Vocês dirão que é pura estupidez a minha,
que é um desatino lamentar-se da sorte,
inda mais desta terra pasma
onde nos esqueceu o destino.
A verdade é que dá muito trabalho se aclimatar à fome.
E ainda que digam que a fome
repartida entre muitos
vira menos fome, a única coisa certa é que todos
aqui
estamos a meio morrer
e não temos nem mesmo
onde cair mortos.
Ao que parece
a perversa vem direto para nós.
Nada de dar nó cego a esse assunto.
Nada disso.
Desde que o mundo é mundo
desandamos a andar com o umbigo grudado no espinhaço
e nos agarrando ao vento com as unhas.
Nos regateiam até a sombra,
e apesar de tudo continuamos assim:
meio atordoados pelo sol maldito
que nos afunda dia a dia aos pedaços,
sempre com a mesma seringa,
como se o rescaldo quisesse reviver mais e mais.
Embora a gente saiba muito bem
que nem ardendo em brasas
acenderá a nossa sorte.
Mas somos teimosos.
Talvez isso tenha conserto.
O mundo está inundado de gente feito a gente,
de muita gente feito a gente.
E alguém tem que nos ouvir,
alguém e mais alguns,
embora arrebentem ou devolvam nossos gritos.
Não é que sejamos rebeldes,
nem que estejamos pedindo a esmola à lua.
Nem está em nosso caminho buscar depressa a pocilga,
ou arrancar para a montanha
cada vez que os cães nos esfaqueiem.
Alguém terá que nos ouvir.
Quando deixamos de roncar feito vespas em enxame,
ou nos volvermos cauda de redemoinho,
ou quando terminamos por escorrer sobre a terra
como um relâmpago de mortos,
então
talvez chegue a todos o remédio
O galo de ouro e outros textos para cinema, Juan Rulfo
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário