sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Caminhando nas nuvens

Entao eu pedi para que ela registrasse a imagem do que ela mais gostava naquele lugar...




E ela registrou...

As vezes nao precisamos ir tao longe para apreciar certas paisagens!

Ps: a autora da foto, uma pequenina garifuna que vive na costa de
Honduras.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Religião da cor

"O mexicano é eminentemente, e, antes de mais nada, um colorista."

"Vi o interior de diversas casas de barro, às vezes tão velhas e miseráveis que mais lembravam ninhos de toupeiras do que, propriamente, casa.
No fundo de cada um desses ninhos sempre via flores, gravuras ou pinturas e, até mesmo, enfeites de papel colorido - tudo isto constituindo uma espécie de altar, atestando a religião da cor".

Diego Rivera

domingo, 12 de outubro de 2008

Dia das crianças

Dia das saudades....
Pedrinha, nao esquece de mim nao visse!
Te adoroooooo



sexta-feira, 1 de agosto de 2008


Hoje...
quem dera eu ganhasse...
um chao cheio de flores...
uma cama cheia de delicias...
um poema...uma rosa...
uma banho de banheira!

Hoje...
mimos e carinhos
fogos de artificio
olhares e pinturas
um dia para surpresas!

mas hoje...
abri a janela e o dia nao sorria
abri os olhos e o café nao cheirava
o lençol nao me acariciava a pele
nenhuma palavra surgia

foi hoje...
eu abri a janela e vi uma rosa
vermelha
alta
aberta e vistosa
estava bem ao alcance da minha mao...


http://br.youtube.com/watch?v=a4SUDEGAhXs

quinta-feira, 31 de julho de 2008

mansa ou atroz, doce ou feroz...

...eu
caçadora de mim!

Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

terça-feira, 29 de julho de 2008

"Esperar é reconhecer-se incompleto"

Perguntou-me por que lhe presenteava tal texto. Que intenção haveria nesta escrita. Qual mensagem se esconderia na sugestão da leitura de tais palavras.

Nenhuma oras. é o conto que eu mais gosto. Queria simplesmente compartilhar. Que se deliciasse também, mais e mais a cada expressão, a cada leitura...

Leu. Ainda desconfiado. Nada comentou. Guardou-o em seguida.

O tempo passou...

Hoje, comprimida no enorme espaço que me cerca, em um vazio repleto de esperas, lembro e reparo que tudo estava ali naquele texto. Nao queria eu comparar-me a uma Livíria, Rivília ou Irlívia, nada contra a personagem. Mas o que dizer do amor, da coragem e da iniciativa de Jo Joaquim? Ah sim, esse sim eu queria para mim!

Desenredo

João Guimarães Rosa

Do narrador seus ouvintes:– Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. Como elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu. Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.Até que -deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que a ferira, leviano modo.Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudo personagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.Ela -longe- sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou -ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.Mas.Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou a mulher, a desconhecido destino.Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.Mais.No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade -idéia inata. Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conte inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar ou, a gente não se desafaz. Ele queria os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como fritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado -plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar -e qualquer causa se irrefuta.Pois produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos. Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.E pôs-se a fábula em ata.

A vã pergunta

Esta jovem pensativa, de olhos cor de mel e de longas pestanas penumbrosas

Que está sentada junto àquele jovem triste de largos ombros e rosto magro

É ela a amada dele e é ele o amado dela e é a vida a sombra trágica dos seus gestos?

Este trem veloz cheio de homens indiferentes e mulheres cansadas e crianças dormindo

Que atravessa esta paisagem desolada de árvores esparsas em montes descarnados

É ele o movimento e é ela a fuga e são eles o destino fugitivo das coisas?

Que dizem os lábios murmurantes dele aos olhos desesperados dela?

Que pronunciam os lábios desesperados dela aos olhos lacrimejantes dele?

Que pedem os olhos lacrimejantes dele à paisagem fugindo?

Não são eles apenas uma só mocidade para o tempo e um só tempo para a eternidade?

Não são seus sonhos um só impulso para o amor e os seus suspiros um só anseio para a pureza?

Por que este transtorno de faces e esta consumição de olhares como para nunca mais?

Não é um casto beijo isso que bóia aos lábios dele como um excedimento da sua alma?

