na escolha. Abraçar causas e crer nelas é como se fosse uma necessidade, um pré requisito fundamental, algo visceral, tem que ser pleno. Algo que me impede ou esconde de mim, a minha tristeza, essa tristeza que acompanha as despedidas, esse olhar encolhido, distante... esse frio na barriga...
OBS: eu, optei pelo canivete suisso, mas o que mais me serviu foi a opçao "lanterna" do meu primitivo aparelho celular!
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
A palavra
Eu gosto tanto das palavras...
que gostaria de saber encadeá-las...
gostaria de acreditá-las...
de sempre poder e saber dizê-las...
a palavra na América Latina... capítulo 1
Quando uma palavra é duas
Na língua maia do Yucatán, "beijar" se diz ts'uts. "Fumar" também.
Em guarani, che ha'u significa "eu como" e também "eu faço amor", e ñe'e significa "palavra" e também "alma".
Em quíchua*, suk é "um" e ao mesmo tempo é "outro".
*Quíchua, (quíchua:Runa simi) também grafado quechua e quéchua, é uma importante língua indígena da América do Sul, ainda hoje falada por cerca de dez milhões de pessoas de diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru ao longo dos Andes. Possui vários dialetos inteligíveis entre si. É uma das línguas oficiais da Bolívia, Peru e Equador.
A palavra e a História
Em 1532, o conquistador Pizarro aprisionou o inca Atahualpa, em Cajamarca. Pizarro prometeu-lhe a liberdade, se o Inca enchesse de ouro um grande quarto. O ouro chegou, desde os quatro cantos do império, e abarrotou o quarto até o teto. Pizarro mandou matar o prisioneiro.
Desde antes, desde quando as primeiras caravelas apontaram no horizonte, até nossos dias, a história das Américas é uma história de traição à palavra: promessas quebradas, pactos descumpridos, documentos assinados e esquecidos, enganos, ciladas. "Te dou minha palavra", segue-se dizendo, mas poucos são os que dão, com a palavra, algo mais do que nada.
Não haverá o que aprender com os perdedores, como em tantas outras coisas? Os primeiros habitantes das Américas, derrotados pela pólvora, pelos vírus, pelas bactérias e também pela mentira, compartilhavam a certeza de que a palavra é sagrada, e muitos dos sobreviventes ainda acreditam nisso:
- Dizem que nós não temos grandes monumentos - diz um indígena mapuche, ao sul do Chile. - Para nós, a palavra continua sendo um grande monumento.
Em língua guarani, ñe'e significa "alma" e também significa "palavra":
- A palavra vale - diz um indígena avá-guarani, no Paraguai - porque é nossa alma. Não precisamos colocá-la no papel, para que nos creiam.
As culturas americanas mais americanas de todas foram desqualificadas, desde o início, como ignorâncias. Em sua maioria, não conheciam a escrita. A Ilíada e a Odisséia, as obras fundadoras disso que chamam a cultura ocidental, também foram criadas por uma sociedade sem escrita, e suas palavras voam cada vez melhor. Oral ou escrita, a palavra pode ser um instrumento do poder ou ponte de encontro. A desqualificação tinha, e continua tendo, outro motivo muito mais realista: estamos amestrados para ouvir e repetir a voz do vencedor.
A propósito, vale a pena mencionar a importância que teve a palavra, uma só palavra, durante o recente processo contra os militares que executaram a matança da comunidade indígena de Xamán, na Guatemala. A carnificina ocorreu em 1995, já no período que chamam democrático, e havia uma montanha de provas que condenavam os assassinos; mas até agora o assunto não deu em nada. A secretária que transcreveu o auto processual cometera um erro ortográfico na qualificação penal: ejecusión extrajudicial, escreveu. Os advogados do exército sustentaram que esse delito, escrito assim, ejecusión, não existe. O promotor protestou: foi ameaçado de morte e partiu para o exílio.
O Teatro do Bem e do Mal - Eduardo Galeano
A PalavraTudo é tudo!
"Todas as coisas do mundo não cabem numa idéia.
Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo."
Arnaldo Antunes
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Hora de organizar as fotos...
Ontem recebi um e-mail da Gil com um link para as fotos que ela e o Ninho trouxeram da viagem que acabaram de fazer para a Colômbia! Mal pude acreditar: eles recém chegaram e já organizaram as dezenas e dezenas de fotos (que hoje se tira com as cameras digitais), e ainda por cima todas com legendas!!! Fiquei com a sensação de que vou levar as minhas centenas e centenas de embaralhadas e já um tanto esquecidas fotos comigo, sem ter tido o prazer de compartilhá-las com os amigos...
