sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

como acabou o livro?

a curiosidade para o desfecho era imensa, mas a tristeza de terminar essa viagem também.

Sempre que leio um livro que gosto é assim... começo devorando-o, muitas paginas em um unico dia, em pé, no onibus, tomando café... Bom, ai me familiarizo com as personagens e passo a conviver com elas: se o seu ritmo é intenso, eu avanço na leitura, percorro e atropelo as palavras, deduzo frases e lambo as orelhas das paginas com os dedos quase que ininterruptamente. Mas se relaxam... eu repouso os olhos vagarosamente entre as linhas e... adormeço.
Conforme a intimidade aumenta passo a jogar com elas: um dia sem ler, pra sentir saudades... duas paginas no outro podem causar uma certa ansiedade. Apenas algumas linhas servem para demonstrar um tanto de indiferença, e o abandono por quase uma semana é puramente pra tentar provar que ainda sou independente!(?)
Ah... mas quando o lado de la do livro começa a ficar muito menor do que o lado de ca... bate um aperto... o fato é: o fim é inevitavel! O jeito é ir se preparando pra se despedir da narrativa, do cheiro, da textura, da cor, da voz... e encarar o vazio que aquele espaço vai ocupar aonde ele costumava ficar sedutoramente repousado...


ps. e a minha personagem 'terminou' assim:

" Quantos anos precisarei para digerir o México? Quantas vidas devia viver para compreende-lo? Mas um consolo me resta e basta. Nao preciso nem de mais um minuto para ama-lo."

Erico Verissimo, Mexico Historia Duma Viagem

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Lino e a Mantiqueira...


O CAMINHO DO CAMPO


Por Martin Heidegger


Do portão do Jardim do Castelo estende-se até as planícies úmidas do Ehnried. Sobre o muro, as velhas tílias do Jardim acompanham-no com o olhar, estenda ele, pelo tempo da Páscoa, seu claro traço entre as sementeiras que nascem e as campinas que despertam, ou desapareça, pelo Natal, atrás da primeira colina, sob turbilhões de neve. Próximo da cruz do campo, dobra em busca da floresta. Sauda, de passagem, à sua orla, o alto carvalho que abriga um banco esquadrado na madeira crua.

Nele repousava, às vezes, este ou aquele texto dos grandes pensadores, que um jovem desajeitado procurava decifrar. Quando os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do campo oferecia boa ajuda: silenciosamente acompanha nossos passos pela sinuosa vereda, através da amplidão da terra agreste.

O pensamento sempre de novo às voltas com os mesmos textos ou com seus próprios problemas, retorna à vereda que o caminho estira através da campina. Sob os pés, ele permanece tão próximo daquele que pensa quanto do camponês que de madrugada caminha para a ceifa.

Mais freqüente com o correr dos anos, o carvalho à beira do caminho leva a lembrança aos jogos da infência e às primeiras escolhas. Quando, às vezes, no coração da floresta tombava um carvalho sob os golpes do machado, meu pai logo partia, atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas, à procura do estéreo de madeira destinado à sua oficina. Era lá que trabalhava solícito e concentrado, os intervalos de sua ocupação junto ao relógio do campanário e aos sinos, que, uns e outros, mantêm relação própria com o tempo e a temporalidade.

Os meninos, porém, recortavam seus navios na casca do carvalho. Equipados de banco para o remador e de timão, flutuavam os barcos no Mettenbach ou no lago da escola. Nesses folguedos, as grandes travessias atingiam facilmente seu termo e facilmente recobravam o porto. A dimensão de seu sonho era protegida por um halo apenas discernível, pairando sobre todas as coisas. O espaço aberto era-lhe limitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo se passava como se sua discreta solicitude velasse sobre todos os seres. Essas travessias de brinquedo nada podiam saber das expedições em cujo curso todas as margens ficam para trás. Entrementes, a consistência e o odor do carvalho começavam a falar, já perceptivelmente, da lentidão e da constância com que a árvore cresce. O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer pode fundar o que dura e frutifica; que crescer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente as duas coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz.

Isto o carvalho repete sempre ao caminho do campo, que diante dele corre seguro de seu destino. O caminho recolhe aquilo que tem seu ser em torno dele; e dá a cada um dos que o percorrem aquilo que é seu. Os mesmos campos, as mesmas encostas da colina escoltam o caminho em cada estação, próximos dele com proximidade sempre nova. Quer a cordilheira dos Alpes acima das florestas se esbata no crepúsculo da tarde, quer de onde o caminho ondeia entre os outeiros a cotovia da manhã se lance no céu de verão, que o vento leste sopre a tempestade do lado em que jaz a aldeia natal da mãe, quer o lenhador carregue, ao cair da noite, seu feixe de gravetos para a lareira, quer o carro da colheita se arraste em direção ao celeiro oscilando pelos sulcos do caminho, quer apanhem as crianças as primeiras primaveras na ourela do prado, quer passeie a neblina ao longo do dia sua sombria massa sobre o vale, sempre e de todos os lados fala, em torno do caminho do campo, o apelo do Mesmo.

O Simples guarda o enigma do que permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mas carece de longo tempo para crescer e amadurecer. O dom que dispensa está escondido na inaparência do que é sempre o Mesmo. As coisas que amadurescem e se demoram em torno do caminho, em sua amplitude e em sua plenitude dão o mundo. Como diz o velho mestre Eckhart, junto a quem aprendemos a ler e a viver, é naquilo que sua linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus.

Todavia, o apelo do caminho do campo fala apenas enquanto homens nascidos no ar que os cerca forem capazes de ouví-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o homem através de planejamentos procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seu ouvido retumba o fragor das máquinas, que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa e se torna errante. Aos desatentos o Simples parece uniforme. A uniformidade entedia. Os entendiados só vêem monotonia a seu redor. O Simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa esgotou-se.O número dos que ainda conhecem o Simples como um bem que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente. Esses poucos, porém, serão, em toda a parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças gigantescas da energia atômica, que o cálculo e a sutileza do homem engendraram para com ela entravar sua própria obra.

O apelo do caminho do campo desperta um sentido que ama o espaço livre e que, em momento oportuno, transfigura a própria aflição na serenidade derradeira. Esta opõe-se à desordem do trabalho pelo trabalho: procurado apenas por si, o trabalho promove aquilo que nadifica.

Do caminho do campo ergue-se, no ar variável com as estações, uma serenidade que sabe, e cuja face parece muitas vezes melancólica. Esta gaia ciência é uma sagesa sutil [1]. Ninguém a obtém sem que já a possua. Os que a têm, receberam-na do caminho do campo. Em sua senda cruzam-se a tormenta do inverno e o dia da messe, a irrupção turbulenta da primavera e o ocaso tranqüilo do outono; a alegria da juventude e a sabedoria da maturidade nela surpreendem-se mutuamente. Tudo porém se insere placidamente numa única harmonia, cujo eco o caminho do campo em seu silêncio leva de um para outro lado.

A serenidade que sabe é uma porta abrindo para o eterno. Seus batentes giram nos gonzos que um hábil ferreiro forjou um dia com os enigmas da existência.

Das baixas planícies do Ehnried, o caminho retorna ao Jardim do Castelo. Galgando a última colina, sua estreita faixa transpõe uma depressão e chega às muralhas da cidade. Uma vaga luminosidade desce das estrelas e se espraia sobre as coisas. Atrás do Castelo alteia-se a torre da Igreja de São Martinho. Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas, desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos de menino se aqueciam rudemente, treme sob o martelo das horas, cuja silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.

Após a última batida, o silêncio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O apelo do caminho é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou fala Deus?

Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renúncia não tira. A renúncia dá. Dá a força inesgotável do Simples. O apelo faz-nos de novo habitar uma distante Origem, onde a terra natal nos é devolvida.



