A maior dor do vento é não ser colorido.
Mário Quintana
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
heim
Tem uma pessoa que não sai de mim. Tenho certeza que não saio dela também. Por que ficamos assim?
heim?
heim?
quarta-feira, 20 de abril de 2011
mainha por opção
Uma breve ansiedade escapa pelo sutil entrelaçar dos dedos da mão. O cabelo continua fortemente esticado e atado a um ponto central, de onde partem cachos ensaiados, que valorizam os traços redondos do rosto pueril. As tesouras recortaram decotes, expuseram braços e pernas, mas comportaram-se nas ancas, cintura e busto. A fartura contida das carnes continuou macia e acolhedora, sem exageros mas também sem economia. A harmonia do conjunto não foi abalada, sequer ameaçada, e evidencia ainda a perda de alguns anos. Mas quem é que explica a luz que erradia aquele corpo indeciso entre a juventude e a velhice?
Conheci Marisa em uma madrugada de tambores silenciados. Sua discrição contrastava com a beleza de duas jovens e extravagantes mulheres negras, uma magra e esbelta, outra bela e farta, duas meninas fantasiadas de beleza e carnaval. Eram suas filhas no balé do maracatu Sol Nascente. O asfalto pertencia ao Pátio do Terço. E eu era a embriagada aspirante à nação pernambucana a esbarrar na presença dessas enfeitiçadoras mulheres. Não sei explicar exatamente como. Tampouco como nos tornamos íntimas, apesar dos contrastes de pele, sotaque e de falas. O fato é que, cerca de um mês depois, eu já frequentava a casa das três poderosas mulheres na posição de filha e irmã de criação. Galinha ensopada, arroz, feijão, macarrão com coentro, macaxeira, refrigerante e a minha sobremesa predileta: delícia de abacaxi. Nada como um simples e delicioso cardápio caseiro para sedimentar as memórias.
Para chegar, terminal Córrego de Euclides. Desse pequeno círculo de concreto encravado em uma esquina partiam inúmeras flechas imaginárias que conduziam a braços de ruas, que se bifurcavam em dezenas de vielas, que escalavam o Morro da Conceição em um intrincado emaranhado de escadarias e de pequenos córregos a céu aberto. Para chegar ao portão alto e branco de muros desenhados era preciso enfrentar umas boas dezenas de degraus. A companhia estava em ambos os lados, entre barracos de zinco, estreitas casas de tijolos expostos, armações de concreto, casebres em formato de caixotes. Tantos eram os materiais, as cores, a predominância dos tons e do cheiro de terra e esgoto. Muitos também eram os corpos em movimento e os graus que aqueciam tanta superfície.
Agora pensando me recordei do dia em que fui conhecer a creche. Lembro-me do arrependimento de não levar a câmera fotográfica. Achei as cenas fortes, com um apelo em forma de beleza que a pobreza costuma proporcionar em imagens. Ou que nós aprendemos a contemplar como belo, como arte. As salas eram mau iluminadas, pouco ventiladas, com paredes expostas e parcialmente cobertas por adereços infantis, motivos de alfabeto ou rabiscos. No chão, um a um enfileirados, estavam vários corpinhos seminus, deitados em estreitos colchonetes, coladinhos um no outro ao abanar de ventiladores capengas. Algumas moças vigiavam as crianças enquanto conversavam ou faziam a unha, uma ou outra preparava a merenda. Logo se percebia a precariedade das instalações e a falta dos recursos. Mainha dirigia aquela creche comunitária, informal, montada através da iniciativa popular para suprir uma carência essencial. Enquanto elas exercitavam um incrível jogo de cintura para angariar fundos e cobrir as despesas de água, luz, telefone e merenda, eu me preocupava em registrar na memória detalhes daquela dedicação que por dezenove anos não lhes rendeu um centavo sequer. Só levou. Tanto na creche quanto na casa, também adaptada a acolher jovens criancinhas entre os dois horizontes solares dos dias.