Não é uma carícia isso que freme nas mãos dela como um arroubo da sua inocência ?

Por que os sinos plangendo do fundo das consolações como as vozes de aviso dos faróis perdidos?

É bem o amor essa insatisfação das esperanças?

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Carente de flor

Farewell

Claro que o corpo não é feito pra sofrer,
mas para sofrer e gozar.
Na inocência do sofrimento
como na inocência do gozo,
o corpo se realiza, vulnerável
e solene.

Salve, meu corpo, minha estrutura de viver
e de cumprir os ritos de existir!
Amo tuas imperfeições e maravilhas,
amo-as com gratidão, pena e raivas intercadentes.
Em ti me sinto dividido, campo de batalha
sem vitória pra nenhum lado
e sofro e sou feliz
na medida do que acaso me ofereças.

Será mesmo acaso,
será lei divina ou dragonária
que me parte e me reparte em pedacinhos?
Meu corpo, minha dor,
meu prazer e transcendência,
és afinal meu ser inteiro e único.

Carlos Drummond de Andrade

E concordando com ele, ou vice versa...

Fernado Pessoa

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento …
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva …
que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja …

Virgem e cancer (ou gemeos?)

Mainha e painho esculpidos pelo tempo...

Ubatuba - julho de 2008

Lua cheia

E o melhor remédio pra curar gripes, resfriados, clima seco, stress de trabalho, coriza, olhos ardentes, dor de garganta, cabeça, nauseas e afins, use:
Mas atençao: contra indicado em sintomas de dor de amor, cotovelo, palpitaçoes noturnas e saudades profunda!

Por que fugir pra uma casa na praia?

È por causa da mariposa



O fato é que havia um bicho muito próximo, muito mesmo. Mas era invisível: bastava que eu acendesse a luz e ele desaparecia. Quando apagava nao demorava para ele se debater. Acendia, e o bicho calava. Apagava e ele caminhava. Acendia, e cadê de o danado se mexer? Apagava... e ele me intrigava! Acendia...apagava...acendia... e,... e,... e acabei arrebatada pelo sono profundo... Profundo.
Bom, eu teria transformado o bicho em um personagem dos meus sonhos, fantasiando grandes proporções e aventuras com um ser mutante e inexistente! Sonharia e voaria muito mais não fosse o bichano voltar a se mexer logo de manhazinha. Sono leve, coração apertado, despertei. E o misterioso ser alado agora me desafiava se debatendo fortemente, mais próximo do que nunca. Mas que coisa, o que seria isso enfim? Encolhida debaixo do lençol- já que os cobertores às primeiras horas da manha estavam todos arremessados ao chão- e, protegendo o rosto do temido ataque do ser invisível, (mais a mais lutando contra a preguiça ou ainda querendo evitar o desagradável encontro), percorria as menores distâncias com os olhos varrendo os arredores da cama. E o bicho....tá tá tá tá tá.
Estaria ele dentro do meu ouvido?
Nada, era bicho de asa grande, não era zumbido de mosquitinho pentelho. E assim como o previsível e inevitável susto, subitamente o bicho surgiu esvoaçando na minha frente, quase na minha cara, partindo bem de baixo da minha cama, pelo centro do colchão. Um tanto incompreensível, a princípio... Mas em seguida, explica-se: a cama, de concreto, fixada no canto da parede, possuía um extrato para uma cavidade interna que não se comunicava com o meio externo, sendo assim, usada também como depósito para pequenos pertences...o colchão, sem que eu percebesse, preenchia a cama, porém, não toda ela, ficando assim um singelo canto no encontro das paredes a expor uma pequena abertura entre o vão, o extrado e colchão...
E foi exatamente aí que o mistério e o enlace se sucedeu: pela pequena fresta saiu a enorme mariposa a bater e debater-se freneticamente pelo quarto. Ah, coração descompassado, buscou o ritmo e abriu os olhos espremidos e tremulos, afastou as maos do rosto e em poucos segundos a graça e o medo que disparavam pelas veias estavam liquidados! Mas ainda não o incômodo barulho que fazia a enlouquecida mariposa dar rasantes pelo quarto e a se pôr na tela que revestia a unica janela. Em intervalos calculados, com intensidades escalares, ela batia as suas asas contra a tela e pouco a pouco estimulava os meus nervos ainda dormentes.
Mas por que eu não levantava logo e acabava com aquilo de vez?
Mistério esse ainda não revelado, tudo tem seu tempo, e tal qual o tempo da mariposa que pouco a pouco me despertava, incansável de seu objetivo, eu aguardava o meu, plena de cansaço misturado com mau humor e os sonidos de bandos de passarinhos logo ali do lado de fora. Como poderiam também estar tão vibrantes estes alados penados bichinhos àquelas horas da manhã!?
Ah, desavisados passarinhos...