[1] Literalmente: "Este alegre saber é das Kuinzige". Este termo dialetal, próprio da Suábia do Sul (onde se encontra Messkirch, cidade natal de Heidegger), corresponde etimologicamente a Keinnützig, "bom para nada", "próprio para nada", cujo sentido passou para o de "travesso", "malicioso", e finalmente hoje designa um estado de serenidade livre e alegra, que gosta de se ocultar, marcada por uma ironia afetuosa e por um toque de melancolia: melancolia sorridente, sabedoria que apenas se comunica discretamente nas palavras. Estas informações foram dadas pelo próprio autor a Adré Préau, tradutor francês deste texto, que em seu trabalho opta pela forma "sagesse malicieuse" (vide Martin Heidegger, "Questions III", Éditions Gallimard, 1966, Paris). Ao propor em português a tradução "sageza gentil", quisemos ressucitar um velho vocábulo corrente na língua do século XVI, cuja afinidade com o francês "sagesse" comunica um pouco do indefinível conteúdo da expressão dialetal preferida por Heidegger [NOTA DO TRADUTOR].


mainha e a rainha das aguas

Ai mainha, mainha, mainha….

Mainha é nascida e criada no morro. Tem duas filhas maravilhosas, perdeu o marido que nunca foi só seu de uma parada cardiaca fulminante. Ja faz muito que transformou a maior parte da sua casa em uma escolinha para a vizinhança e se dedica o dia todo à creche da prefeitura que fica no pé do Conceição.
Mainha me emprestou um pouco da sua maternidade infinita e cuidou muito bem de mim. Não reclama de nada, nem mesmo de subir os tortuosos e ingrimes caminhos que cortam o morro que nem bicho de pé.
Rezadeira, sorrideira, pernambucana.
Uma querida.

O morro é da conceição. O dia 08 de Iemanjá. A lembrança de subir esse morro pra encostar na majestosa santa das águas com ela é uma deliciosa e sinestesica recordaçao que faço ano a ano nesse dia...infinitamente!

sábado, 5 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Vou de taxi...

Fronteira Brasil - Venezuela, St Elena de Uiaren, 2007

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

REencontros

O que a memoria ama, fica eterno.
Te amo com a memoria, imperecivel.

Adélia Prado

Roda moinho, roda peao

“Uma das cem coisas mais gostosas da vida è ficar a gente à janela dum trem ou dum automóvel, a olhar a paisagem, deixando o pensamento correr com o veículo que nos conduz – mas correr livre da tirania dos trilhos, sem itinerário certo, ao sabor de espontâneas associações de imagens e idéias. Se fosse possível registrar nossos pensamentos em instantes assim, quem entenderia depois essa sarabanda dançada fora do tempo e do espaço? ...”

México, História Duma Viagem


Nem tentarei dar uma idéia de tudo que me foi trazido à mente...
Durante aquele intenso mes de julho, a cabeça rodava, girava e rodava de novo, deslizando de via em via nas linhas do chao; os pensamentos rodopiavam com a mesma velocidade e encanto dos peões. Com estonteante graça. Leves e coloridos quando devagar, quase brancos no auge do rodopio. Olhar pela janela da estrada consiste na verdadeira dança da memória com a imaginação, salpicadas com ligeiras intervenções de realidade. é la que a vertigem contracena com o sóbrio, o som empresta sua voz ao silêncio e a gente fica que nem bobo achando que vai lembrar de tudo isso depois...

Tops X 10, por Ray e Charles Eames

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Itau Cultural

Quem tem Q.I. vai!

Paulo Leminski Paulo Leminski Paulo Leminski

sábado, 19 de setembro de 2009

galinha-do-mato

Vivendo como dorme a galinha-do-mato de Mia Couto:

no ramo da arvore com medo do chao. Mas nos ramos mais baixos com medo de cair!
"Quem quer a eternidade olha o céu, quem quer o momento olha a nuvem."


A visitante queria tudo, céu e nuvem, aves e infinitos.

(Aproximado, in Antes de Nascer o Mundo, Mia Couto)


O céu de julho de Mariza, sertao da Bahia, 2009

domingo, 6 de setembro de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

à procura de milagres

Saudades

saudades de Seu Zé Maria, Dona Vitoria, Vitorinha e irmaos. Saudades do Leo, cantando ao leu para a lua. Saudades daquela lua de novela que torturava nossos coraçoezinhos apaixonados. Di Ritinha e seus inumeros inquilinos.
Saudades dos momentos, da vista e das visitas, da cachaça, das tempestades aterrorizantes, da maresia e seus vidros grudentos, da luneta, de pegar onda com caiaque em territorio de tubarao. saudades do som das ondas. do cheiro. da briga das cores na imensa paisagem. Do trafego maritmo... Ai, saudades do brega em praia de domingo!
Saudades, saudades, saudades.

é Milagres...
agora tudo o que restou sao ecos de vozes que ficaram presos na sua carcaça de despedaçantes argamassas e sinuosas paredes de concreto e cimento. Ruindo devagar, abocanhada lentamente pelas ondas enferrujantes de sal e pela umidade verde dos fungos.
E segue... triste.. abandonada... humilhada pelos traços vandalos dos que nunca a habitaram...

Silenciosamente...

... como um velho que caminha a muito custo apoiando-se na velha bengala da memoria

A Casa dos Milagres, Olinda, julho de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

enquanto isso em algum lugar di Olinda...


Postando di Olinda... rua das Bertiogas número 140...da varanda com vista para a cidade...dentre mangueiras, coqueiros e muito verde mais... e o som de fundo: ensaio da orquetra contemporânea de Olinda... precisa dizer mais??

Casinha da Yara

ou ainda casinha da "cuca"

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O fio da vida e começo das coisas

Pode-se mesmo a gente saber, com certeza, como é um caso começou, aonde começou, porquê, pra quê, quem? Saber mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, desfaz ou estraga conversas, as macas (conversa, questão, caso)? Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princípio, quando chega nesse princípio vê afinal esse mesmo princípio era também o fim de outro princípio e então, se a gente segue assim, para trás ou para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, pára, esconde, aparece... E digo isto, tenho minha razão. As pessoas falam, as gentes que estão nas conversas, que sofrem os casos e as macas contam, e logo ali, ali mesmo, nessa hora em que passa qualquer confusão, cada qual fala a sua verdade e se continuam a falar e discutir , a verdade começa a dar fruta, no fim é mesmo uma quinda de verdades e uma quinda de mentiras, que mentira já é uma hora de verdade ou o contrário mesmo....
É assim como um cajueiro, um pau velho e bom, quando dá sombra e cajus inchados de sumo e os troncos grossos, tortos, recurvados, misturam-se, crescem uns para cima dos outros, nascem-lhes filhotes mais novos, estes fabricam uma teia de aranha em cima dos mais grossos e aí é que as folhas, largas e verdes, ficam depois colocadas, parece são moscas mexendo-se, presas, o vento é que faz. E os frutos vermelhos e amarelos são bocados de sol pendurados. As pessoas passam lá, não lhe ligam, vêem-lhe ali anos e anos, bebem o fresco da sombra, comem o madura das frutas, os monandengues (crianças) roubam as folhas a nascer para ferras as suas linhas de pescar e ninguém pensa: como começou esse pau? Olhem-lhe bem, tirem as folhas todas: o pau vive. Quem sabe diz o sol dá-lhe comida por ali, mas o pau vive sem as folhas. Suba, nele, partam-lhe os paus novos, aqueles em vê, bons para pau-de-fisga, cortem-lhe mesmo todos: a árvore vive sempre com os outros grossos filhos dos troncos mais-velhos agarrados ao pai gordo e espetado na terra. Fiquem malucos, chamem o tractor ou arranjem as catanas, cortem, serrem, partam, tirem todos o s filhos grossos do tronco-pai e depois saiam embora, satisfeitos: o pau de cajus acabou, descobriram o princípio dele. Mas chove a chuva, vem o calor, e um dia de manhã quando vocês passam no caminho do cajueiro, uns verdes pequenos e envergonhados estão espreitar em todos os lados, em cima do bocado grosso, do tronco-pai. E se nessa hora, com a vossa raiva toda de não lhe encontrarem o princípio, vocês vêm e cortam, rasgam, derrubam, arrancam-lhe pela raiz, tiram todas as raízes, sacodem-lhes, destroem, secam, queimam-lhes mesmo e vêem tudo fugir para o ar feito fumos, preto, cinzento-escuro, cinzento-rola, cinzento-sujo, branco, cor de marfim, não adiantem ficar vaidosos com a mania que partiram o fio da vida, descobriram o princípio do cajueiro... Sentem perto do fogo da fogueira ou na mesa de tábua de caixote, em frente do candeeiro; deixem cair a cabeça no balcão da quitanda, cheia do peso do vinho, ou encham o peito de sal do mar que vem no vento; pensem só uma vez, um momento, um pequeno bocado, no cajueiro. Então, em vez de continuar descer no caminho da raiz à procura do princípio, deixem o pensamento correr no fim, no fruto, que é outro princípio, e vão dar de encontro aí com a castanha, ela já rasgou a pele seca e escura e as metades verdades abrem como um feijão e um pequeno pau está a nascer debaixo da terra com beijos de chuva. O fio da vida não foi partido. Mais ainda: se querem outra vez voltar no fundo da terra pelo caminho da raiz, na vossa cabeça vai aparecer a castanha antiga, mãe escondida desse pau de cajus que derrubaram mas filha enterrada doutro pau. Nessa hora o trabalho tem de ser o mesmo: derrubar outro cajueiro e outro e outro... É assim o fio da vida. Mas as pessoas que lhe vivem não podem ainda fugir sempre para trás, derrubando os cajueiros todos; nem correr sempre muito já na frente, fazendo nascer mais paus de cajus. É preciso dizer um princípio que se escolhe: costuma se começar para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas.