Talvez esse blog tenha essa função de ir me ajudando a selecionar e divulgar as minhas fotinhos, mas hoje coloco aqui uma foto do casal recém chegado... E uso a legenda DELES para dizer o que EU achei da Colômbia...
Também adorei!
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Mercar é trabalho de muitos!
Adoro o termo 'mercar' bastante usado pelo capeta Carybé ao relatar o mercado mais popular e autêntico de Salvador. Não é o mercado Modelo não! Longe disso! É o mercado onde filmaram o "Cidade Baixa", aquele que as pessoas fazem caras e bocas quando escutam você comentar que pretende visitá-lo e emitem um estrondoso "mas, sozinha?!?!?!?" e em seguida te despejam dezenas de conselhos, dicas e precauções a adotar para o intento. Só após tudo isso você está apto a se aventurar por tamanho submundo, é né, já que você insiste... e aí sim pode se maravilhar... Claro que até chegar lá carrega-se uma boa carga de receio que pesa mais do que tudo, mas que se desfaz nos primeiros minutos ao chegar e começar a adentrar as ruelas de barracos... aos poucos vai se transformando em um torturante sentimento de vergonha... um sentimento que se tenta esconder dentro dos mesmos artifícios que se usou para chegar! De que perigos estamos mesmo falando? Mesmo assim nada de fotos... a máquina ficou no seguro esconderijo da casa..., mas as imagens, ah estas ficaram estampadas na melhor parte da memória ...
Durante a sequência de visitas a dezenas de mercados salpicados no roteiro errante da viagem, este quadro se repete... Só a nossa postura é que vai mudando... Quantos e quão diversos são! Haja mercado pra escancarar tanta realidade...
E tem a Feira de Água dos Meninos
“É como se fosse a enxurrada das ladeiras do Canto da Cruz, do Quebrabunda, da Lapinha e da Água Brusca. Fica lá embaixo, junto ao mar, num amontoado inverossímel de barracas, divididas por becos, ruelas e passadiços, formigando de gente, de saveiros, de jegues, frutas, legumes, jabá, cestas e tamancos, camarão seco e raladores de coco, fifós, cana e farinha de guerra.
Cerâmica de todo recôncavo. De todos os feitios e para todos os usos.
Como os depósitos de inflamáveis invadiram o território da feira, um areal alvo onde se comia, à noite, sarapatel e mocotó, onde se amava, se dormia ou se ouviam histórias do mar ao pé dos saveiros. Areal que deu nome aos famosos capitães de areia; pois bem, como os depósitos de inflamáveis invadiram seu território, a feira invadiu a rua. Começa do lado de fora entre as palmeiras reais. Mercam-se ali panelas de alumínio, bacias, canecos e bules. Banha de jibóia para reumatismo, canela de ema para a asma e folhas, casca de paus para curar de tudo. Quase sempre há uma barraca onde se exibe o “homem fera” ou a “mulher-macaco”, bancas de ferro velho e algum cego tirando cantigas.
Na principal rua, a rua que atravessa a feira, mal se pode passar de tanto povo, carroças, caminhões, jegues encangalhados, vendedores, camelôs, balaios. Para andar com um sossego relativo é preciso passar às estreitas ruas entre barracas, ali o espetáculo humano é inesgotável, as mulheres do carimã peneirando a puba, sumidas no cone de sombra de seus enormes chapelões, quando mercam deixam ver seu riso tão branco como os cubinhos de goma que estão oferecendo. Há barracas especializadas em passarinhos onde esvoaçam campeões do canto e da cor, às vezes algum macaco enriquece a fauna, e, um pouco avacalhado com a cor das cuiúbas e dos sofrês, se movimenta amarrado pelo meio fazendo caretas e obscenidades para regozijo da molecada.
Há montanhas de cachos de bananas, de laranja, de pinha, de limas, de cana-de-açúcar, pois é aí que se abastecem os vendedores ambulantes, os hotéis, restaurantes e famílias pobres, Hercúleos carregados descarregam os saveiros, entram na água até o umbigo e voltam carregados com tijolos, carvão, balaios imensos de jiló, porcos, capoeiras de galinhas d’angola ou feixes de caibros, numa técnica toda especial passam a carga a outro e este a outro mais conforme a distância entre o saveiro e o depósito.
No setor das carnes verdes há um personagem sinistro, é o homem que tira miolos e língua das cabeças de boi. Com seu cepo da jaqueira e seu grande machado, este carrasco proletário destrincha as cabeças esfoladas onde os grandes olhos esbugalhados parecem perguntar onde estava o resto do boi. Este personagem está rodeado de mandíbulas e ossos e descarrega suas machadadas com a mesma precisão que seu velho antepassado inglês, o encarregado de decapitar Ana Bolena.