Só hoje me dou conta que toda essa entrega nunca fora exatamente uma opção na vida das três mulheres. Essa foi a única opção dada a uma mulher, impedida de exercer sua liberdade e culturalmente destinada a cuidar do lar, dos filhos e da impressão que poderia causar aos vizinhos. Daí vestir o seu charme sem deixar pedaços de corpo expostos. Daí esconder sua ousadia com um sorriso tímido e um olhar contido. E silenciar o corpo ávido por movimento e sensualidade em monótonos gestos cotidianos. Uma obra de painho...
Painho eu nunca conheci. Nunca esteve nos almoços de domingo. Era daqueles que nem bem esperava as 12 baladas natalinas, logo após a ceia, e desaparecia na noite escura. Faleceu no ano em que eu me mudei de lá. Como herança deixou algumas amantes e uma boa quantidade de filhos para partilhar com as três mulheres, a modesta aposentadoria de motorista de ônibus. Partimos juntos e foi assim que eu guardei a lembrança da minha mãe desde então. Não sei como fui deixar esses anos todos se passarem até hoje, o dia do nosso reencontro....
Como eu disse Dona Marisa não só não envelheceu nesses cinco anos como ainda ganhou mais outros cinco. Hoje ela mostra a pele negra e ainda jovem dos seus braços, das pernas e do colo com tecidos fortes e vibrantes. Anda do mesmo jeito, o olhar e o sorriso são os mesmos, mas a alma que os sustenta é maior do que o seu corpo, então extravaza. Acho que é isso que faz a beleza dela parar as pessoas na rua e levar contraste para as cenas das propagandas do carnaval em que ela rapidamente aparece na televisão. Sem querer ela se destaca. Com humildade ela rouba a cena. Quase sem falar ela impressiona.
Eu soube...
Marisa trocou as creches por um salário e uma carteira assinada. É praticamente a ela que recorrem os funcionários e doutores do hospital onde trabalha, e botou ordem. Com medidas básicas de higiene deixou médicos de queixo caído e não consegue entender todo esse espanto: atribui seus métodos à experiência adquirida nos tempos idos com as crianças (inclusive, costuma ser importunada nas férias, o hospital de luxo desanda sem a sua presença). As vezes ela se questiona como demorou tanto para usufruir de um talento com reconhecimento. Mainha também não se intimidou, vestiu a fantasia e caiu na avenida. Agora é destaque como bahiana do maracatu e desfila, roda, brilha, tanto quanto as filhas. E quando bota pé na rua... a dona Marisa é de parar o trânsito. Em uma dessas passagens saiu de braços dados com um novo, ou um primeiro... amor. Apesar dela não ter quase cabelo branco e ele quase não ter cabelo com cor, mainha ainda não consegue acreditar que ele ame a sua liberdade. Então ela voa com receio de cair lá do alto, lá de cima da imensidão e da beleza da vida que ela nunca imaginou que existisse. Seu próximo passo: extinguir as escadarias do seu cotidiano e ir morar perto do barulho do mar. Apesar do receio das pernas não mais aguentarem aquele monte de degraus, no fundo no fundo eu acho que o que ela quer mesmo é se afastar dos últimos resquícios do passado. Com exceção é claro das duas maiores pedras preciosas que seu útero lapidou: Nilfânia e Nilvânia.
Como é bonito ver alguém renascer aos 60 anos de vida.
Como é bom encontrar a humildade em forma de mãe.
A essa grande mulher, com amor e admiração
da filha branquela, e por opção
tati
Conheci Marisa em uma madrugada de tambores silenciados. Sua discrição contrastava com a beleza de duas jovens e extravagantes mulheres negras, uma magra e esbelta, outra bela e farta, duas meninas fantasiadas de beleza e carnaval. Eram suas filhas no balé do maracatu Sol Nascente. O asfalto pertencia ao Pátio do Terço. E eu era a embriagada aspirante à nação pernambucana a esbarrar na presença dessas enfeitiçadoras mulheres. Não sei explicar exatamente como. Tampouco como nos tornamos íntimas, apesar dos contrastes de pele, sotaque e de falas. O fato é que, cerca de um mês depois, eu já frequentava a casa das três poderosas mulheres na posição de filha e irmã de criação. Galinha ensopada, arroz, feijão, macarrão com coentro, macaxeira, refrigerante e a minha sobremesa predileta: delícia de abacaxi. Nada como um simples e delicioso cardápio caseiro para sedimentar as memórias.