José Luandino Vieira, em Luuanda

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Em uma distante formosa ilha bahiana...

Morreu dois e um cachorro...

Dona Antoninha
Praia de Tassimirim, Boipeba, 2009


segunda-feira, 6 de julho de 2009

segunda-feira, 29 de junho de 2009

TODOS EMIGRAM

Canto dos Emigrantes

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

Alberto da Cunha Melo

domingo, 28 de junho de 2009

Faltou o noivo!

Que pena...

Mercado Masaya, Nicaragua, 2006

sábado, 27 de junho de 2009

Mas e se esquecer a camera digital??

Hoje vive-se a viajar: antes, admirando fotos e mais fotos do cobiçado destino, para, depois, viajar nas fotos tiradas do destino ido...
A presença - física - converte-se em imagem: enquadrada, congelada, emoldurada. Sem cheiro, sabor... nem viva cor. Sao fixas e eternizadas em espaçosos álbuns de retrato... albuns de retrato??? O que é isso mesmo? Nada!! é Fotoblog! Pasta de imagens... CD, pendrive, datashow!
é, datashow! mostra no datashow! show...
mas....
e se esquecer a camera???? ...
hummm... sorry... nesse caso nao viajou!!
Chau!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Em busca do "amarelo-torrado" do menino Ondjaki

"...Das obras, do lado de lá do nosso antigo largo, ali onde a poeira não conseguia nunca aterrar, ficava essa coisa linda que todos dias me ensinava a cor azul: o mar grande, mais conhecido por oceano.”

"...Era cedo mesmo, o sol já tinha nascido mas ainda se podia olhar aquele amarelo bruto e forte que não se pode afinal olhar. Eu gosto muito mais do amarelo-torrado que aparece no fim da tarde, mas não nos últimos minutinhos antes de o sol mergulhar, ai já é amarelo a fugir para laranja quase encarnado. É antes disso. O amarelo-torrado é uma cor que aparece muito rapidamente e que não se pode demorar muito para se entender que já aconteceu. Mas há um segredo: o amarelo-torrado, às vezes, também aparece nos meus sonhos."


Sequencia de fotos em Roatan, Honduras, 2006

Ondjaki, AvoDezanove e o segredo soviético

domingo, 21 de junho de 2009

Metade da melanina e a melanina toda!

E assim geraçoes de latinoamericanos sao formados...
Metade dos meus genes nasceram no 21 de junho... estes ja vinham de mais longe, de genes que nasceram em tempos mais remotos...mas ainda em territorio nacional. Se continuar avançando, vou atravessar o oceano e chegar la, na madre Italia, e em seus vizinhos espanhois, eita sangue quente! Mas ha também outros caminhos que me fazem permanecer em territorio nacional! E outros me remetem ainda a outros continentes, um inclusive que ja estive bem proximo ao nosso!
é, tem gene de indio e tem gene de negro também! Marisinha, ou Maria Luiza para os formais

sexta-feira, 12 de junho de 2009

In love with

Viva a alegria
E viva o prazer
De estar gostando de viver
Viva o oxigênio
Que invade o nariz
E faz a gente ser feliz

Viva a natureza
Deusa da beleza
Mãe das coisas que são boas
Viva a harmonia
O beijo na boca
E quem sabe fazer amor

Viva a alegria
E viva o prazer
De estar gostando de viver
Viva a maravilha
Que somos eu e tu
E viva o rabo do tatu

Kledir Ramil

segunda-feira, 8 de junho de 2009

“Há gente que nasce longe de casa”

"
Num aeroporto afectado pela “crise”, eu deveria efectuar um voo de conexão e tentava explicar o óbvio: Minha senhora, repare que eu já tenho cartão de embarque, não preciso de vir para esta fila.
- Se lhe disseram para vir para esta fila, é porque tem de vir – nesse diálogo de surdos, a funcionária voltou-me as costas, sem me dar tempo a replicar.
Meia hora decorrida e muita impaciência acumulada, cheguei ao balcão. Mostrei o cartão de embarque: “O senhor não precisava de vir aqui para esta fila. E, agora, já fechou o chek in do seu voo – disse-me, sem me olhar. Telefonou, teclou, entregou-me um novo cartão de embarque para um voo que partiria três horas depois. Cabisbaixa, disse-me: Foi o máximo que pude fazer… Em silêncio, afastei-me.
Enquanto aguardei o tardio voo, observei os passos em volta: gente cochilando, gente reclamando, gente apática, ou resignada, tal como eu… Tive tempo suficiente para meditar, transgredindo a ordem do superficial” e concluir que, nos grandes aglomerados humanos, as pessoas se submetem a uma forçada convivência, toleram o outro sem o aceitar, suportam um “aturai-vos uns aos outros” num incómodo mal disfarçado.
La Rochelle disse que “a cidade não é a solidão porque a cidade aniquila tudo quanto povoa a solidão – a cidade é o vazio”. Isso mesmo: um vazio com raízes que eu busco esclarecer. Inevitavelmente, a minha cultura profissional isolou as raízes de uma instituição geradora de vazios: chamou a Escola à colação. As escolas onde as funcionárias do aeroporto e os seus clientes se formaram eram arquipélagos de solidões povoados por rituais vazios de significado.
Educar é assumir responsabilidade social, solidarizar-se eticamente. Somos marcados pela incompletude, geneticamente sociais e geneticamente históricos, porque, como diria Walon ou Freire, criamos vínculos. A arte de conviver (viver com) exige uma atitude de abertura, o reconhecimento do outro e o respeito pela pessoa do outro. Mas onde se poderá aprender essa arte? Na Escola? Na Família? Na televisão? Na internet?
A Educação do Homem percorre caminhos sinuosos. Antes de ser escolarizada, a criança já esteve passivamente exposta a muitos milhares de horas de televisão, sem agir criticamente sobre as mensagens, sem discernimento para se proteger de programações imbecis. Forma-se o solitário adulto espectador no vazio da indiferença: “Militares americanos bombardearam uma aldeia afegã. As bombas visavam matar talibans, mas assassinaram crianças. Para os militares o raid aéreo foi um sucesso, fundamentando: “Quem nos garante que esses meninos não viriam ser perigosos talibans?”
O Sartre estava certo de que, se não somos responsáveis pelo que fizeram de nós, somos responsáveis por aquilo que fizermos com aquilo que fizeram de nós. E eu opto por pensar nos professores que eu conheço, que já vão trocando uma profissão solitária por uma profissão solidária.
E não se trata de uma mera troca de uma consoante por outra consoante. Trata-se de uma profunda mudança cultural. O primeiro passo dessa reconversão consiste em os professores se sentarem à volta de uma mesa, ou na relva de um parque, para se transformarem numa equipe. Um projecto faz-se com pessoas, privilegiando laços afectivos. Com pessoas conciliadas consigo e com os seus pares. Com esta reconfortante reflexão, aquieto-me.
E o tempo de espera pelo voo fica mais breve, mais suportável. Embora saiba que ainda há muita gente distante de si própria! Como diria a Maria, “às vezes, há gente que nasce longe de casa...”