Em água dos meninos, se concentra a produção do recôncavo, chegam as mercadorias de Santo Amaro, Nazaré das Farinhas, Cachoeira, São Francisco do Conde e outras cidades, estivadas na barriga chata dos saveiros que esperam banzos, adernados que os livrem desse peso todo.
O mal da feira é o cheiro espesso a maresia, o barro se chove ou a poeira se faz sol, mas o colorido e a vida compensam e um gole de cachaça com arruda de um dos inúmeros botequins nos limpa a goela e o coração fazendo-os esquecer o cheiro do mangue na maré de vazante, o pó e a inhaca das capoeiras de galinha.”
Carybé
Para colorir...
sábado, 24 de novembro de 2007
Se perdendo pela América Latina...
Perdi roupa, perdi sapato, perdi colar, perdi brinco, perdi cartão, perdi dinheiro, perdi ônibus,
perdi contatos, perdi a hora, perdi lugares, perdi pessoas, telefones,
e-mails, palavras, oportunidades... quase perdi o rumo...
perdi contatos, perdi a hora, perdi lugares, perdi pessoas, telefones,
e-mails, palavras, oportunidades... quase perdi o rumo...
Ah, graças a Deus que eu não perdi a AMIGA!!!!
Santa Elena de Uairen - Gran Sabana - Venezuelasexta-feira, 23 de novembro de 2007
Sobre ídolos e ecovilas...
Ídolo pra mim é alguém que eu admiro muito e com quem tive a oportunidade de transformar a minha existência, ou seja, um ser real e muito próximo. De repente percebi que andei falando de dois deles, e não posso deixar de citar meu grande mestre, do qual nutro muitas saudades também, e com quem praticamente cresci, me formei e tive a oportunidade de trabalhar, o que quer dizer, conviver!
Salve Edson Hiroshi Séo, grandissíssimo latino americano de olhinhos bem puxados!
idealizador da Ecovila Clareando em Piracaia / SP ; Fellow da Ashoka (USA) e Mokiti Okada ( Japão ) ; coordenador de cursos de Ferrocimento Artesanal; coordenador de cursos sobre Usos do Bambu; coordenador do Acampamento Franciscando p/ crianças e adolescentes; Prêmio "Qualidade de Vida"- SP / 1996; Prêmio "Qualidade Verde"- DF / 1998; autor dos livros : "Unidade da Vida" e "Terapia Real Cura-te a Ti Mesmo"; colaborador no livro " Terapia Ortomolecular Natural " - Profº Francisco AntunesPublico aqui dois relatos, dos vários, que ele vem registrando enquanto põe de pé seu grande projeto atual: a Ecovila Clareando!
"Caixa d'água abençoada "

Queridos irmaos da lista Desde que assisti o filme "quem somos nós", me impressionou a parte da memória da água. Quando fiz a nossa caixa d’água esférica , contratei um mestre de obras mineiro que conheci num grupo de meditação. Pessoa de alma boa e boa energia. Quando apresentei o DESENHO da caixa pra ele, (mal sabe ler) ele calculou o material que iria gastar... Me passou a lista. Depois fiz o cálculo estrutural (com raiz quadrada, integral e PI) e pasmem, a diferença foi menos de 5% ! Ai entendi porque o chamam de MESTRE de obras...
Durante a construção, contratamos pessoas escolhidas a dedo e sempre que dava eu ia tocar a viola para relaxar a equipe. Tudo transcorreu em paz e sem acidentes... Bem, a caixa ficou pronta e para impermeabilizá-la contratei um ajudante de boa energia. Ele casado novo, com filhos pequenos, adventista, vegetariano e excelente hortelão. Seu sonho é poder viver de hortas. Bem, como a caixa d’água é esférica, a escada escorrega quando apoiada na parede interna, obrigando um a sentar no primeiro degrau para não ter acidentes. Enquanto ele pintava, eu cantava músicas e mantras e quando eu pintava eu pedia pra ele cantar as músicas de sua igreja. Ah, e o som lá dentro é maravilhoso, parece que tem várias pessoas cantando com quem canta, fica parecendo um coro gregoriano...
Bem, e o filme com tudo isso ?Quero dizer que toda vez que alguém vier nos visitar vou pedir para escrever um sentimento na caixa d’água, pois tudo de melhor que eu tenho impregnei durante todo percurso da sua execução. Bem, por enquanto é isso.
Um abraço a todos do H.