Para chegar, terminal Córrego de Euclides. Desse pequeno círculo de concreto encravado em uma esquina partiam inúmeras flechas imaginárias que conduziam a braços de ruas, que se bifurcavam em dezenas de vielas, que escalavam o Morro da Conceição em um intrincado emaranhado de escadarias e de pequenos córregos a céu aberto. Para chegar ao portão alto e branco de muros desenhados era preciso enfrentar umas boas dezenas de degraus. A companhia estava em ambos os lados, entre barracos de zinco, estreitas casas de tijolos expostos, armações de concreto, casebres em formato de caixotes. Tantos eram os materiais, as cores, a predominância dos tons e do cheiro de terra e esgoto. Muitos também eram os corpos em movimento e os graus que aqueciam tanta superfície.
Agora pensando me recordei do dia em que fui conhecer a creche. Lembro-me do arrependimento de não levar a câmera fotográfica. Achei as cenas fortes, com um apelo em forma de beleza que a pobreza costuma proporcionar em imagens. Ou que nós aprendemos a contemplar como belo, como arte. As salas eram mau iluminadas, pouco ventiladas, com paredes expostas e parcialmente cobertas por adereços infantis, motivos de alfabeto ou rabiscos. No chão, um a um enfileirados, estavam vários corpinhos seminus, deitados em estreitos colchonetes, coladinhos um no outro ao abanar de ventiladores capengas. Algumas moças vigiavam as crianças enquanto conversavam ou faziam a unha, uma ou outra preparava a merenda. Logo se percebia a precariedade das instalações e a falta dos recursos. Mainha dirigia aquela creche comunitária, informal, montada através da iniciativa popular para suprir uma carência essencial. Enquanto elas exercitavam um incrível jogo de cintura para angariar fundos e cobrir as despesas de água, luz, telefone e merenda, eu me preocupava em registrar na memória detalhes daquela dedicação que por dezenove anos não lhes rendeu um centavo sequer. Só levou. Tanto na creche quanto na casa, também adaptada a acolher jovens criancinhas entre os dois horizontes solares dos dias.
Só hoje me dou conta que toda essa entrega nunca fora exatamente uma opção na vida das três mulheres. Essa foi a única opção dada a uma mulher, impedida de exercer sua liberdade e culturalmente destinada a cuidar do lar, dos filhos e da impressão que poderia causar aos vizinhos. Daí vestir o seu charme sem deixar pedaços de corpo expostos. Daí esconder sua ousadia com um sorriso tímido e um olhar contido. E silenciar o corpo ávido por movimento e sensualidade em monótonos gestos cotidianos. Uma obra de painho...
Painho eu nunca conheci. Nunca esteve nos almoços de domingo. Era daqueles que nem bem esperava as 12 baladas natalinas, logo após a ceia, e desaparecia na noite escura. Faleceu no ano em que eu me mudei de lá. Como herança deixou algumas amantes e uma boa quantidade de filhos para partilhar com as três mulheres, a modesta aposentadoria de motorista de ônibus. Partimos juntos e foi assim que eu guardei a lembrança da minha mãe desde então. Não sei como fui deixar esses anos todos se passarem até hoje, o dia do nosso reencontro....
Como eu disse Dona Marisa não só não envelheceu nesses cinco anos como ainda ganhou mais outros cinco. Hoje ela mostra a pele negra e ainda jovem dos seus braços, das pernas e do colo com tecidos fortes e vibrantes. Anda do mesmo jeito, o olhar e o sorriso são os mesmos, mas a alma que os sustenta é maior do que o seu corpo, então extravaza. Acho que é isso que faz a beleza dela parar as pessoas na rua e levar contraste para as cenas das propagandas do carnaval em que ela rapidamente aparece na televisão. Sem querer ela se destaca. Com humildade ela rouba a cena. Quase sem falar ela impressiona.
Eu soube...