"
José Pacheco, em Pequeno Dicionario de Absurdos da Educaçao (alguns verbetes)

terça-feira, 2 de junho de 2009

é preciso ser desprendido! muito desprendido...

Diversidade cultural, =0D, diferentes povos e culturas, ahhhh..., diferenças...!! Delicia!

Conhece-las!!! Observa-las! Entende-las... Prova-las? ..testa-las?
ééééé ... e x p e r i m e n t a - l a s.... ?


San Blas - Panama - maio 2006

hummmmmmmmmmm

nem sempre é uma questao de opçao!


segunda-feira, 1 de junho de 2009

tuc tuc

voce ja ouviu isso por ai?

Bom, ao menos voce tem a sorte de ainda nao ter avistado nenhum "tuc tuc" atravessando o seu caminho...

A América central ja nao pode dizer o mesmo! Aperte os cintos (que cintos?), feche o vidros (vidros???), segure-se (atente para o "puta que pariu" na lateral do veiculo) e cuidado para nao colidir com as centenas de milhares desses pontinhos vermelhos que transitam pelas ruas e, pasmem(!), pelas ESTRADAS de diversas cidades nicaraguenses, guatelmatecas, "chiapanas"!!!

ps: hummmm, nao me recordo, nao sei se nao reparei, mas nao me lembro se isso ai tinha buzina...

Ar, fogo, agua e terra

tudo em uma unica paisagem!
.
Trilha de Bike: San Domingos - Charco Verde - Ometepe (vulcao Maderas)
Nicaragua - maio - 2006

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A vida sob alta pressao!

Hoje o tema do trabalho dos meninos falava das alteraçoes que o corpinho sofre quando a coluna de agua vai ficando cada vez mais "pesada" em cima das nossas cabeças...
Hoje foi dia de lembrar de Utila, vizinha de Roatan, a capital hondurenha do mergulho, um verdadeiro complexo de scuba dive! Foi ai que eu aluguei o equipamento, o barco e a equipe de mergulhadores mais internacional que eu ja tive sonhando em deparar com um tubarao baleia atrasado na sua rota...
Mas o mergulho mais bonito nao foi esse nao... foi o que começou nessa margem de uma das praias turisticas da ilha... com equipamento basico e sem muitas pretensoes...!

você viaja para reencontrar o seu futuro?

“- Os outros embaixadores me advertem a respeito de carestias, concussões, conjuras; ou então me assinalam minas de turquesa novamente descobertas, preços vantajosos nas peles de marta, propostas de fornecimento de lâminas adamascadas. E você? – o Grande Khan perguntou a Pólo. – Retornou de países igualmente distantes e tudo o que tem a dizer são os pensamentos que ocorrem a quem toma a brisa noturna na porta de casa. Para que serve, então, viajar tanto?
- É noite, estamos sentados nas escadarias do seu palácio, inspire um pouco de vento – respondeu Marco Pólo. – Qualquer país que as minhas palavras evoquem será visto de um observatório como o seu, ainda que no lugar do palácio real exista uma aldeia de palafitas e a brisa traga um odor de estuário lamacento.
- O meu olhar é de quem está absorto e medita, admito. Mas e o seu? Você atravessa arquipélagos, tundras, cadeias de montanhas. Seria melhor nem sair daqui.
O veneziano sabia que, quando Kublai discutia, era para seguir melhor o fio de sua argumentação; e que as suas respostas e objeções encontravam lugar num discurso que ocorria por conta própria na cabeça do Grande Khan. Ou seja, entre eles não havia diferença se questões e soluções eram enunciadas em alta voz ou se cada um dos dois continuava a meditar em silêncio. De fato, estavam mudos, os olhos entreabertos, acomodados em almofadas, balançando nas redes, fumando longos cachimbos de âmbar.
Marco Pólo imaginava responder (ou Kublai imaginava a sua resposta) que, quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá, e reconstituía as etapas de suas viagens, e aprendia a conhecer o porto de onde havia zarpado, e os lugares familiares de sua juventude, e os arredores da casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.
Neste ponto, Kublai Khan o interrompia ou imaginava interrompê-lo ou Marco Pólo imaginava ser interrompido com uma pergunta como:
- Você avança com a cabeça voltada para trás? – ou então: - O que você vê está sempre às suas costas? – ou melhor: - A sua viagem só se dá no passado?
Tudo isto para que Marco Pólo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente a qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de uma outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: - você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.”

As Cidades Invisíveis – ítalo Calvino

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Eles falando de fisiologia e eu subindo as montanhas!

Hoje um grupo de alunos apresentou o trabalho "a vida sob baixa pressão" a partir da leitura que realizaram do livro "A Vida no Limite", de Frances Aschcroft.
O tema era justamente sobre montanhistas e as montanhas... altitudes... desafios... enquanto eles falavam das alterações fisiológicas ao escalar o Everest eu lembrava dos páramos, do parque nacional de Sierra Nevada, de Mérida...
os Andes da Venezuela!!

Subimos a praticamente 5000 metros acima do nível do mar! Que frio! Que lindo! Perdi o fôlego, mas não foi pelo "mal de altitude" não, foi de emoção mesmo! Paisagens sem fôlego também, tipo essa daqui de baixo:

Vale a pena ir até Mérida e fazer o passeio de teleférico... vale muuuuito à pena!

Los Páramos, Venezuela, abril de 2006

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Meu Deus!

Ia comentar...lamentar...enaltecer...recordar...citar...
...mas ai chegou este e-mail de um amigo... (nao por coincidencia de origem uruguaia) e entao resolvi reproduzir o proprio e-mail dele aqui!

Nao vou reproduzi-lo inteiro, é muito grande, mas a parte do seu protesto. Lembrando que ha dois posts neste blog sobre Benedetti... um maravilhoso escritor uruguaio que "me seduziu" la na Costa Rica através do talento sensivel de um jovem artista, que por sua vez se reconciliou com seu pai através do mesmo escritor, poeta...este mesmo que agora nos deixa...

O e-mail:

Encaminho a vcs um pouco da vida de uma pessoa que sem dúvida fez muito mais pela humanidade que todos os notáveis de plantão. Reparem nas fotos e nos fatos e que neste terceiro mundo que vivemos nunca temos a devida atenção com nada. Benedetti tinha uma vida simples, fogão de duas bocas, num país simples. Quem conhece o Uruguai sabe o que digo. No Brasil, sua morte não passou de algumas notas de rodapés. Se fosse algum pagodeiro ou algum famoso latino-americanos, teríamos manchetes garrafais. Lamento muito esse vazio cultural que nos rodeia.
abs literários
Pipo Benedetti




EL 'DESEXILIO' «El exilio es el aprendizaje de la vergüenza. El desexilio, una provincia de la melancolía».

Benedetti consiguió regresar a Uruguay en 1985. «El país había cambiado después de diez años de dictadura, pero yo también, después de 12 años domiciliado en cuatro países tan distintos. De los gobiernos no se aprende nada, pero de la gente de la calle yo aprendí mucho y entonces volví diferente, más maduro, otra persona, aunque siempre con el arraigo de mi ciudad». (Foto: 'Poemas revelados')

terça-feira, 19 de maio de 2009

Gabi, vamos pirar???