Derrotada e enfim acordada levantei, joguei o lençol junto dos cobertores, caminhei rumo à janela e girei a maçaneta pra direita, (mas era para a esquerda), puxei as telas pra dentro e as empurrei as venezianas para fora, com força e ... salve à primeira mariposa matutina que eu nunca vi em algum lugar: conduziu-me a um nascer do sol único (alias, como são todos os sois que nascem) que, sem me dar conta, havia meses eu não presenciava. Como uma coisa tão singela pode tocar tão fundo a alma das pessoas? Subi para a varanda da casa e não cansava de olhar as tonalidades e brilhos que iam se sucedendo naquela explosão de vida matutina. Queria sair, fazer coisas, respirar fundo, estar em todos os lugares daquele lugar, correr, vibrar... mas, impossibilitada de agir, simplesmente estatuada pelas imagens e pelas sensações do poderoso astro, permanecia ali, imóvel, estática, plena, enfim....
fim.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Zipolite na lembrança

Hace un ano...
“Aí estava o mar, a mais inteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais inteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara o mais inteligível dos seres onde circulava sangue. Ele e o mar.”
Clarice Lispector

quarta-feira, 4 de junho de 2008

De repente me lembro do verde...

Semuc Champey - Guatemala - Junho 2006


...a cor verde é a mais verde que existe
A cor mais alegre,
a cor mais triste
O verde que vestes o verde que vestistes
No dia em que te vi
No dia em que me vesti ...
.
.
.
Caetano Veloso