Marisa trocou as creches por um salário e uma carteira assinada. É praticamente a ela que recorrem os funcionários e doutores do hospital onde trabalha, e botou ordem. Com medidas básicas de higiene deixou médicos de queixo caído e não consegue entender todo esse espanto: atribui seus métodos à experiência adquirida nos tempos idos com as crianças (inclusive, costuma ser importunada nas férias, o hospital de luxo desanda sem a sua presença). As vezes ela se questiona como demorou tanto para usufruir de um talento com reconhecimento. Mainha também não se intimidou, vestiu a fantasia e caiu na avenida. Agora é destaque como bahiana do maracatu e desfila, roda, brilha, tanto quanto as filhas. E quando bota pé na rua... a dona Marisa é de parar o trânsito. Em uma dessas passagens saiu de braços dados com um novo, ou um primeiro... amor. Apesar dela não ter quase cabelo branco e ele quase não ter cabelo com cor, mainha ainda não consegue acreditar que ele ame a sua liberdade. Então ela voa com receio de cair lá do alto, lá de cima da imensidão e da beleza da vida que ela nunca imaginou que existisse. Seu próximo passo: extinguir as escadarias do seu cotidiano e ir morar perto do barulho do mar. Apesar do receio das pernas não mais aguentarem aquele monte de degraus, no fundo no fundo eu acho que o que ela quer mesmo é se afastar dos últimos resquícios do passado. Com exceção é claro das duas maiores pedras preciosas que seu útero lapidou: Nilfânia e Nilvânia.
Como é bonito ver alguém renascer aos 60 anos de vida.
Como é bom encontrar a humildade em forma de mãe.
A essa grande mulher, com amor e admiração
da filha branquela, e por opção
tati
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Retrospectiva literaria 2010
Os melhores, e descobertas:
1° lugar
Mario Vargas Llosa: O paraíso na outra esquina
2° lugar
Alejo Carpentier: O reino desse mundo e
. Visão da América
3° lugar
Nikolai Leskov: Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk
Infanto-juvenil:
Pablo Bernasconi: El Diario del Capitan Arsênio
Artesanal
Bhajju Shyam, Durga Bai, Ram Singh Urveti: A vida secreta das arvores
Ilustração: Suzy Lee e
. Luciana Justiniani
Praticando (e mandando muito bem):
Roberto Bolano: 2666
Os detetives Selvagens;
Rubem Fonseca: A coleira do cão;
Juan Rulfo: Chão em chamas e
. O galo de ouro e outros textos para cinema
Mia Couto: Antes de nascer o mundo
Poesia
Ano do Manoel de Barros: Obras Completas (obviamente não concluída)
Bertold Brecht: Poemas 1913-1956
Novos (para mim) e muito bons autores:
Milton Hatoum: Dois irmãos
Agualusa: As mulheres do meu pai
Estação das chuvas
Ismael Kadaré: O acidente
Iniciados:
Julio Cortazar: Jogo da Amarelinha
1° lugar
Mario Vargas Llosa: O paraíso na outra esquina
2° lugar
Alejo Carpentier: O reino desse mundo e
. Visão da América
3° lugar
Nikolai Leskov: Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk
Infanto-juvenil:
Pablo Bernasconi: El Diario del Capitan Arsênio
Artesanal
Bhajju Shyam, Durga Bai, Ram Singh Urveti: A vida secreta das arvores
Ilustração: Suzy Lee e
. Luciana Justiniani
Praticando (e mandando muito bem):
Roberto Bolano: 2666
Os detetives Selvagens;
Rubem Fonseca: A coleira do cão;
Juan Rulfo: Chão em chamas e
. O galo de ouro e outros textos para cinema
Mia Couto: Antes de nascer o mundo
Poesia
Ano do Manoel de Barros: Obras Completas (obviamente não concluída)
Bertold Brecht: Poemas 1913-1956
Novos (para mim) e muito bons autores:
Milton Hatoum: Dois irmãos
Agualusa: As mulheres do meu pai
Estação das chuvas
Ismael Kadaré: O acidente
Iniciados:
Julio Cortazar: Jogo da Amarelinha
terça-feira, 30 de novembro de 2010
sábado, 18 de setembro de 2010
Tem que ser PURA VIDA!