A Gabi foi pra Irlanda e descobriu que a lua nasce do lado oposto...e pirou!! Contou o fato... ninguém conseguiu imaginar tamanha piraçao...que triste...

Eu aqui, fiquei pensando: alguém mais piraria com isso:

2008, durante uma certa palestra na Semana de Educaçao, a filosofa carioca filosofafa...

"...Nietzsche, por outro lado, rompe com esta lógica em seus discursos e diz com uma frase “Torna-se quem és, ou torna-se quem se é”. Assim, não há mais sujeito. Cada um é um feixe de sensações, afetos, vivências e que se organizam de forma momentânea. “Tornar-se quem és” é a finalidade (trabalha com a idéia de finalidade), o fim do processo e assim não há mais o sujeito, o substrato. As pessoas são múltiplas – multiplicidade - e vão se configurando nos seus mais diversos encontros. Não há como separar o que é circunstancial do que é essencial. Em cada momento cada um é uma resultante de vários processos. Não existe um “agora sou” e sim sensações do ser que variam ao longo da trajetória da vida. Não há condições de se conhecer, o “quem eu sou” está sempre em aberto. E os acontecimentos passados podem ser reinterpretados o tempo todo. Com esta concepção Nietzsche traz a idéia de transformação como um processo cuja finalidade é o mote condutor e não um fim de fato...."

Poxa, legal isso! Anotei!

2000, enquanto Boal pensava a sua biografia em vida, escrevia:

"Essa história já contei duas vezes, no Teatro do oprimido e no Arco-íris do desejo. Não vou contar mais uma terceira, vou comentar.
Curioso: em cada um desses livros, conto a mesma história de uma maneira diferente, o que me conforta na certeza de que os processos psíquicos da memória e da imaginação são indissociáveis – ninguém lembra sem imaginar, ninguém imagina sem lembrar.
Lembrando hoje o que eu ontem lembrei, a coisa lembrada agora é diferente da lembrança antes. Cada dia é novo dia. Já não sou quem fui horas atrás. Meu ser é devir. Não sou nunca: eu me torno, sempre. Sou aquele que ainda não é, e sou também o que deixou de ser. Eu me torno ao me aproximar de ser aquilo que nunca serei, pois, se vier a sê-lo, já estarei em trânsito para outro ser que ainda não sou nem serei, ao ser o primeiro, sempre em trânsito. Inevitável.
Eu juro que entendo isso que eu estou dizendo: espero que vocês também, queridos leitores... Se não, me perdoem!
É complicado? Não é: leia outra vez. Outra mais. Quem foi que leu essas ter vezes? Você ainda é o mesmo de três leituras atrás? Impossível!"



2009, em uma sala de cinema paulistana, valsando com Bashir...

esquecemos memorias, recriamos memorias, completamos lembranças, lacunas, reinterpretamos o passado, lembramos! Inventamos partes do passado!

ai que delicia...

Moral da historia nesse blog... planeje uma bela viagem uma vez na sua vida... e colha os frutos dela, diversos frutos, a vida inteira!
Ou ainda, nasça uma lua, meia, minguante, crescente... nunca é a mesma lua que esta nascendo pra quem olha! Imagina ela nascendo do lado oposto entao!

Pirei!!!
Ps: saudades da Gabi...!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Era jetsons!

Vi este vídeo no blog do Tas e não pude deixar de postá-lo aqui, ainda mais em se tratando de um blog cujo tema principal é falar sobre viagens, viajantes e os lugares... o que não exclui de forma nenhuma a maneira de como tantas pessoinhas sao transportadas por esses lugares todos nos mundos de hoje !! Ele mostra o trafego aereo em um unico dia de 24hs! (para visualiza-lo melhor, recomendo o youtube ou o blog do Marcelo Tas)...
Confesso que fiquei meio muito impressionada...
...e ainda querem evitar pandemias virais!!!! O ser humano é a maior pandemia do planeta!!!!
Bom, acho também que da pra ter uma idéia sobre o que postei ha alguns dias sobre o fato de nos, latino americanos, nao conhecermos nossos vizinhos... ("proxima parada...deserto do atacama?"). Ainda mais considerando que a maioria dos "pontinhos" que passam pela América central saindo das terras tupiniquins... sao escalas de voos para a terra do tio, ou seja, apenas uma paradinha so pra tornar a viagem mais cansativa e retardar a chegada ao cobiçado destino! shopshpshopchrompshoshopshopshoppchrompshopshopshopshopchromp

ps final: pobre mata atlantica...

"O tempo deste clip é de 1m 12s e representa as 24 horas de um dia inteiro de viagens de avião, internas e entre os continentes.
Aproximadamente cada segundo de filme, representa 20 minutos reais. Cada pontinho amarelo é um voo com pelo menos 250 passageiros. Note que os voos dos EUA para a Europa partem principalmente à noite, e retornam de dia.
Pela imagem que o sol imprime no globo, pode-se dizer que é verão no hemisfério norte. Nos pólos norte e sul, não se observa a variação solar."

Fazer a Ponte no Brasil

Acusamos os portugueses de nos explorar e levar embora boa parte de nossas riquezas, nos deixando aqui, abandonados, literalmente à ver navios...ironicamente sao os portugueses que agora nos oferecem uma alternativa educacional providencial em um periodo onde a educaçao beira o caos, pesa e naufraga vertinosamente em outros tempos, tempos de outras navegaçoes...!
.
Vamos "fazer a ponte" !
.
A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. Como aprender a discutir e debater com uma educação que impõe?

(Paulo Freire)

sábado, 16 de maio de 2009

Acordar

Hoje peço emprestado o "acordar" do Alvaro de Campos...

Acordar da cidade de (Lisboa), mais tarde do que as outras, Acordar da Rua do Ouro, Acordar do Rocio, às portas dos cafés, Acordar E no meio de tudo a gare, que nunca dorme, Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono. Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar, Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo. À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo. Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne, Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha, Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom, São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada, Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes, Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste, Seja A mulher que chora baixinho Entre o ruído da multidão em vivas... O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito, Cheio de individualidade para quem repara... O arcanjo isolado, escultura numa catedral, Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã, Tudo isto tende para o mesmo centro, Busca encontrar-se e fundir-se Na minha alma. Eu adoro todas as coisas E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido Que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, Para aumentar com isso a minha personalidade. Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio E a minha ambição era trazer o universo ao colo Como uma criança a quem a ama beija. Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras, Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo Do que as que vi ou verei. Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações. A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca. Dá-me lírios, lírios E rosas também. Dá-me rosas, rosas, E lírios também, Crisântemos, dálias, Violetas, e os girassóis Acima de todas as flores... Deita-me as mancheias, Por cima da alma, Dá-me rosas, rosas, E lírios também... Meu coração chora Na sombra dos parques, Não tem quem o console Verdadeiramente, Exceto a própria sombra dos parques Entrando-me na alma, Através do pranto. Dá-me rosas, rosas, E lírios também... Minha dor é velha Como um frasco de essência cheio de pó. Minha dor é inútil Como uma gaiola numa terra onde não há aves, E minha dor é silenciosa e triste Como a parte da praia onde o mar não chega. Chego às janelas Dos palácios arruinados E cismo de dentro para fora Para me consolar do presente. Dá-me rosas, rosas, E lírios também... Mas por mais rosas e lírios que me dês, Eu nunca acharei que a vida é bastante. Faltar-me-á sempre qualquer coisa, Sobrar-me-á sempre de que desejar, Como um palco deserto. Por isso, não te importes com o que eu penso, E muito embora o que eu te peça Te pareça que não quer dizer nada, Minha pobre criança tísica, Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios, Dá-me rosas, rosas, E lírios também..