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Um pequeno diario de bordo

De Santarém ficou uma paixão: o rio Tapajós. Verde, verde esmeralda, transparente, ou seja lá qual cor for, se é que é possível ter uma destas em se tratando de águas tão enfeitiçadoras. Águas que não se misturam às águas barrentas do rio Amazonas. Águas que refrescam só de olhar e matam a sede sem serem ingeridas. Que contrastam com a vegetação ao redor. Sustentam frutos e pessoas. Que tocam as margens de Santarém assim como tocam as partes do nosso corpo. Nunca tive uma sensação assim como esta, ao ver e sentir o rio Tapajós.
Ônibus de linha e cerca de uma hora depois, após muitas paradas no caminho, o destino seguinte. Apesar do cansaço e das muitas bagagens, foi fácil chegar à pousada da Tais, com o sugestivo nome de “Pôr do Sol”, quase na hora em que o astro planejava o seu majestoso repouso. Na medida! Bem simples, quarto pequeno, com ventilador, SEM TV, e uma mesinha de café da manhã no corredor da varanda, bem na frente da na nossa porta. Na varanda estavam também os ganchos para o nosso mais novo ítem imprescindível de viagem, a rede, e um estratégico varal, que já sugeria a presença de uma desejada lavanderia. No quintal um espaço coberto abrigava uma geladeira e a mesa de jantar, um fogão, e mais um pouquinho a frente, uma maloca para os adeptos da hospedagem econômica ou do aconchego a céu aberto. Não parei aí e dei mais uns passos adiante: Praia do Cajueiro! De frente para uma das mais famosas praias do Tapajós, a pousada margeia a praia de rio que pouco a pouco vai submergindo e desaparecendo aos pés dos turistas, literalmente encoberta pelas águas! A tarde estava linda e já ameaçava um belo pôr do sol. Antes do mergulho no entanto, uma conversa rápida com Jorge Luis já antecipou o que faríamos no dia seguinte. Se é que é verdade que não existe paraíso perfeito, o que atrapalha neste é o medo das arraias. Elas ficam camufladas na areia (na verdade preferem os fundos mais lodosos, onde aproveitam para se alimentar) e preferem lugares mais calmos e o pior, à noite vêem mais próximo das margens. O grande problema é que se não as vemos e elas também não nos percebem, corremos o sério risco de pisar em um destes animaizinhos, levando a famosa “ferroada de arraia”. Quem já passou por esta experiência, realmente não recomenda. A dor é muita. Sem contar o veneno inoculado e a tal laminha cheia de bactérias que vêem junto para dentro da sua pele: se não limpar muito bem, infecção das boas! Isso já bastou para que nenhum mergulho, principalmente em águas mais escuras ou à noite, fosse assim tão relaxante e divino... Mas que ainda assim, era muito bom! ... Cinco da manhã acordamos para uma grande empreitada com o Jorge Luis e sua namorada: ir para Maguarí de bicicleta! O projeto efemeramente traçado naquela véspera de pôr do sol consistia em sair cedo e seguir pedalando a espreita do rio, parar nas pequeninas comunidades ribeirinhas onde poderíamos respirar e beber água, almoçar, tomar banho de rio, comer frutos do caminho, até encontrar uma maloca para pendurar as redes e capotar à proteção de um extenso teto estrelar. Isto deveria acontecer em Maguarí, uma comunidade que ficou famosa na região pela confecção artesanal de couro “ecológico”, uma mistura de fibras com o látex das seringueiras. A distância do percurso ninguém sabe dizer ao certo até hoje e deve estar em torno de 35 km (8km até Pindobal, cerca de 10 km até Belterra, e segundo o IBAMA mais uns 12 km de Belterra até a entrada da Flona de onde seguem-se mais 1,5 km até Maguarí). Há quem jure de pé junto que dá mais. Mais até Pindobal, mais até Belterra! Na prática, seja la quantos kilômetros, eu só tenho a dizer que é muito, mas muito mesmo, e que por vários momentos eu pensei em desistir e que não iria agüentar.
Bem, algumas coisas não aconteceram exatamente como o previsto (muitas outras sequer foram planejadas) e isto acarretou em conseqüências para a nossa, hummm, expedição. No início achei que o Jorge estava fazendo paradas demais. Logo após a partida paramos em um igarapé tomar água e banho (local onde a nossa única garrafa de água caiu e estourou). Em seguida paramos em Pindobal onde comemos murici do pé e tomamos guaraná. Um pouco mais adiante paramos em uma propriedade abandonada tomar banho “de Tapajós” e minutos mais pra frente paramos na “casa” de uma família próxima à outra comunidade, onde Jorge decidiu que iríamos almoçar. Eram quase 9:00 da manhã!