"Central do Brasil"
queridos irmãos da lista
O clareando contratou uma empresa para implantar a rede hidráulica que levou seus operários. Eles construíram um barracão de obra que fica entre a horta e a casa do caseiro. São todos de Alagoas e muitos deles vieram direto pra nossa obra, sendo a primeira vez que se afastaram da família. De vez em quando vou assistir o jornal porque em casa a tv não pega. Alguns são exímios capoeiristas e se interessaram por praticar yoga comigo, e fazemos saudação ao sol antes do trabalho iniciar. Tirei algumas fotos pra eles enviarem pra seus familiares e , surpresa, a maioria não sabe escrever. Pra resolver isso desencalhei minha arqueológica Oliveti Lettera 22 e me dispus a escrever a cartinha pra eles. Cada um foi isolado do outro pra não ficar inibido. Me senti um personagem do filme "central do Brasil", e minha varanda se coloriu de variadas emoções. Fiquei emocionado de perceber por detrás daqueles homens broncos tamanha sensibilidade. Desfiaram suas saudades e suas angustias enquanto meus olhos marejados se atrapalhavam no teclado. Depois, ao entregar a carta com o envelope, aquelas mãos fortes a seguravam como se fosse um precioso tesouro, nela a distância parecia ser encurtada e podia-se tocar o ser amado. Sim, meus queridos irmãos da lista, viver ecovila não é um lugar no futuro a se chegar, porque Deus fez do planeta todo uma ecovila da fraternidade humana, e não é preciso um local próprio ou um grupo para manifestar o amor incondicional de que tanto se discursa, onde se está e com quem se está é o momento certo.
Um abraço a todos, até a proxima comunicação. Hiroshi
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
mais e mais e mais saudades...
Ai França, o que teria sido Olinda sem tu rapaz? Heim? O que teria sido se não fosse eu a louca de ir ao encontro de um desconhecido que marca uma certa hora ao meio dia, no banco de uma certa praça do Carmo, a pegar carona com uma outra desconhecida minha, ou ainda outra vítima sua, a conduzirnos pelas ruas de recife, depois as ruelas, o chão de barro, as pontes, os barracos, a lama, os porcos, e enfim, os tambores! E os grandes personagens das nossas vidas...
...você é testemunha daqueles sorrisos todos, lindos, daqueles meninos que se dependuravam pelos nossos pescoços, nosso cangote, era tanto braço, tanta perna, que quase não dava pra contar! Daruê pra eles e pra gente, malungo! Discutir Boal, fazer laboratório prático, fugir da burocracia e ir parar num bordel em plena praça central de João Pessoa... Ricardo Reis, Chico Viola,... só contigo e seus amigos maravilhosos... Quantos são eles? Isso se conta? Que outro melhor jeito de conhecer Sil? E conviver com Pedra... com as gargalhadas maravilhosas de Kalyna... quantas horas rimos juntos sem saber exatamente o porquê de estarmos rindo, embalados por aquelas contrações contagiantes que tomavam conta até mesmo das reuniões na federal... Ai Roberto Lucio! Marli! Mateus Sá! Forrozear no Virgulino, afoxear nos velhos tempos da Z4, se atolar de lama na festa da lavadeira, e o melhor de todos, amanhecer ao coco de umbigada em dia de sexta feira, lá pelas bandas de Guadalupe... Roda de capoeira angola meu irmão? Só se for com o mestre sapo! E você achou que eu não fosse escapar... será que um dia ainda vou te dar razão rodopiando no centro de uma roda ao som do seu berimbaubear...? Sou lisa também rapaz! E que história é essa de penetrar tão fundo meu olhar pra em seguida me dar umas boas doses de cachaça e um ombro amigo pra chorar... Você quer me convencer que nunca mais abro a porta de casa de manhã e me deparo com Alan Poe , Ítalo Calvino, Solano Trindade ..., todos loucos para entrar? Solano, quem mais poderia ter incorporado Solano Trindade melhor do que tu? Solano pra mim é você! Ah... a cor da exclusão... as agendas... agora me dei conta que está acabando o ano... chamem a mão de veludo! Chame o batman! Que nunca mais atendo o telefone pra ouvir você me ameaçar!
Ah, se não tivesse havido o “eu poeta errante”, eu teria sido tão mais triste... Miró, Mario, Fernando Chile, Pitanga, Maia, poetas marginais...
Boizinho alinhado, Bar da Aloma, Bodega do Veio, Mercado de São José, Microfone, Clube Atlântico, Mercado Eufrásio, Tapioqueiras da Sé, +++++ centenas de botecos anônimos a nos esperar...cachaça meu véio??? To louca pra te encontrar...
O cuzcuz com leite de coco é o seu e o de mais ninguém! E o bobó de camarão natalino é só do meu que você come! A minha herança pra tu foi a vassoura de bruxa que você não passou pra pegar, ela voou. E te trouxe em casa no domingo da sua despedida... o que é que a gente leva dessa vida rapaz? Me conta vai...
Ah França, me apareça nos sonhos, pra todo mundo acreditar...
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
E por falar em saudades...