Álvaro de Campos

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Centro do Teatro do Oprimido

O CTO repaasou hoje este e-mail ao seu mailing:

Caras e caros amigos,Nosso pesar é incomensurável, não há medida que o defina. Não há espaço que o comporte. A partida de Boal nosdeixou com uma clara missão: seguir adiante! Com a ética e a solidariedade como fundamentos e guias, tendo amultiplicação como estratégia e a superação de realidades opressivas como meta, seguiremos adiante. Por isso,não estamos de luto, nos vestimos de LUTA e empunhamos as armas que nos deixou o guerreiro Boal.Nossas lágrimas se transformam em seiva para a Árvore do Teatro do Oprimido. Nosso choro é canção. E nossa dorexplodirá em gritos de revolta e em ações efetivas contra a injustiça.O primeiro grito é contra uma injustiça desmedida: a decisão do Departamento Penitenciário Nacional, doMinistério da Justiça do Brasil que, revendo a aprovação de contas do projeto Teatro do Oprimido nas Prisões,tomada há mais de cinco anos, nos obriga a dispor de trinta mil reais para depositar nos cofres do governo. Apunição seria devida ao entendimento de que, em 2003, a publicação dos resultados deste projeto não teria sidoadequada. Mesmo não achando justo, já oferecemos uma nova publicação como alternativa, o que não foi aceitopelos burocratas, mesmo tendo sido eles próprios a aprovarem a publicação como foi feita e a prestação decontas entregue à época.Gritamos para amplificar a voz de Boal, contra a burocracia paralisante, insensível e desprovida deinteligência reflexiva, que funciona movida por um tipo de conhecimento bancário e engessado tão criticado ecombatido por Paulo Freire. Gritamos contra a burocracia que não pensa relativizando fatos, considerandoespecificidades e analisando alternativas. Contra a burocracia que segue a receita mesmo quando os ingredientesinviabilizam a concreção do bolo.Por uma postura puramente burocrática, em pleno debate de idéias, incluíram o Centro de Teatro do Oprimido nocadastro de inadimplentes do governo federal, SIAF, o que bloqueia nossas contas, nos impede de receber asparcelas do nosso projeto com o Ministério da Cultura e está, na prática, inviabilizando nosso funcionamento,colocando em risco a sobrevivência de nossa instituição e a continuidade do trabalho de Augusto Boal no Brasil.Ressaltamos que durante todo esse processo agimos na legalidade, e, por isso, hoje, dia de homenagem ao Mestre,iniciamos uma campanha internacional de pressão para a resolução desta situação e de arrecadação de fundos parafazermos esse absurdo depósito. E termos condições de arcar com os custos de um processo judicial contra oDepartamento Penitenciário Nacional que, em nosso entendimento, está violando os princípios do Estadodemocrático de direito, em especial o princípio constitucional da segurança jurídica, que visa resguardar aconfiança legítima e a boa-fé nas relações, fundamentalmente entre o poder público e a sociedade civil.Aos que quiserem se juntar a nós nessa luta, solicitamos que escrevam mensagens para o Ministério da Justiça epara o Departamento Penitenciário Nacional. E também depositem contribuições em nome do Centro de Teatro doOprimido para viabilizar o depósito acima citado, a abertura do processo judicial e solucionar as nefastasconseqüências financeiras advindas deste bloqueio.Todo o monitoramento desta ação solidária estará disponível na página do Centro de Teatro do Oprimidowww.ctorio.org.br .Boal queria ter iniciado essa pressão pública há meses. Nós postergamos essa decisão por termos a esperança deque o bom senso prevaleceria. Nosso mestre, mais uma vez, estava certo. Sigamos seus ensinamentos: Cabrito bomé o que mais alto berra. Berremos!Nosso profundo agradecimento.
Equipe do Centro de Teatro do Oprimido
Rio de Janeiro, 09 de maio de 2009.
Depósitos em nome do Centro de Teatro do Oprimido:
Banco do Brasil – 01 Agência: Cinelândia 0392-1
Conta Poupança: 18.075- 0, Variação 01
Depósitos internacionais: Código SWIFT: BRASBRRJRJO

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Relatório de poeta é assim...

O projeto era acadêmico, vinculado ao programa de extensão universitária da Universidade Federal de Pernambuco, departamento do CAC - Centro de artes e comunicação. A burocracia para recebermos uma única bolsa de cerca de R$200,00 a ser dividida em 3 era enorme: projeto, reuniões, relatórios, seminários, participação em congressos (UFPE; UFPA), em programas da rádio universitária, dentre muitas outras atribuições. Tudo isso fizemos sistematicamente. Mas o conteúdo dos relatórios...ah, esses eram de poeta! Afinal era França quem os escrevia...

A primeira visita... eu ainda não havia nascido...

Daruê Maluno I

Dia 26.03.2002 (terça-feira)
VISITANDO O ESPAÇO CULTURAL
Das 16 às 19hs

Visitamos o espaço cultural. Eu e Kalina. Todos nós portas fechadas, entreabrindo janelas cheias de tentativas frustradas de discrição. O reencontro com Kalina. O encontro com Daruê Malungo. A entrevista com Vilma. Cento e cinquenta crianças e adolescentes. Cento e quinze na faixa etária de 10 a 18 anos. Realidades. Ensina-se capoeira, maracatu, côco, corte e costura. Ensina-se a confeccionar instrumentos. Ensina-se a viver. Pela manhã, a escola formal. À tarde o Quilombo. Esta lá. Autônomo. Independente. Pulsante. Um organismo. Uma célula de resistência diminuíndo a velocidade da curva descendente. Uma vontade férrea, um constante arranhar de pedras, com as unhas, para espremer um deleite. Prazer em conhecer!

agora sim... eu chegava de surpresa no espaço... paixão à "ante vista"!

Daruê Malungo II

Dia 26.04.2002 (sabado)

CONHECENDO O TRABALHO DO GRUPO

17hs

Finalmente o palpável, o visível, sendo tecido exatamente do invisível, do quase nada. De algum lugar onde existe um poço de cores. Dança pura. Suores. Odores. Símbolos de corpo em movimento. Movimento. Aqui e ali instrumentos "maiores do que o músico" no dizer de Kalina e era mesmo uma alfaia gigantesca retumbando a partir de mãos ainda infantis, mas guiadas pelas doces e seguras mãos do mestre Meia-Noite.Nos sábados, a cada 15 dias, ha apresentações abertas ao público: danças e shows percussivos, capoeira e cavalo marinho, este último representado pelo menos através das figuras de Mateus e Bastião. Meia-Noite, sua família, e Chão de Estrelas, provando que é possível, mostrando a inversão da nova ordem mundial: Daruê Malungo é ver pra crer.Depois das apresentações, outra entrevista, dessa vez Meia-Noite nos dizia a mim e a Tatiana já em sua casa:" Eu faço um trabalho voluntário aqui. Se chegar ajuda, ótimo. Se não chegar eu tenho que continuar fazendo.""Agora, estou sendo convidado para fazer algumas oficinas de dança em Paris. Lá, eu fico quinze dias. Depois volto pra Recife. Logo depois viajo para Cuba. Depois volto para Recife. Depois o sertão. Depois o agreste. Fica muito difícil pra mim ficar aqui. Eu queria nunca sair daqui. E mais ainda que a gente vai pra esses lugares, com passagem paga e muitas vezes sem dinheiro prum cigarro, para um extra, para comprar uma lembrancinha pra trazer pra casa. E como eu vou explicar às crianças que ando de avião e não tenho dinheiro para a merenda?"" O espaço está aberto meu irmão, para você mostrar a sua arte. Independente de universidades, de governo, de político. Venha quando quiser."

“Daruê, significa Força. Malungo, Companheiros”

E fomos! Por 3 anos fomos espontaneamente e apaixonadamente lá!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Eu coleciono...

Pessoas!