Cadernos de viagem.
As vezes encontro anotações de viagens... breves comentários, “pensamentos imperfeitos”... alguns extraordinários! Como é o caso desse, que rabisquei depois de ler um trecho de um livro do Saramago. Apesar da vontade, não mudei nenhuma palavra. Mas tenho que acrescentar um extraordinário muito obrigado ao pais da pura vida, que me inspirou a tentar definir o que é ... extraordinário!
“ Não invento nada. Faço esta declaração imediata porque adivinho já os sorrisos solertes e desconfiados daquela gente para quem o extraordinário é sempre sinônimo de mentira. Essas pobres pessoas não sabem que o mundo está cheio de coisas e momentos extraordinários. Não os vêem, porque para eles o mundo aparece como coberto de cinzas, comido de verdete baço, povoado de figuras que usam roupas iguais e falam da mesma maneira, com gestos repetidos sobre gestos já feitos por outros desaparecidos seres. É gente para quem talvez não haja remédio, mas a quem devemos continuar a dizer que o mundo e o que está nele não são o tão pouco que julgam...”
José Saramago (Apólogo da Vaca Lutadora)
E o que é o extraordinário? Talvez seja só o diferente, o que não foi previsto nas mais platônicas horas do sábio planejamento. Mas para saber extraordinário deve causar sensações... deve ter o frio na barriga de quem, por uns instantes, perde as rédeas da rotina e o controle da freqüência respiratória. Para ser extraordinário tem que acender o brilho do olhar, a umidificaçao excessiva que vem da expansão da alma para quem o corpo fica repentinamente pequenino. O olhar que quer a tudo ver e a tudo não alcança. Para ser extraordinário tem que dar medo, um receio, e assim impulsionar o espírito para a ousadia em cada pequeno momento. Tem que despertar o medo que pode ser o resquício de alguma dor, e esta assim também aparecer. Um soluço, ou vários, substituindo as virgulas de um breve relato. O extraordinário não pode ser nada que não existe. Pode e deve ser sim um profundo agradecimento simplesmente por existir. E pode ser tão simples, mas tão simples, que simplesmente muitos não o percebem, não o tocam e não são por ele acariciados.
Tem que ser PURA VIDA!
As vezes encontro anotações de viagens... breves comentários, “pensamentos imperfeitos”... alguns extraordinários! Como é o caso desse, que rabisquei depois de ler um trecho de um livro do Saramago. Apesar da vontade, não mudei nenhuma palavra. Mas tenho que acrescentar um extraordinário muito obrigado ao pais da pura vida, que me inspirou a tentar definir o que é ... extraordinário!
“ Não invento nada. Faço esta declaração imediata porque adivinho já os sorrisos solertes e desconfiados daquela gente para quem o extraordinário é sempre sinônimo de mentira. Essas pobres pessoas não sabem que o mundo está cheio de coisas e momentos extraordinários. Não os vêem, porque para eles o mundo aparece como coberto de cinzas, comido de verdete baço, povoado de figuras que usam roupas iguais e falam da mesma maneira, com gestos repetidos sobre gestos já feitos por outros desaparecidos seres. É gente para quem talvez não haja remédio, mas a quem devemos continuar a dizer que o mundo e o que está nele não são o tão pouco que julgam...”
José Saramago (Apólogo da Vaca Lutadora)
E o que é o extraordinário? Talvez seja só o diferente, o que não foi previsto nas mais platônicas horas do sábio planejamento. Mas para saber extraordinário deve causar sensações... deve ter o frio na barriga de quem, por uns instantes, perde as rédeas da rotina e o controle da freqüência respiratória. Para ser extraordinário tem que acender o brilho do olhar, a umidificaçao excessiva que vem da expansão da alma para quem o corpo fica repentinamente pequenino. O olhar que quer a tudo ver e a tudo não alcança. Para ser extraordinário tem que dar medo, um receio, e assim impulsionar o espírito para a ousadia em cada pequeno momento. Tem que despertar o medo que pode ser o resquício de alguma dor, e esta assim também aparecer. Um soluço, ou vários, substituindo as virgulas de um breve relato. O extraordinário não pode ser nada que não existe. Pode e deve ser sim um profundo agradecimento simplesmente por existir. E pode ser tão simples, mas tão simples, que simplesmente muitos não o percebem, não o tocam e não são por ele acariciados.