Saudade é um parafuso
que na rosca, quando cai,
só entra se for torcendo,
porque batendo não vai.
E se enferrujar por dentro,
pode quebrar, mas não sai...
literatura de cordel
O autor?
Antônio Pereira de Moraes, um violeiro e poeta popular de Itapetim, em Pernambuco, um camponês analfabeto que ficou conhecido como poeta da saudade... já falecido...
O saudoso?
Luis(ito)... um estudante de cardiologia que cuida do coração das pessoas fazendo 'callartes' ... láááá em Alajuela, na Costa Rica...
A saudosa?
eu!!!
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
as primeiras impressoes...
Habita dentro um pouco cada livro
Percorre a casa em notas soltas
Atravessa horas em pensamentos oníricos
Arrisca-se no colorido de outras cores
Cobre as paredes com volumes misteriosos,
Depois despenca por elas em contorcidos tons de verde,
por vezes esbarram em gravuras perenes, retratos, desenhos, pinturas...
Miniaturas...
Formas antigas sustentam outras criativas
Espaços ocupam...coisas que ocupam...espaços. Luzes indiretas. Essências sóbrias.
Está embalado um pouco em cada frasco e solto outro tanto em cada minúcia.
Pequenas memórias... cereais diversos... compostos de misturas...
Guarda e recicla e se perde
Cria no arremedo da casa
Entreve a rua, o céu e o cinza
Na suave horizontalidade
Embala na fumaça que sobe
E desce no ar que expira
Percorre a casa em notas soltas
Atravessa horas em pensamentos oníricos
Arrisca-se no colorido de outras cores
Cobre as paredes com volumes misteriosos,
Depois despenca por elas em contorcidos tons de verde,
por vezes esbarram em gravuras perenes, retratos, desenhos, pinturas...
Miniaturas...
Formas antigas sustentam outras criativas
Espaços ocupam...coisas que ocupam...espaços. Luzes indiretas. Essências sóbrias.
Está embalado um pouco em cada frasco e solto outro tanto em cada minúcia.
Pequenas memórias... cereais diversos... compostos de misturas...
Guarda e recicla e se perde
Cria no arremedo da casa
Entreve a rua, o céu e o cinza
Na suave horizontalidade
Embala na fumaça que sobe
E desce no ar que expira
Segundas tentativas...

Quando eu fui pra Salvador pela primeira vez, tive uma grande dificuldade de encontrar acervos, exposições, gravuras, ...de Carybé. Não desisti: na segunda incursão fui atrás novamente e encontrei um pouco do que procurava, muito pouco, aliás pouquíssimo perto do que mais tarde apareceu em Sao Paulo, no museu afro do Ibirapuera.Em Belém, nesta viagem, a história se repetiu... onde estão as obras de Ismael Nery? Segunda tentativa...?
Esta obra compos a exposiçao "Erotica" - Sao Paulo
E por falar em pitaya...

Pitaya é um fruto exótico, silvestre, de um colorido intenso. É uma planta rústica "xerofítica" da família das cactáceas, originaria do México tropical, Colômbia e as Antilhas. Nome dado ao fruto de várias espécies de cactos epífitos, sobretudo do género Hylocereus mas também Selenicereus, nativas do México e América do Sul e também cultivadas no Vietnam e, Malásia, Israel e China. O termo pitaia significa fruta escamosa, também sendo chamada de fruta-dragão em algumas línguas, como o inglês. Como a planta só floresce pela noite (com grandes flores brancas) são também chamadas de Flor-da-Lua ou Dama da Noite.
No México é empregada para preparar sorvetes, iogurtes, doces, marmeladas, geléias, sucos, refrigerantes ou se quiser pode comê-la fresca. Além da sua fantástica beleza e sabor exótico, se atribuem propriedades afrodisíacas e curativas, em especial a gastrite.
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Sobre permacultura na GUATEMALA

Ronaldo Lec Ajcot-fundador IMAP Ronaldo Lec Ajcot , a Maya Kaqchiqel, nació en 1971 en San Lucas Toliman Guatemala. En 1990 fue forzado a salir de su país por la violencia de la guerra civil. En 1994 se graduo de Antropología Cultural con mención en estudios de Paz en la Universidad de St. Thomas en Minesota USA. A su regreso a Guatemala 1996 organizó su primer curso de Diseño de Permacultura en la región bajo la ayuda de Permacultura America Latina (PAL) como parte de la busqueda de alternativas para la agricultura. De alli adopta la permacultura como herramienta para revitalisar la tierra y la siembras, la cultura y el medio ambiente en su localidad. En 1997 facilitó un curso de permacultura de donde se gesto una organización de la comunidad llamada Asociación lja'tz dedicada a la reforestación de la región. Esta estructura se convirtió en una granja experimental y centro agro-ecologico donde Ronaldo se desempeña como director del programa. En 1999 deja la asociación lja'tz para dedicarse a la creación de su vision para los Maya creando IMAP Instituto Centro Americano de Permacultura del cual es su director.