Eu coleciono pessoas... e esta é a minha coleção mais preciosa... e que possui os artigos mais raros e difíceis de se encontrar. Porque não é qualquer pessoa que vai ficar sentadinha na minha prateleira imaginária. E também não há um critério claro para selecionar cada uma delas. Elas não precisam ser amigos, parentes ou ídolos. Não! É algo assim meio subjetivo, forte, único. São pessoas efêmeras, passageiras, raras, estranhas, diferentes. Tem algumas onipresentes e outras que por mais que sejam recorrentes ou breves, são intensas, profundas, marcantes. Algumas devem ser oníricas, não é possível que (ainda? talvez?) existam! Eu devo ter sonhado com elas... é, devo. Autênticas! Isso! Definitivamente são pessoas autênticas. Que por mais rápido que tenham cruzado o meu caminho, interferiram significativamente nele. Seres humanos que fazem toda a diferença! Que tornam o mundo mais mundo, mais divertido, diversificado, menos sério! Que simplemente surpreendem!
O planeta não seria o mesmo se eu vendesse ou perdesse um único exemplar dessa minha coleção! Pode levar anos, mas cada vez que eu coloco um item na minha prateleira...ahhh...

Eitaaaa! Adquiri dois na viagem!

sábado, 2 de maio de 2009

Meu caro amigo me perdoe por favor...

...se ha muito tempo nao lhe faço uma visita...
.

Sentávamos na sala da professora Kalyna para as nossas reuniões semanais: eu, França, Kalyna, por vezes um convidado ou interessado e… Boal! È Boal! Líamos, e falávamos e experimentávamos tanto Boal que Boal já tinha presença física na nossa mesa. Já me sentia íntima do autor e tenho certeza que dialogávamos com ele. Pedíamos conselhos e vibrávamos com várias de suas leituras. Laboratórios. As vezes pedíamos socorro às nossas dificuldades, questionávamos: Boal não costumava trabalhar diretamente com crianças e nós...nós tínhamos dezenas delas, ali, balançando seus corpos inquietados todas as quinta-feiras por quase três anos! Como adaptar uma série de seus exercícios práticos para atores e NÃO atores a estas saltitantes crianças tocadoras e dançadoras de tambor? Foi assim que começamos a convidar novos autores para dialogar com o nosso projeto. As táticas desenvolvidas, aprendidas e trocadas nos anos de “Francis” não ficaram de fora. Mas Boal estava sempre lá! Transformávamos tudo de “novo” no “velho” teatro do oprimido e íamos escarafunchando e revelando as opressões de “Chão de Estrelas”. Querendo escancará-las descobríamos as nossas. Aos poucos a linguagem corporal foi ganhando palavras! Que vitória, os educadores reconheciam! As crianças começavam a falar, aos poucos, a se manifestar! Não ficamos apenas algumas semanas, viramos o ano, e assim conquistamos a confiança desses já tão pequeninos descrentes cidadãos, o espaço e seu entorno, e assim íamos conquistando a nós mesmos! Nada pronto, nenhum texto convencional, préconcebido... a realidade era a deles, e os autores.. eles é claro !
Quando eu e França discordávamos em algo, sentávamos no ônibus lado a lado e íamos ao encontro de Boal e das crianças em silêncio, como dois desconhecidos. Quando ele não ia, ia eu, tateando pistas que me dessem indícios do caminho em meio a tantos barracos, vielas e becos iguais. Quando era eu que não ia, ia ele, e eu ficava a imaginar os desafios daquelas tardes que acabavam afogadas no mangue do apadrinhado Chico Science. Quando não iam as crianças por conta de algum evento de apresentação externa, ficávamos desolados, eu e França, na beira do rio “vendo a sujeira passar”. Boal olhava aquilo tudo e sorria. Tenho certeza que sorria. Ele acompanhava cada repercussão de sua obra, da qual perdera o controle e contagiara o mundo! Ali era especial, porque era uma experiência experenciada na sua América Latina... no Brasil...com o “povo” do povo que tanto buscou...

Agora França está com Boal. Ou Boal está com França ... e eu acordei me sentindo um pouco... muito mais órfã...

Foto de Mateus Sa

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Texto relacionado neste blog: ler dia 22 de novembro de 2007

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Menino do rio...

Icoaraci - Belém - março de 2006

Transito tem em todo lugar...

Tudo é uma questao de referencial...

Icoaraci - Belém - março de 2006

sábado, 25 de abril de 2009

falta, ô se falta!!

Uma vez ouvi em uma palestra que o problema da atualidade não era a falta de pessoas interessantes! Isso tem muito, cada vez mais inclusive! O problema nas sociedades atuais e nas crises pessoais está justamente no inverso, está na falta de pessoas interessadas! Falta ouvido pra esse monte de gente interessante... Falta mais humildade nestes berços de ouro. Falta o aprender com o outro e não apenas o aprender burocratico, cheio de cifras e registros!
Ta faltando mais mão na massa e anda sobrando currículo!

Falta mais tia Rosa no mundo meu deusao!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Próxima parada...deserto do Atacama?

Não sei se por influência argentina ou por algum outro motivo parecido, o chileno não é o povo mais querido da América Latina. O carisma deles anda em baixa e são tidos como arrogantes, metidos, ou aquele povo que “se acha”.
Ainda não tive a sorte de estar no Chile, mas ao longo destes anos de existência tive a oportunidade de conhecer alguns chilenos que moram ou já estiveram no Brasil. Minhas impressões são bem diferentes destes nossos colegas de continente! Primeiro porque uma das minhas melhores amigas é uma chilena... chegou por aqui com seus dois aninhos e a partir dos sete crescemos juntas (algumas fases mais outras menos..., mas sempre por perto). Um salve à cidade de “Concepcion” que concebeu esta pessoinha tão querida e tão chilenamente brasileira!
Uma das mulheres que também mais admiro é uma chilena, e não por coincidência é a sua mãe!Um símbolo de força e luta, acho que muitas mulheres brasileiras teriam muito a aprender com ela (e muitas tenho certeza que aprendem através das suas cobiçadas aulas de espanhol). Ē uma pena que atualmente nós tenhamos tão pouco contato!
Amigão de escola foi um chileno. Não sei com quantos anos chegou, e nem há quantos anos não o vejo, mas sei que adoro esse cabra e quando nos encontrarmos em um corredor de supermercado vai ser como se tivéssemos nos visto sempre!
Em Olinda conheci um grupo de chilenos que trabalhava com teatro de sombras Não eram tão talentosos quanto simpaticos, gente de primeira linha, mergulhando no experimental - quem sabe de olho no profissional - enquanto desbravavam territórios desconhecidos. Tinha também um outro grupo de conterrâneos seus que eram músicos e que fizeram muito pernambucano arretado dançar ritmo latino! Não vou me esquecer do dia em que tocaram em uma festa lá em casa e que foi simplesmente inesquecível!
Mas perambulando pela América latina... nenhum chileno... nenhum.. aliás, quase nenhum latino americano também... Apenas os “gringos”! Eu considero esse o maior defeito nosso, incluindo ai os chilenos e os brasileiros... viajamos muito pouco pelas nossas terras tão suadas e cobiçadas! Nós latinos, não conhecemos a América Latina, e conseqüentemente não nos conhecemos também! Ah, então vamos parar de falar dos nossos vizinhos e vamos lá tomar uma cerveja gelada com eles!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Vai pra Penha!!

Essa foi a expressao chefe da viagem, quando nos deparavamos com alguém muito mala, com sugadores de energia, perseguidores inconvenientes, sacaneadores, tiradores de proveito das situaçoes, pessoas sem noçao (non sense), pentelhos e uma infinidade de outros seres deste tipo!
Eu nao sei aonde fica exatamente a Penha, pelo menos essa Penha para onde mandavamos todos esses seres, atraves de gestos, atos e pensamentos, so sei que ela deve estar lotada! Porque gente assim tem em todo lugar...às pencas!

...até que...

... nos fomos parar na PENHA!!!!!!! HAHAHAHAHAH

Mas uma Penha muito legal, cheia de gente querida e pra cima! Uma Penha regada a drinks, musica, poesia, recitais, malabares, risadas, abraços e uma bela ressaca! Essa com certeza era a Penha do bem!