Esperamos um bom tempo para que a Dona Selva preparasse a galinha que seu marido mineiro acabara de estrangular em uma cena parecidíssima com aquela em que o Gael estrangula uma destas aves no filme Babel. Iriam também preparar o arroz, o macarrão com molho de tomate e pasmem, o feijão com carne de porco!! Enquanto isto tomávamos mais um banho em outro igarapé delicioso, lindo, paradisíaco. Comemos, nos fartamos e obviamente gastamos um bom tempo na digestão deste gordo banquete ribeirinho enquanto os meus mal treinados músculos esfriavam e o clima começava a esquentar consideravelmente. Quando finalmente saímos desta parada, não sabia se era eu quem empurrava a bicicleta ou se era ela a me arrastar pelo caminho. Minhas nádegas e minha virilha começavam a dar sinais de alerta. Este primeiro trecho tinha o chão todo forrado de areia grossa, ainda bem úmida da chuva que caíra durante toda a madrugada, e, mesmo no plano, o esforço para pedalar era grande. Na descida, a areia diminuía a velocidade das bicicletas e nos obrigava a continuar pedalando incessantemente. Isto por si só, já gerou um bom desgaste. Da Dona Selva, senhora um tanto gorda, de traços marcadamente indígenas, ficaram algumas histórias de trabalhos e viagens por vários estados do Brasil afora. Lembro-me de Minas e São Paulo. Trabalhara como assistente de topógrafo, abrira negócio de turismo, seguira carreira de faxineira. Experimentara uma série de funções enquanto mandava dinheiro para os filhos que deixara com a mãe. Em Minas conheceu o mineiro que estrangulou a galinha e voltara ao Pará por motivos de enfermidade e morte da mãe. Ele a acompanhou. Moraram em Santarém, mas o calor era demais. Ficaram alguns poucos anos em Belterra e agora completavam 2 meses em uma maloca que tinha uma cama de casal, uma mesa de mantimentos, uma espécie de freezer com uma televisão em cima, tudo isso reunido em baixo de um toldo de palha, em cima do chão batido, e no meio de uma pequena clareira aberta no caminho. Este amontoado de coisas ainda tinha uma parabólica em cima! Impressionante. Após deixarmos este local o caldo entornou. Jorge deve ter percebido o horário e a extensão do combinado, por isso saiu em disparada com sua bicicleta e nos deixou para trás. Belterra fica no alto de uma colina e era para lá que estávamos pedalando. O céu foi abrindo cada vez mais, tanto quanto o caminho foi ficando íngrime e a água escassa. Não tinha mais rio, não tinha mais bica, e um pouco mais pra frente não tinha mais casinhas para pedirmos arrego. O sol já estava a pino. Suor, dor e cansaço. Chegamos a uma bifurcação no caminho: à direita Belterra (1 km?), esquerda Maguarí (14 km?). Mas segundo Jorge Luis seriam apenas 10 km de pura descida, e em cerca de 2 horas estaríamos no sonhado vilarejo. Resgatando o pouco da bateria que ainda existia e reunindo toda a esperança de que esta descida kilometral fosse verdadeira, topamos desviar para a esquerda. Ah...se eu pudesse voltar atrás...que tarde sofrida foi aquela...O que seria esta longa descida na realidade era um plano enorme, com suaves aclives e declives, mas que com aquela bicicleta pesada não fazia diferença alguma, nada aliviava. Tinha que pedalar, sempre. O chão era bem esburacado e cheio de pedras, o que fazia trepidar muito e judiava do corpo todo. O calor ficava ainda mais e mais intenso. A paisagem era especialmente bonita, mesmo quando a vegetação se abria em enormes campos de plantação de arroz, que nesta época do ano estavam recém plantados e seriam colhidos em meados de junho-julho. Sem casa por perto, nem pessoas, sem água e nem comida. Com muito atrito, começavam as lesões. As dores mais profundas, agora se concentravam na carne. Somados ao calor e ao suor resultavam em queda de pressão. Medo, até desespero, receio de desmaiar, de não agüentar, de estar no meio do nada. E o idiota do nosso guia já era um pontinho preto no horizonte plano, reto e distante. Parei um pouco. Resolvi que iria alternar períodos de caminhada com períodos de dor, pedalando. Isto fez com que diminuíssimos o ritmo, mas definitivamente não havia outra alternativa, estava muito cansada e com muita dor. Mais ao final da tarde tivemos a oportunidade de constatar nosso estado animal: nos deparamos com uma majestosa mangueira e seus preciosos filhos espalhados pelo chão...suculentos frutos amarelados...doces como o açúcar. Inexplicável a maneira como atacamos aquelas mangas, como vorazmente as descascamos, e mais ainda como as engolimos. Doces, suculentas, deliciosas. Nunca tão magníficas. Literalmente insaciáveis. Também havia no quintal desta casinha laranjas (grandes), e