Não sei contar a beleza do lugar onde está o centro de permacultura que pouco a pouco vai sendo construído sob a supervisão do Ronaldo. Em Atitlán são campos e mais campos de culturas diversas, especialmente de café, plantados em torno de majestosos vulcões, que ficam ao redor de um lago gigante, lindo, o lago de Atitlán. Aliás o lago parece uma enorme cratera de vulcão, não fossem eles em volta e eu defenderia esta idéia.
Foi meio constrangedor chegar lá na hora do almoço, todo mundo ao redor de uma enorme mesa compartilhando a comida que preparou...e eu, meio faminta, uma estranha, chegando literalmente do nada. Aquele clima horroroso de um estranho no ninho começou a se quebrar quando apresentei a minha nacionalidade...ah, que maravilhoso trunfo é este em territórios estranhos! Liquidei a minha cara de gringa e instantaneamente um sentimento de ‘hermandade’ já tomou conta do ambiente, na mesma hora em todos nós começamos a nos apresentar. Pouco a pouco fui sentindo o clima do lugar e das pessoas em sintonia com a beleza que era tudo aquilo.
O Ronaldo era o mais desconfiado. Logo que acabamos de comer e eu de lavar as louças, afinal de contas... ele já foi se esquivando e mostrando trabalho. Acho que ele não esperava que eu também me canditasse ao turno da tarde... Mesmo assim não deixou barato, me presenteou com um compos (composto, adubo) de 2m por 2m para oxigenar e baixar a temperatura, o que significa transportar toda essa montanha de terra misturada a restos de vegetais, comida, fibras, ... de um lado para o outro do chão batido onde estava, coberto por uma lona . Eu, que depois da semana de trabalho na Costa Rica já me julgava experiente, topei, só não me dei conta das proporções e... passei a tarde toda com enxada na mão, mãos primeiro calejadas, depois em carne viva! Sol, calor, muito suor. Dor nas costas, braços fracos e a sensação de ter sido atropelada por um trator. E uma maravilhosa pitaya reluzente, pink, que suculenta passava por mim, ia e voltava , e depois, parada em frente ao compôs, me seduzia. Esse era o Ronaldo me incentivando pro trabalho! Pitaya?!?! Só depois da montanha de compos revolvida!!! Pronto, foi a prova de fogo: mão na massa, uma tarde juntos, eu lambuzada de pitaya e as portas do centro de permacultura já estavam abertas, já éramos praticamente amigos!
O Ronaldo também se associou a outro guatemalteco muito especial, o Jairo. Um antropólogo um tanto decepcionado com a vida pós universitária dos enciclopedistas, aquele blá blá blá, da pesquisa, da falta de verbas, projetos e incentivos. Recém formado, nativo da capital com cara de gringo (aconteceu isso muito coma gente no norte do Brasil, eu particularmente acho terrível), estava fazendo das tripas coração para conduzir um trabalho de organização social com vários povoados do lago. Ou seja, voluntário. Incrível, mesmo com aquele ar distante e vazio, o entusiasmo e a dedicação com que ele e seu amigo de formação trabalhavam por ali me surpreenderam. Graças a ele conheci San Thiago de Atitlan, o mais agitado povoado de nativos do lago, cervejinha de boteco (lá, boteco é aonde mulher não vai!), comida típica e um céu sem fim de estrelas...
...isso tudo foi depois de ter passado em San Lucas Toliman, no I’jatz! (organização que desenvolve um programa de comércio justo e bem sucedido com várias famílias indígenas de agricultores de café orgânico frente a grandes corporações que atuam na área. Paralelamente iniciou numerosos projetos de pequenas cooperativas com crianças órfãs e inclusão social/valoração da mulher. Além de desenhar projetos permaculturais para implementar com as famílias. Além de muuuuuito muito mais. Trabalho do caraio!).
Taí lugares onde eu teria ficado, alguns meses...
IMAP: www.permacultura.org/es/guatemala.html
I´JATZ: http://www.ijatz.org/
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Guatemala: retratos

Assim foi percorrer a Guatemala. Enquanto se via a beleza dos traços, o colorido das roupas, a intensidade dos bordados, o comprimento das tranças em meio a paisagens paradisíacas... estava também o semblante do cansaço, o esforço molhado de suor, a expressao de muita pobreza e vida dura. Nenhum outro país demonstrou uma apatia e uma desesperança tão generalizada, que de tão contagiada se transformava em uma imagem linda, forte, pulsante. A desesperança também é uma 'qualidade'. Era como admirar uma enorme paisagem vestida com garra e personalidade.