Tem que ser PURA VIDA!
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Voce tem F O M E de que, México...?
Vocês dirão que é pura estupidez a minha,
que é um desatino lamentar-se da sorte,
inda mais desta terra pasma
onde nos esqueceu o destino.
A verdade é que dá muito trabalho se aclimatar à fome.
E ainda que digam que a fome
repartida entre muitos
vira menos fome, a única coisa certa é que todos
aqui
estamos a meio morrer
e não temos nem mesmo
onde cair mortos.
Ao que parece
a perversa vem direto para nós.
Nada de dar nó cego a esse assunto.
Nada disso.
Desde que o mundo é mundo
desandamos a andar com o umbigo grudado no espinhaço
e nos agarrando ao vento com as unhas.
Nos regateiam até a sombra,
e apesar de tudo continuamos assim:
meio atordoados pelo sol maldito
que nos afunda dia a dia aos pedaços,
sempre com a mesma seringa,
como se o rescaldo quisesse reviver mais e mais.
Embora a gente saiba muito bem
que nem ardendo em brasas
acenderá a nossa sorte.
Mas somos teimosos.
Talvez isso tenha conserto.
O mundo está inundado de gente feito a gente,
de muita gente feito a gente.
E alguém tem que nos ouvir,
alguém e mais alguns,
embora arrebentem ou devolvam nossos gritos.
Não é que sejamos rebeldes,
nem que estejamos pedindo a esmola à lua.
Nem está em nosso caminho buscar depressa a pocilga,
ou arrancar para a montanha
cada vez que os cães nos esfaqueiem.
Alguém terá que nos ouvir.
Quando deixamos de roncar feito vespas em enxame,
ou nos volvermos cauda de redemoinho,
ou quando terminamos por escorrer sobre a terra
como um relâmpago de mortos,
então
talvez chegue a todos o remédio
O galo de ouro e outros textos para cinema, Juan Rulfo
que é um desatino lamentar-se da sorte,
inda mais desta terra pasma
onde nos esqueceu o destino.
A verdade é que dá muito trabalho se aclimatar à fome.
E ainda que digam que a fome
repartida entre muitos
vira menos fome, a única coisa certa é que todos
aqui
estamos a meio morrer
e não temos nem mesmo
onde cair mortos.
Ao que parece
a perversa vem direto para nós.
Nada de dar nó cego a esse assunto.
Nada disso.
Desde que o mundo é mundo
desandamos a andar com o umbigo grudado no espinhaço
e nos agarrando ao vento com as unhas.
Nos regateiam até a sombra,
e apesar de tudo continuamos assim:
meio atordoados pelo sol maldito
que nos afunda dia a dia aos pedaços,
sempre com a mesma seringa,
como se o rescaldo quisesse reviver mais e mais.
Embora a gente saiba muito bem
que nem ardendo em brasas
acenderá a nossa sorte.
Mas somos teimosos.
Talvez isso tenha conserto.
O mundo está inundado de gente feito a gente,
de muita gente feito a gente.
E alguém tem que nos ouvir,
alguém e mais alguns,
embora arrebentem ou devolvam nossos gritos.
Não é que sejamos rebeldes,
nem que estejamos pedindo a esmola à lua.
Nem está em nosso caminho buscar depressa a pocilga,
ou arrancar para a montanha
cada vez que os cães nos esfaqueiem.
Alguém terá que nos ouvir.
Quando deixamos de roncar feito vespas em enxame,
ou nos volvermos cauda de redemoinho,
ou quando terminamos por escorrer sobre a terra
como um relâmpago de mortos,
então
talvez chegue a todos o remédio
O galo de ouro e outros textos para cinema, Juan Rulfo
Assinar:
Postagens (Atom)