cupuaçu. Foi o combustível que precisávamos para abastecer e seguir este caminho sem fim. A tarde caía cada vez mais rápida e o pôr do sol parecia estar lindo em alguma beirada de rio. Só apreciávamos as trocas de cores espelhadas nas nuvens do céu. Mateiros começavam a cruzar nosso caminho retornando para as suas casas. Carregavam facões enormes e tinham panos enrolados na cabeça...Casinhas beiravam novamente nosso caminho, as vezes soltas e espalhadas, as vezes reunidas em pequenas vilas, como a de São Domingos que se aproximava. Interessante como muitas delas eram feitas de palha, não só na cobertura, mas também nas paredes e nas divisórias internas. A palha é de uma palmeira de folhas largas e bem compridas, onde as folhas são sobrepostas e entrelaçadas, da nervura central até as pontas. Apagado o último raio de sol e estavam acesas as estrelas de uma noite sem lua, a mais bela até então. Faltava céu para comportar tantos pontinhos luminosos, tanto brilho. Mas faltava também um pouco mais de luz para guiar as nossas bicicletas, que já há muito era o que nos guiava. Lógico que o nosso guia não havia pensado nas lanternas. Entramos na Flona dos Tapajós no escuro, tateando o caminho com os pneus e os pés, exaustas, e deixando uma taxa de R$3,00 para o IBAMA. Foram mais 30 minutos para que chegássemos finalmente, e enfim, a Maguarí! No meio do breu adentrávamos na vila que aos poucos se preparava para o toque de recolher. A maioria dos habitantes estava reunida em uma palhoça jogando bingo à luz de velas. Fomos socorridos pelo “presidente” da comunidade, o Sr. Raimundo, que àquelas horas se entregava ao sono a ao cansaço, mas não demorou para nos providenciar um lugar de encosto e ainda contamos com a caridade de sua esposa a nos preparar um delicioso macarrão com molho de atum e farofa. Quem mais abriria as portas de casa para quatro desconhecidos esfomeados, àquelas horas da noite, e ainda mobilizaria tantos esforços para os acolher? Quando percebemos estávamos na melhor casa da vila, embora a idéia de não mais dormir ao relento era um tanto triste...o cintilante céu ficou apagado pelas telhas. O banho noturno no Tapajós também foi descartado em função da ameaça das arraias e trocado por um banho de igarapé muito raso e gelado. Já o corpo não reclamou de nada disso, tão acabado só pensava em despencar em qualquer pedaço plano de chão que estivesse livre. Acordei com um barulho que eu não sabia se era de tiro. Mas para caçar não se deve atirar tanto...Talvez fosse alguém derrubando uma árvore a inúmeros golpes de machadada. Levantei e saí ver a chuva que caía em forma de garoa, o tempo havia mudado radicalmente. E os tiros, ou machadadas, nada mais eram do que três mulheres lavando roupa no igarapé...As mesas que na noite anterior visualizei cheia de petiscos e cervejas, eram na verdade estruturas para serem surradas por redes, tecidos, roupas, ... todos cheios de sabão. E de muita força também. De resto crianças curiosas e galinhas protetoras, patinhas passeando e alimentando as suas crias. Posso dizer que isto foi tudo que conheci de Maguarí. Após uma bela e merecida discussão entre a Gabriela e o Jorge Luis, que dispensa comentários, resolvemos partir logo cedo. Frustrada e chateada com o pouco tempo na comunidade, ainda vou voltar para este lugar. Volto, mas será a pé! Da pedalada igualmente sofrida de volta para Belterra me lembro da chuva maravilhosa que caiu e lavou a alma, a agua entrou pelos poros, além de encharcar os campos de arroz, e levantar o cheiro de terra molhada. Em seguida, o peso da bicicleta, a roupa ensopada, os pés carregados de lama... A trilha foi longa, mas desta vez resolvi respeitar os limites do cansaço e da dor. E foi o que eu fiz.Quase chegando a Belterra, já no entrecruzar de ruas e ruelas, encontrei um tal Sr. Zacarias indo para a roça de arroz, conheci a Dona Regina fazendo a casa de farinha funcionar, cruzei com alguns moradores carregando sacos de paes, outros conduzindo os produtos do roçado, e acabamos indo localizar o nosso ilustríssimo guia instalado e dormindo em uma simpática pousada! Absolutamente inacreditável. Alegou mau jeito na coluna...quisera eu dar um mal jeito nele! Largamos as bicicletas lá e caminhando respirei fundo, senti o cheiro úmido do lugar, nos dirigimos ao modesto terminal quase na curva da rua e subimos no ônibus que partia para Santarém. Não hesitei, olhei pra trás, registrando na memória essa maravilhosa essência que ficou do povo ribeirinho e das margens imagens do rio Tapajós, do verde mangueira e deste sombreado litorâneo estado. Tranqüilo e pacifico. Muito acolhedor!