A historia marca o povo na sua essencia.
mas como era bonito este povo...
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
Foram 180 dias viajando...
...através de ônibus, microônibus, shuttle, taxicleta, bicicleta, van, avião, barco, lancha, canoa, veleiro, jipe, pick up, tuc tuc, trem, metro, metrobus, taxi, carona, e muito pé!
Pagando em várias moedas: bolivares, colones, balboas, pesos mexicanos, quetzals, collons, cordobas, lempiras,... e dolares!
no total, por terra, foram 296 horas dentro de algum veículo de 4 rodas...
...navegando, mais de 178 horas através dos mais diversos tipos de transporte marítimos...
...os vôos somados me deixaram 21 horas no ar...
...mais as 11 horas de trem, em uma das viagens mais bonitas que existem no mundo pela Serra Madre Ocidental no norte do México (maior que o Gran Canyon!)...
Somando horas e arredondando cálculos foram cerca de 500 horas kilometrando para mudar de território! As horas circulando nos lugares, são incalculáveis!
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Sair, viajar, ver, sentir, trocar são experiências únicas e pessoalíssimas. Assim como um Marco Polo percorrendo e relatando as "cidades invisíveis" para o grande imperador Kublai Khan, este blog é também, e acima de tudo, sobre viajantes...e suas viagens...seja lá de que forma forem...
E por falar em reflexões de viajantes...
“Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir:
a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.”
a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.”
Italo Calvino
A ILUSÃO DO MIGRANTE
Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me susurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.
Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é conseqüência
de um certo nascer ali.
Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta
de sítio algum a nenhum.
Que carregamos as coisas,
Que carregamos as coisas,
moldura da nossa vida,
rígida cerca de arame,
na mais anônima célula,
e um chão, um riso, uma voz
ressoam incessantemente
em nossas fundas paredes.
Novas coisas, sucedendo-se,
iludem a nossa fome
de primitivo alimento.
As descobertas são máscaras
do mais obscuro real,
essa ferida alastrada
na pele de nossas almas.
Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço,
na ilusão de ter saído.
Ai de mim, nunca saí.
Lá estou eu, enterrado
por baixo de falas mansas,
por baixo de negras sombras,
por baixo de lavras de ouro,
por baixo de gerações,
por baixo, eu sei, de mim mesmo,
este vivente enganado,
enganoso.
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 10 de novembro de 2007
Logo de cara e olha o que eu encontro: o dia do portunhol! Já existe!
Los Origines del Portugues y del Portuñol
Cuenta una leyenda que un Viernes (1), cuando Portugal separó de España, el Rei portugues jamó sus sábios y dice: - Aora somos independientes de los cabrones Españoles y necessitamos una léngua própria. Ustedes van tener que inbentarla. Pero atención, tiene que ser una lengua de permita que nosotros puedamos comprender lo que hablan elos, pero elos non puedan comprender lo que hablamos nós otros. Los sábios piensaran muchicimo y criaron lo Português y essa situación tan estraña: la maioria de los hablantes de lo Português entiendem lo que dicem los hablantes del Espanhol, pero al revés no és verdade. Unos brasileños cabrones, cuando descubrieran que las diferencias eran pequeñitas, en um esfuerso de mejorar la comunicación com sus vizinos, inventaran lo Portuñol (2): un tipo de Português ligeiramente modificado que puede ser entendido (o por lo menos se espera!) por los hablantes de lo Español y (algunas raras veces) hasta por algunos hablantes de lo Argentino! Mui bién pués, ahora hay también um wiki para estudiar el portuñol y hueje (?) és el Dia del Portuñol: en el último viernes* de otubre.
Cuenta una leyenda que un Viernes (1), cuando Portugal separó de España, el Rei portugues jamó sus sábios y dice: - Aora somos independientes de los cabrones Españoles y necessitamos una léngua própria. Ustedes van tener que inbentarla. Pero atención, tiene que ser una lengua de permita que nosotros puedamos comprender lo que hablan elos, pero elos non puedan comprender lo que hablamos nós otros. Los sábios piensaran muchicimo y criaron lo Português y essa situación tan estraña: la maioria de los hablantes de lo Português entiendem lo que dicem los hablantes del Espanhol, pero al revés no és verdade. Unos brasileños cabrones, cuando descubrieran que las diferencias eran pequeñitas, en um esfuerso de mejorar la comunicación com sus vizinos, inventaran lo Portuñol (2): un tipo de Português ligeiramente modificado que puede ser entendido (o por lo menos se espera!) por los hablantes de lo Español y (algunas raras veces) hasta por algunos hablantes de lo Argentino! Mui bién pués, ahora hay también um wiki para estudiar el portuñol y hueje (?) és el Dia del Portuñol: en el último viernes* de otubre.
