Cadernos de viagem.
As vezes encontro anotações de viagens... breves comentários, “pensamentos imperfeitos”... alguns extraordinários! Como é o caso desse, que rabisquei depois de ler um trecho de um livro do Saramago. Apesar da vontade, não mudei nenhuma palavra. Mas tenho que acrescentar um extraordinário muito obrigado ao pais da pura vida, que me inspirou a tentar definir o que é ... extraordinário!
“ Não invento nada. Faço esta declaração imediata porque adivinho já os sorrisos solertes e desconfiados daquela gente para quem o extraordinário é sempre sinônimo de mentira. Essas pobres pessoas não sabem que o mundo está cheio de coisas e momentos extraordinários. Não os vêem, porque para eles o mundo aparece como coberto de cinzas, comido de verdete baço, povoado de figuras que usam roupas iguais e falam da mesma maneira, com gestos repetidos sobre gestos já feitos por outros desaparecidos seres. É gente para quem talvez não haja remédio, mas a quem devemos continuar a dizer que o mundo e o que está nele não são o tão pouco que julgam...”
José Saramago (Apólogo da Vaca Lutadora)
E o que é o extraordinário? Talvez seja só o diferente, o que não foi previsto nas mais platônicas horas do sábio planejamento. Mas para saber extraordinário deve causar sensações... deve ter o frio na barriga de quem, por uns instantes, perde as rédeas da rotina e o controle da freqüência respiratória. Para ser extraordinário tem que acender o brilho do olhar, a umidificaçao excessiva que vem da expansão da alma para quem o corpo fica repentinamente pequenino. O olhar que quer a tudo ver e a tudo não alcança. Para ser extraordinário tem que dar medo, um receio, e assim impulsionar o espírito para a ousadia em cada pequeno momento. Tem que despertar o medo que pode ser o resquício de alguma dor, e esta assim também aparecer. Um soluço, ou vários, substituindo as virgulas de um breve relato. O extraordinário não pode ser nada que não existe. Pode e deve ser sim um profundo agradecimento simplesmente por existir. E pode ser tão simples, mas tão simples, que simplesmente muitos não o percebem, não o tocam e não são por ele acariciados.
Tem que ser PURA VIDA!
sábado, 18 de setembro de 2010
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Voce tem F O M E de que, México...?
Vocês dirão que é pura estupidez a minha,
que é um desatino lamentar-se da sorte,
inda mais desta terra pasma
onde nos esqueceu o destino.
A verdade é que dá muito trabalho se aclimatar à fome.
E ainda que digam que a fome
repartida entre muitos
vira menos fome, a única coisa certa é que todos
aqui
estamos a meio morrer
e não temos nem mesmo
onde cair mortos.
Ao que parece
a perversa vem direto para nós.
Nada de dar nó cego a esse assunto.
Nada disso.
Desde que o mundo é mundo
desandamos a andar com o umbigo grudado no espinhaço
e nos agarrando ao vento com as unhas.
Nos regateiam até a sombra,
e apesar de tudo continuamos assim:
meio atordoados pelo sol maldito
que nos afunda dia a dia aos pedaços,
sempre com a mesma seringa,
como se o rescaldo quisesse reviver mais e mais.
Embora a gente saiba muito bem
que nem ardendo em brasas
acenderá a nossa sorte.
Mas somos teimosos.
Talvez isso tenha conserto.
O mundo está inundado de gente feito a gente,
de muita gente feito a gente.
E alguém tem que nos ouvir,
alguém e mais alguns,
embora arrebentem ou devolvam nossos gritos.
Não é que sejamos rebeldes,
nem que estejamos pedindo a esmola à lua.
Nem está em nosso caminho buscar depressa a pocilga,
ou arrancar para a montanha
cada vez que os cães nos esfaqueiem.
Alguém terá que nos ouvir.
Quando deixamos de roncar feito vespas em enxame,
ou nos volvermos cauda de redemoinho,
ou quando terminamos por escorrer sobre a terra
como um relâmpago de mortos,
então
talvez chegue a todos o remédio
O galo de ouro e outros textos para cinema, Juan Rulfo
que é um desatino lamentar-se da sorte,
inda mais desta terra pasma
onde nos esqueceu o destino.
A verdade é que dá muito trabalho se aclimatar à fome.
E ainda que digam que a fome
repartida entre muitos
vira menos fome, a única coisa certa é que todos
aqui
estamos a meio morrer
e não temos nem mesmo
onde cair mortos.
Ao que parece
a perversa vem direto para nós.
Nada de dar nó cego a esse assunto.
Nada disso.
Desde que o mundo é mundo
desandamos a andar com o umbigo grudado no espinhaço
e nos agarrando ao vento com as unhas.