....modéstia à parte


Penha, Alajuela - Costa Rica - março de 2006

ps: atençao especial para a Gabi que também esta presente na foto!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Alguns norteamericanos bem que queriam ter nascido um pouquinho mais "brasilamericanos"!

Nation beat

Som from Nova Yorque com muitos condimentos brasileiros...

...né Murilo?? roubei do seu bloggg

aproveito esse video pra sonoilustrar a minha atual fase!!

Aonde tem cerveja...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Escritor, fotógrafo, mexicano, e otras cositas más…

Juan Rulfo

“Na reverberação do sol, a planície parecia uma lagoa transparente, desfeita em vapores por onde transluzia um horizonte cinzento. Além, uma linha de montanhas. E mais além, a mais remota lonjura.”

Pedro Páramo
Autor: JUAN RULFO

Editora: Paz e Terra
Origem: Nacional
Ano: 1996
Edição: 1
Número de páginas: 162
Acabamento: Brochura
Formato: Bolso
Complemento: Nenhuma

Paisagem da leitura: avenida paulista com cheiro de milho, México e poeira molhada

segunda-feira, 6 de abril de 2009

CIRCULAR 1 OU 2??

11 anos...eu deveria me envergonhar disso, mas na verdade eu sinto muito mais alivio do que vergonha! E nao foi por falta de vontade de ter encurtado este longo periodo...o fato é que esse tempo todo nao bastou para eu saber se tenho que pegar o circular 1 ou o circular 2 para chegar na biologia...ou na educaçao...ou no crusp!! Tem coisas que a gente nunca vai saber na vida, e o trajeto dos dois circulares da USP (secular na minha epoca) é em deles. Hoje indo deixar a minha ultima ficha de estagio...e assim, meu ultimo vinculo, tive que arriscar e embarcar em um deles...e felizmente dei sorte, mas nem sempre foi assim. Bom, nao sei se terei oportunidade de continuar essa dificil missao de mapear a rota dos circulares no campus universitario ao tentar me locomover pela usp, assim como nao sei se um dia vou dizer "na horizontal" ou "na vertical" sem ter que parar antes para pensar, so sei que por enquanto estou muito feliz!!!!

Sou uma licenciada para dar aulaaaaaaas!!!!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mentira...

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor...

sábado, 28 de março de 2009

A arte de expressar - fotografias e escultura

De conversa em conversa!

Hospital psiquiátrico: pacientes pintam, esculpem; são – à sua maneira – felizes. Um repórter entrevista um louco varrido. O homem deslumbrava visitantes com suas esculturas fantásticas, em recém-inaugurada exposição.
- É difícil esculpir? – perguntou o jornalista.
- Fácil – disse o louco. – Ficando calmo, o resultado é melhor.
- Calmo eu sei, mas como é fazer melhor?
- Você pega uma pedra grande. Pensa em alguém: veja essa pessoa na imaginação, inteira. Olhos fechados, do jeito que você vê! Escultura não é retrato – quem faz retrato é a câmera. Você é artista. Imagina, pega o martelo, o cinzel, e tira da pedra tudo que não seja essa pessoa! Joga fora o resto e só deixa na pedra esse alguém!
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É fácil ser artista: basta ser louco!
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É fácil ser louco: basta ser artista!

Hamlet e o filho do padeiro
Augusto Boal

A meus mestres da escultura... Antonio Van Acker e Néia!



sexta-feira, 27 de março de 2009

A arte de expressar - fotografias e desenhos

"...Eu preferia retratar-me a mim mesmo, ao invés de entregar essa tarefa a um fotografo. Eu desejava um retrato com uma luz tao ruim e neutra quanto fosse possivel, a fim de que esse nao representasse nenhum truque fotografico na sua configuraçao.
O grande problema das cabines fotograficas era adivinhar o momento do disparo. A maquina ou eu - um de nos sempre atrasava. Por essa razao era dificil documentar o momento do climax facial....
O momento de expressao nao poderia ser temporalmente separadoda reflexao (ao desenhar sempre se tem alguns segundos de diferença). Por isso os desenvolvimentos so eram possiveis através das correçoes das fotos com a utilizaçao de desenhos. Isso é o que tem me ocupado até entao."

Arnulf Rainer

" Quando eu desenho, fico muito agitado, falo comigo mesmo, tomado pela raiva e pela ira (como ocorre com os bebados).... Idéias fixas, porém vagas me preenchem. Elas se diferenciam e se concretizam somente no momento em que eu desenho, e passam a ser algo novo. Apos uma ou duas horas estou exausto. As correçoes constituem somente algumas mudanças ou lembranças. O que me vem à mente nao se complementa com o que acabou de ser feito".

Minha droga é o alcool e minha inspiraçao é o desespero.



A arte expressar - fotografias

"Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei. Eu conto: Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina. O silêncio era um carregador? Estava carregando o bêbado. Fotografei esse carregador. Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra. Fotografei a existência dela. Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre. Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça. Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa Mais justa para cobrir sua noiva. A foto saiu legal."


Manoel de Barros
Barcos, pessoas, céus, andorinhas, golfinos, paisagens, cargueiros, tubarao. Eu vejo o forte cheiro da brisa do mar, sinto o suor do corpo no calor do dia, o azul do céu-mar, vejo a tristeza de um dia, alegria no outro e ouço o frio na barriga na lembrança dos dias daquelas imagens.
Fotografei o céu...

...no mar

ou foi o contrario?

(San blas, 2007)



segunda-feira, 23 de março de 2009

"A GLoriaaaaa"

Delicias do México...

sábado, 21 de março de 2009

Lugares mais do que especiais...

Adivinha aonde fica...


Foto: Enrique - "PIPO" - (2001????)

segunda-feira, 9 de março de 2009

A Terra, a mulher, a explosao!

Tem ao menos um dia no mês, tem, em alguns momentos na vida, que nós, mulheres, liberamos uma energia mais ou menos assim...

Vulcao Pacaya - Guatemala - junho 2006

domingo, 25 de janeiro de 2009

sábado, 24 de janeiro de 2009

Trégua!

"Segunda-feira, 23 de setembro

Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus."

A Trégua, Mario Benedetti

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

PRONTA?!?!?!

"Se não for agora, não será depois. Se não for depois, tem que ser agora. Se não for agora, será em um momento qualquer. Estar pronto é tudo".

Hamlet (ato 5, cena 2).

sábado, 10 de janeiro de 2009

Meta 2009: Traduzir se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferreira Gular
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

VAMOS AO MEXICO?

Seria absurdo demais ler este texto do Erico e confundi-lo com um texto meu?

“ E nós sabemos que a vida, major, não merece bocejos. É rica demais, séria demais, interessante demais e principalmente curta demais para que fiquemos diante dela nessa atitude de fastio. Em suma, estou cansado deste mundo lógico, anseio por voltar, nem que seja por poucos dias, a um mundo mágico. Sinto saudade da desordem latino-americana,das imagens, sons e cheiros de nosso mundinho em que o relógio é apenas um elemento decorativo e o tempo, assunto de poesia. Dêem-me o México, o mágico México, o absurdo México! Há um ano e pouco visitei esse país, meu poeta, e voltei a Washington perturbado com o pouco que vi e o mundo que adivinhei. O gosto de México ainda não me saiu da memória. Doce? Não. Amargo? Também não. Esquisito, raro, diferente, mistura de tortilla, cigarro de palha, chile e sangue. Um gosto seco, às vezes com certa aspereza de terra desértica, não raro com inesperadas e perecíveis doçuras de fruto tropical. Se eu fosse dar-lhe uma cor, diria que é um gosto pardo. Se me pedissem para qualificá-lo, arriscaria dizer: gosto de rústica tragédia. Céus! Será que estou ficando metafísico? Positivamente, William Shakespeare, preciso urgentemente dumas férias.”
Erico Verissimo
Comentário extraído do livro México - 5a. edição

Atravessando a fronteira da Guatemala rumo ao México! Julho 2006