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Dose Dupla
Algumas doses duplas de flor de caña e...nasce um país...Um país sem fronteiras, espalhado como que respingado em todos os demais, igual aquela bolinha de mercúrio quando cai no chão e se fragmenta em centenas de milhares de pedacinhos, e se espalha, mas que unida tem corpo, tem forma. O que une estas centenas de pessoinhas é um novo velho idioma, que apesar de ainda não oficializado, é falado por todos os brasileiros de língua portuguesa que não cursaram classes de espanhol e todos aqueles que falando espanhol, tentaram aprender o português, e assim, TODOS HABLAMOS PORTUNHOL!!!!!!Duas doses de cuba com flor de caña e o país sem território já tinha um presidente, com corpo de ave e asas de cera, além de um ‘culo quemado’ só não se sabe exatamente como nem porquê. Su nombre? Jorge Gonzalez! Taí um nome super difícil de pronunciar em espanhol: Jorge! RREOR-RRE...ficamos horas tentando pronunciar o primeiro nome dele, só não sabia se o álcool estava ajudando ou atrapalhava... RREORRRR-RRRE... BOM, e o ‘Gonzalez’ do nome (terceira dose vezzzes dois dá quanto?) teve uma influência mexicana dos desenhos do ligeirinho, ou seja, ele tinha ainda um pouco de rato também...Antes que a hora feliz terminasse e voltássemos a ter uma única dose por cuba... Jorge Gonzalez já havia sido comparado com a lenda de Ícaro, não podia se afastar muito da terra para que pudesse continuar a voar, mas não podia estar muito tempo em terra, para que continuasse a caminhar. Até que...mesmo com todos seus atributos de ave e de líder, sua ligeireza e tudo mais... RREORR-RRE Gonzalez DESAPARICIÓ... Os suspeitos? Yo, Gabriela e o CHRIS! Os três primeiros membros deste enoooorme país!E agora a missão: integrar e formar um país sem fronteiras e sem presidente, com uma língua não oficial mas das mais faladas, populoso sem estar povoado, global se não fosse tão individual(izado), esparso e unido, onde nada se sobrepõe, tudo se complementa!
sexta-feira, 20 de julho de 2007
manuscrito, correio, lagrimas...
Eu era um jovem louro e saudável quando adentrei a baía de Guanabara, errei pelas ruas do Rio de Janeiro e conheci Teresa. Ao ouvir cantar Teresa, caí de amores pelo seu idioma, e após três meses embatucado, senti que tinha a história do alemão na ponta dos dedos. A escrita me saía espontânea, num ritmo que não era o meu, e foi na batata da perna de Teresa que escrevi as primeiras palavras na língua nativa. No princípio ela até gostou, ficou lisongeada quando eu lhe disse estava escrevendo um livro nela. Depois deu para ter ciúmes, deu para me recusar seu corpo, disse que eu só a procurava a fim de escrever nela, e o livro já ia pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou. Sem ela, perdi o fio do novelo, voltei ao prefácio, meu conhecimento da língua regrediu, pensei até em largar tudo e ir embora para Hamburgo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco, eu tinha me viciado em Teresa. Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom, então fui a Copacabana procurar as putas. Pagava para escrever nelas, e talvez lhes pagasse além do devido, pois elas simulavam orgasmos que me roubavam toda a concentração. Toquei na casa de Teresa, estava casada, chorei, ela me deu a mão, permitiu que eu escrevesse umas breves palavras enquanto o marido não vinha. Passei a assediar as estudantes, que às vezes me deixavam escrever nas suas blusas, depois na dobra do braço, onde sentiam cócegas, depois na saia, depois nas coxas. E elas mostravam esses escritos às colegas, que muito os apreciavam, e subiam ao meu apartamento e me pediam que escrevesse o livro na cara delas, no pescoço, depois despiam a blusa e me ofereciam os seios, a barriga e as costas. E davam a ler os meus escritos a novas colegas, que subiam ao meu apartamento e me imploravam para arrancar suas calcinhas, e o negro das minhas letras reluzia em suas nádegas rosadas. Moças entravam e saíam da minha vida, e meu livro se dispersava por aí, cada capítulo a voar para um lado. Foi quando apareceu aquela que se deitou em minha cama e me ensinou a escrever de trás para diante. Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa, sem comer em sanduíche, trancado no quartinho da agencia, até que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final: e a mulher amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que havia lavado a sua blusa..."
Chico Buarque
in Budapeste
As lagrimas secaram enfim.
Chico Buarque
in Budapeste
As lagrimas secaram enfim.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Assinar:
Postagens (Atom)