quarta-feira, 12 de março de 2008

Briga de machocho

Minha nossa senhora, compra logo o carangueijo do rapaz!!!

Ver o Peso, Belém - março de 2006

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

ilhas que eu desconhecia, em todos os sentidos

E por falar em ilhas desconhecidas...foram muitas as que encontrei ao longo da viagem. Eu começaria citando Alcântara se Alcântara fosse uma ilha...mas é o contrário e apesar de todos os pesares ainda não me convenci disso! Já os cayos venezuelanos de Tchitchirivche seriam a representação do paraíso na terra, não fosse o feriado da páscoa e não fossem os venezuelanos tão descuidados com o seu patrimônio ambiental (exceção feita é claro para a cobiçada água negra que os venezuelanso têm de sobra). O caminho navegado de Cartagena rumo à América Central me presenteou, eu, humilde mortal, com suas cristalinas águas caribenhas e mais de 3 centenas de ilhas paradisíacas espalhadas ao longo do litoral sul ocidental do Panamá: San Blás! Anotem este nome e nunca, mas nunca mais esqueçam dele! O mergulho mais belo aconteceu justamente em uma ilha (!) em Honduras, de nome Utila, e eu descobri que o azul profundo e cristalino do Caribe contrastante com o colorido de gorgônias, esponjas, corais e infinitos peixes é de verdade, existe! E é sempre muito mais bonito do que nunca se imaginava tanto...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

para seguir em frente...uma ilha desconhecida!

" E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida não passa duma idéia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo..."
e
"Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas , aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra que sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas,..."

"Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como oderia falar-lhes duma ilha desconhecida, se não a conheço..."

"tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és...Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós..."

O conto da ilha desconhecida - José Saramago

Mera coincidência?

Lendo dois livros e nos dois encontro:

Livro 1:

"-Fazer amor, sim e sempre. Dormir com mulher, isso é que nunca. E explicava: dormir com alguém é intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, issó é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de uma mulher e a sua alma se transfere de vez."

Livro 2:

" Tomas pensava: deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher). "

* livro 1: Dito Mariano em "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" - Mia COUTO
* livro 2: Tomas em "A Insustentável leveza do ser" - Milan KUNDERA

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Começando um novo livro no meio de uma decisão que pode ser um fim para um novo começo...

"...torturava-se com recriminações, mas terminou por se convencer de que era no fundo normal que não soubesse o que queria: nunca se pode saber aquilo que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.
Seria melhor ficar com Tereza ou continuar sozinho?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro."
A insustentável leveza do ser - Milan Kundera

domingo, 13 de janeiro de 2008

Informações úteis para atravessar a américa latina...

Caso queiram enviar e-mails!

Um cyber em alguma pequena vila de algum lugar - 2006

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Ainda não é tarde para postar...


"Já clareou, Fabi, já clareou" - Texto de Nei Lopes

Em um texto recém publicado em livro (O racismo explicado aos meus filhos. Rio, Agir, 2007), escrevemos a certa altura sobre a “opção étnica” por pessoas de ascendência biológica e cultural mista. Acentuamos neste texto que, por exemplo, quando uma pessoa filha de um negro com uma descendentes de europeus ou vice-versa se reivindica como afro-descendente, o que ela está ressaltando ou querendo evidenciar é a parte de sua herança etnocultural que a faz ser uma discriminada em potencial e que, por isso ela assume em sua postura contra a discriminação e o racismo.Escrita alguns meses antes de ouvirmos o CD Quando o céu clarear de nossa querida e talentosa amiga Fabiana Cozza, essa maravilhosa afro-italiana que o intenso movimento musical de Sampa colocou em nosso caminho, essa afirmação cai como uma luva não só no conceito do disco quanto na postura de Fabiana diante da vida.Filha de negro sambista ‘gogó de ouro’ da Barra Funda, mas carregando um sobrenome com dois ‘zz’ que não deixa a menor dúvida, Fabi é isso. E, por isso, abre seu disco pedindo licença para incensar nossos ouvidos, nossa sensibilidade e nossa mente com um oloroso samba-de-roda de um dos mestres da recriação dos eternos temas do samba-de-roda baiano, Roque Ferreira. E feita essa aromática abertura, diz claramente a que veio.Fabiana diz – e como diz! – na envolvente doçura dos já imortais Dona Ivone Lara-Délcio Carvalho, representantes da mais pura tradição lírico melódico dos terreiros do samba carioca. Depois, literalmente “arrebenta” num samba de meu ‘cumpádi’ Paulinho Pinheiro com Rubens Nogueira, que me remete ao mais vibrantemente negro das interpretações sambísticas da saudosa Elis Regina, dos tempos do Vou deitar e rolar e da Lapinha. Para, mais lá pra frente, fazer o mesmo, em Nação, me levando até à divina mulatice de Clara Nunes, numa recriação personalíssima do clássico boscoblanqueano. Aí, traz a jovem fidalguia do canto afro-mestiço de meus parceiro do Quinteto BP, uma das melhores coisas que São Paulo, em termos de arte não colonizada, produziu nos últimos tempos. E, então, depois de passar por outros sambas também da melhor qualidade, cai dentro, literalmente com força e coragem, de algo do qual há muito tempo eu desejava falar, que é a presença da tradição dos orixás na música popular.Fissurado que sou na música tradicional afro-cubana, observo que em cada 14 faixas de cada CD que chegam lá da Ilha, direto ou por outras vias, é raríssimo que uma ou mais não sejam dedicadas às divindades africanas que vieram com nossos ancestrais escravizados, ajudando-os a resistir ao martírio e a construir as duas melhores tradições musicais do Planeta. Só que Cuba, por razões políticas e até econômicas é hoje a Meca das religiões de matriz africana, enquanto que o Brasil é esse vasto mercado neo-pop-pentecostal que nos polui olhos e ouvidos a cada girada do botão ou do controle-remoto e a cada esquina. Então, não é que Fabi teve a fé e a ousadia de fazer um disco em que quase metade das canções menciona orixás? E até chamou músicos cubanos para participar!?Só essa coerência para mim valeria a obra e a produção. Mas por trás disso tem muito mais. Tem a força de uma cantora total e comprometida. Que duvido que daqui a pouco seja capaz de ‘dar um pulinho noutra praia’, só ‘de brincadeirinha’. Ou, cá entre nós, pra faturar uns trocados. Duvid-o-dó. Do borogodó. Porque Fabi, como artista e pessoa, é uma das criaturas mais íntegras que já conheci. E o céu para ela, com esse belíssimo disco (que muito mais que afro ou italiano é brasileiro, da silva), é claro que já clareou.