Nos regateiam até a sombra,
e apesar de tudo continuamos assim:
meio atordoados pelo sol maldito
que nos afunda dia a dia aos pedaços,
sempre com a mesma seringa,
como se o rescaldo quisesse reviver mais e mais.
Embora a gente saiba muito bem
que nem ardendo em brasas
acenderá a nossa sorte.
Mas somos teimosos.
Talvez isso tenha conserto.
O mundo está inundado de gente feito a gente,
de muita gente feito a gente.
E alguém tem que nos ouvir,
alguém e mais alguns,
embora arrebentem ou devolvam nossos gritos.
Não é que sejamos rebeldes,
nem que estejamos pedindo a esmola à lua.
Nem está em nosso caminho buscar depressa a pocilga,
ou arrancar para a montanha
cada vez que os cães nos esfaqueiem.
Alguém terá que nos ouvir.
Quando deixamos de roncar feito vespas em enxame,
ou nos volvermos cauda de redemoinho,
ou quando terminamos por escorrer sobre a terra
como um relâmpago de mortos,
então
talvez chegue a todos o remédio
O galo de ouro e outros textos para cinema, Juan Rulfo
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Mas para que servem os olhos...
...além de olhar para os amigos e para os presentes maravilhosos que eles, mesmo sem saber, nos oferecem, sempre?
Bem, vou aproveitar esse texto de Cortazar, descoberto-apreciado-presentado pela SIL, vou reproduzi-lo aqui no blog, e vou ainda cometer a ousadia de trocar o nome do privilegiado-homenageado "OTANO" (o qual infelizmente desconheço) pelo nome do nao menos talentoso "Edwards", e assim, nessa tremenda cara de pau, fazer essa tremenda homenagem a um grande homem da minha vida!
OTANO. 1949
(catálogo da expo de Otano na Galeria Cantú, Bs As 5 al 17/12/49)
Cosa buena es pintar, si sirve para despintarnos la mala pintura que cubre la realidad enseñada y nos tienecon el alma al duco. Antes de enternecernos frente a la lámina de la Primavera (quinto grado) habíamos pasado por un tiempo de ver y entender, a esas horas en que amábamos los vidrios facetados, la deformacion reveladora de los sifones contra la luz, el espetáculo maravilloso de una cucaracha rabiando en un calidoscópio.
Tenemos muchísimos parpados, y en lo hondo, y perdidos están los ojos. La lista de parpados - que continúo descubriendo y clasificando- incluye la instrucción primaria, el contrato social, la tradición, el culto a los antepasados sin discriminar entre los meritorios y los idiotas, el realismo ingenuo, la viveza, el a mi no me engrupen, la necesidad de hacer juego con el ropero provenzal, el cine y Vasari. Los parpados son muy útiles porque protejen los ojos; tanto que al final no los dejan asomarse a beber su vino de luz.
Otano (Edwards), con grandes pinzas, se ha puesto a arrancar parpados. Ay duele; vaya si duele. Como que hace ver estrellas. LOS OJOS SON PARA VER LAS ESTRELLAS.
Julio Cortázar (Tati)
Feliz aniversario ED
Bem, vou aproveitar esse texto de Cortazar, descoberto-apreciado-presentado pela SIL, vou reproduzi-lo aqui no blog, e vou ainda cometer a ousadia de trocar o nome do privilegiado-homenageado "OTANO" (o qual infelizmente desconheço) pelo nome do nao menos talentoso "Edwards", e assim, nessa tremenda cara de pau, fazer essa tremenda homenagem a um grande homem da minha vida!
OTANO. 1949
(catálogo da expo de Otano na Galeria Cantú, Bs As 5 al 17/12/49)
Cosa buena es pintar, si sirve para despintarnos la mala pintura que cubre la realidad enseñada y nos tienecon el alma al duco. Antes de enternecernos frente a la lámina de la Primavera (quinto grado) habíamos pasado por un tiempo de ver y entender, a esas horas en que amábamos los vidrios facetados, la deformacion reveladora de los sifones contra la luz, el espetáculo maravilloso de una cucaracha rabiando en un calidoscópio.
Tenemos muchísimos parpados, y en lo hondo, y perdidos están los ojos. La lista de parpados - que continúo descubriendo y clasificando- incluye la instrucción primaria, el contrato social, la tradición, el culto a los antepasados sin discriminar entre los meritorios y los idiotas, el realismo ingenuo, la viveza, el a mi no me engrupen, la necesidad de hacer juego con el ropero provenzal, el cine y Vasari. Los parpados son muy útiles porque protejen los ojos; tanto que al final no los dejan asomarse a beber su vino de luz.
Otano (Edwards), con grandes pinzas, se ha puesto a arrancar parpados. Ay duele; vaya si duele. Como que hace ver estrellas. LOS OJOS SON PARA VER LAS ESTRELLAS.
Julio Cortázar (Tati)
Feliz aniversario ED
terça-feira, 7 de setembro de 2010
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