terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A palavra

Eu gosto tanto das palavras...
que gostaria de saber encadeá-las...
gostaria de acreditá-las...
de sempre poder e saber dizê-las...
a palavra na América Latina... capítulo 1

Quando uma palavra é duas

Na língua maia do Yucatán, "beijar" se diz ts'uts. "Fumar" também.

Em guarani, che ha'u significa "eu como" e também "eu faço amor", e ñe'e significa "palavra" e também "alma".

Em quíchua*, suk é "um" e ao mesmo tempo é "outro".

*Quíchua, (quíchua:Runa simi) também grafado quechua e quéchua, é uma importante língua indígena da América do Sul, ainda hoje falada por cerca de dez milhões de pessoas de diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru ao longo dos Andes. Possui vários dialetos inteligíveis entre si. É uma das línguas oficiais da Bolívia, Peru e Equador.

A palavra e a História

Em 1532, o conquistador Pizarro aprisionou o inca Atahualpa, em Cajamarca. Pizarro prometeu-lhe a liberdade, se o Inca enchesse de ouro um grande quarto. O ouro chegou, desde os quatro cantos do império, e abarrotou o quarto até o teto. Pizarro mandou matar o prisioneiro.
Desde antes, desde quando as primeiras caravelas apontaram no horizonte, até nossos dias, a história das Américas é uma história de traição à palavra: promessas quebradas, pactos descumpridos, documentos assinados e esquecidos, enganos, ciladas. "Te dou minha palavra", segue-se dizendo, mas poucos são os que dão, com a palavra, algo mais do que nada.
Não haverá o que aprender com os perdedores, como em tantas outras coisas? Os primeiros habitantes das Américas, derrotados pela pólvora, pelos vírus, pelas bactérias e também pela mentira, compartilhavam a certeza de que a palavra é sagrada, e muitos dos sobreviventes ainda acreditam nisso:
- Dizem que nós não temos grandes monumentos - diz um indígena mapuche, ao sul do Chile. - Para nós, a palavra continua sendo um grande monumento.
Em língua guarani, ñe'e significa "alma" e também significa "palavra":
- A palavra vale - diz um indígena avá-guarani, no Paraguai - porque é nossa alma. Não precisamos colocá-la no papel, para que nos creiam.
As culturas americanas mais americanas de todas foram desqualificadas, desde o início, como ignorâncias. Em sua maioria, não conheciam a escrita. A Ilíada e a Odisséia, as obras fundadoras disso que chamam a cultura ocidental, também foram criadas por uma sociedade sem escrita, e suas palavras voam cada vez melhor. Oral ou escrita, a palavra pode ser um instrumento do poder ou ponte de encontro. A desqualificação tinha, e continua tendo, outro motivo muito mais realista: estamos amestrados para ouvir e repetir a voz do vencedor.
A propósito, vale a pena mencionar a importância que teve a palavra, uma só palavra, durante o recente processo contra os militares que executaram a matança da comunidade indígena de Xamán, na Guatemala. A carnificina ocorreu em 1995, já no período que chamam democrático, e havia uma montanha de provas que condenavam os assassinos; mas até agora o assunto não deu em nada. A secretária que transcreveu o auto processual cometera um erro ortográfico na qualificação penal: ejecusión extrajudicial, escreveu. Os advogados do exército sustentaram que esse delito, escrito assim, ejecusión, não existe. O promotor protestou: foi ameaçado de morte e partiu para o exílio.
O Teatro do Bem e do Mal - Eduardo Galeano
A PalavraTudo é tudo!
"Todas as coisas do mundo não cabem numa idéia.
Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo."
Arnaldo Antunes

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