Nei Lopes Seropédica, RJ, jul.2007.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ela quer

Ela quer

entremear as raízes
terra
elevar as folhas
ar
quando ao sol
violeta
à sombra
verde-leve
o que não se prevê
é o lugar dela
em sua vida

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

De repente termino este livro e penso nas relações

Do dia a dia

Concordo com a experiência própria de quem tem um fio extremamente sensível à mão, de quem pisa sobre ovos, de quem caminha no meio fio. Uma palavra, um gesto, um olhar, uma brincadeira...em geral uma mudança de atitude pode pôr o improvável no lugar da certeza e esta ilusória condição que a custo perseguimos se transforma em um delicado resquício do passado. O que faz com que as coisas sejam tão vulneráveis, ou será ainda que esta metamorfose da realidade não passa de um grande engano, e nós que nos armamos com tanta cautela, acabamos por se tornar suas principais vítimas. Será o inseguro mundo da existência a nos conduzir a este instável mundo das relações humanas? De relações humanas...
Da travessia
As relações efêmeras em uma viagem adquirem um status de estabilidade e congelam imagens que ficam como estátuas na memória. No fundo sabemos que não seriam perfeitas também, mas elas prosseguem na imaginação a partir do ponto em que cairiam no esquecimento, e seguem no paralelo mundo do "se encantado". No paralelo mundo platônico.
De viagens
Delicadas mesmo são as relações entre companheiros de viagem. Aí tudo se encontra e se confunde: o "se encantado' do que foi ficando para trás, a sedução do novo que está sempre por vir, as aguras da convivência diária, inseguranças junto com perspectivas, medos com audácias, esquecimentos e descobertas, e aquela explosão abafada da pólvora que dia a dia se acumula, mas que não pode ser plena...senão detona, destrói!
De longe...
Nunca o que está longe é tão idealizado quanto aquilo que está perto. Sentimos que perdemos com a distância, quando na verdade ganhamos muito. Longe, fora, no caminho, não temos o sobrepeso da rotina, o cansaço dos dias corridos, a cumplicidade da velocidade das horas, a armadilha que é a falta de percepção do tempo. O tempo. É outra a noção que construímos dele, um tempo que significa distância física, e esta, que nos traz uma sensação de impotência e saudade. A compensação nos faz pensar, refletir, procurar, comunicar e assim, nos aproximar, conhecer! Compreender o que diariamente passeia invisível no meio das horas.
meu, a partir de Amores Risíveis
Milan Kundera