quarta-feira, 22 de julho de 2009

à procura de milagres

Saudades

saudades de Seu Zé Maria, Dona Vitoria, Vitorinha e irmaos. Saudades do Leo, cantando ao leu para a lua. Saudades daquela lua de novela que torturava nossos coraçoezinhos apaixonados. Di Ritinha e seus inumeros inquilinos.
Saudades dos momentos, da vista e das visitas, da cachaça, das tempestades aterrorizantes, da maresia e seus vidros grudentos, da luneta, de pegar onda com caiaque em territorio de tubarao. saudades do som das ondas. do cheiro. da briga das cores na imensa paisagem. Do trafego maritmo... Ai, saudades do brega em praia de domingo!
Saudades, saudades, saudades.

é Milagres...
agora tudo o que restou sao ecos de vozes que ficaram presos na sua carcaça de despedaçantes argamassas e sinuosas paredes de concreto e cimento. Ruindo devagar, abocanhada lentamente pelas ondas enferrujantes de sal e pela umidade verde dos fungos.
E segue... triste.. abandonada... humilhada pelos traços vandalos dos que nunca a habitaram...

Silenciosamente...

... como um velho que caminha a muito custo apoiando-se na velha bengala da memoria

A Casa dos Milagres, Olinda, julho de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

enquanto isso em algum lugar di Olinda...


Postando di Olinda... rua das Bertiogas número 140...da varanda com vista para a cidade...dentre mangueiras, coqueiros e muito verde mais... e o som de fundo: ensaio da orquetra contemporânea de Olinda... precisa dizer mais??

Casinha da Yara

ou ainda casinha da "cuca"

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O fio da vida e começo das coisas

Pode-se mesmo a gente saber, com certeza, como é um caso começou, aonde começou, porquê, pra quê, quem? Saber mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, desfaz ou estraga conversas, as macas (conversa, questão, caso)? Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princípio, quando chega nesse princípio vê afinal esse mesmo princípio era também o fim de outro princípio e então, se a gente segue assim, para trás ou para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, pára, esconde, aparece... E digo isto, tenho minha razão. As pessoas falam, as gentes que estão nas conversas, que sofrem os casos e as macas contam, e logo ali, ali mesmo, nessa hora em que passa qualquer confusão, cada qual fala a sua verdade e se continuam a falar e discutir , a verdade começa a dar fruta, no fim é mesmo uma quinda de verdades e uma quinda de mentiras, que mentira já é uma hora de verdade ou o contrário mesmo....
É assim como um cajueiro, um pau velho e bom, quando dá sombra e cajus inchados de sumo e os troncos grossos, tortos, recurvados, misturam-se, crescem uns para cima dos outros, nascem-lhes filhotes mais novos, estes fabricam uma teia de aranha em cima dos mais grossos e aí é que as folhas, largas e verdes, ficam depois colocadas, parece são moscas mexendo-se, presas, o vento é que faz. E os frutos vermelhos e amarelos são bocados de sol pendurados. As pessoas passam lá, não lhe ligam, vêem-lhe ali anos e anos, bebem o fresco da sombra, comem o madura das frutas, os monandengues (crianças) roubam as folhas a nascer para ferras as suas linhas de pescar e ninguém pensa: como começou esse pau? Olhem-lhe bem, tirem as folhas todas: o pau vive. Quem sabe diz o sol dá-lhe comida por ali, mas o pau vive sem as folhas. Suba, nele, partam-lhe os paus novos, aqueles em vê, bons para pau-de-fisga, cortem-lhe mesmo todos: a árvore vive sempre com os outros grossos filhos dos troncos mais-velhos agarrados ao pai gordo e espetado na terra. Fiquem malucos, chamem o tractor ou arranjem as catanas, cortem, serrem, partam, tirem todos o s filhos grossos do tronco-pai e depois saiam embora, satisfeitos: o pau de cajus acabou, descobriram o princípio dele. Mas chove a chuva, vem o calor, e um dia de manhã quando vocês passam no caminho do cajueiro, uns verdes pequenos e envergonhados estão espreitar em todos os lados, em cima do bocado grosso, do tronco-pai. E se nessa hora, com a vossa raiva toda de não lhe encontrarem o princípio, vocês vêm e cortam, rasgam, derrubam, arrancam-lhe pela raiz, tiram todas as raízes, sacodem-lhes, destroem, secam, queimam-lhes mesmo e vêem tudo fugir para o ar feito fumos, preto, cinzento-escuro, cinzento-rola, cinzento-sujo, branco, cor de marfim, não adiantem ficar vaidosos com a mania que partiram o fio da vida, descobriram o princípio do cajueiro... Sentem perto do fogo da fogueira ou na mesa de tábua de caixote, em frente do candeeiro; deixem cair a cabeça no balcão da quitanda, cheia do peso do vinho, ou encham o peito de sal do mar que vem no vento; pensem só uma vez, um momento, um pequeno bocado, no cajueiro. Então, em vez de continuar descer no caminho da raiz à procura do princípio, deixem o pensamento correr no fim, no fruto, que é outro princípio, e vão dar de encontro aí com a castanha, ela já rasgou a pele seca e escura e as metades verdades abrem como um feijão e um pequeno pau está a nascer debaixo da terra com beijos de chuva. O fio da vida não foi partido. Mais ainda: se querem outra vez voltar no fundo da terra pelo caminho da raiz, na vossa cabeça vai aparecer a castanha antiga, mãe escondida desse pau de cajus que derrubaram mas filha enterrada doutro pau. Nessa hora o trabalho tem de ser o mesmo: derrubar outro cajueiro e outro e outro... É assim o fio da vida. Mas as pessoas que lhe vivem não podem ainda fugir sempre para trás, derrubando os cajueiros todos; nem correr sempre muito já na frente, fazendo nascer mais paus de cajus. É preciso dizer um princípio que se escolhe: costuma se começar para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas.

José Luandino Vieira, em Luuanda

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Em uma distante formosa ilha bahiana...

Morreu dois e um cachorro...

Dona Antoninha
Praia de Tassimirim, Boipeba, 2009


segunda-feira, 6 de julho de 2009