Do dia a dia
Concordo com a experiência própria de quem tem um fio extremamente sensível à mão, de quem pisa sobre ovos, de quem caminha no meio fio. Uma palavra, um gesto, um olhar, uma brincadeira...em geral uma mudança de atitude pode pôr o improvável no lugar da certeza e esta ilusória condição que a custo perseguimos se transforma em um delicado resquício do passado. O que faz com que as coisas sejam tão vulneráveis, ou será ainda que esta metamorfose da realidade não passa de um grande engano, e nós que nos armamos com tanta cautela, acabamos por se tornar suas principais vítimas. Será o inseguro mundo da existência a nos conduzir a este instável mundo das relações humanas? De relações humanas...
Da travessia
As relações efêmeras em uma viagem adquirem um status de estabilidade e congelam imagens que ficam como estátuas na memória. No fundo sabemos que não seriam perfeitas também, mas elas prosseguem na imaginação a partir do ponto em que cairiam no esquecimento, e seguem no paralelo mundo do "se encantado". No paralelo mundo platônico.
De viagens
Delicadas mesmo são as relações entre companheiros de viagem. Aí tudo se encontra e se confunde: o "se encantado' do que foi ficando para trás, a sedução do novo que está sempre por vir, as aguras da convivência diária, inseguranças junto com perspectivas, medos com audácias, esquecimentos e descobertas, e aquela explosão abafada da pólvora que dia a dia se acumula, mas que não pode ser plena...senão detona, destrói!
De longe...
Nunca o que está longe é tão idealizado quanto aquilo que está perto. Sentimos que perdemos com a distância, quando na verdade ganhamos muito. Longe, fora, no caminho, não temos o sobrepeso da rotina, o cansaço dos dias corridos, a cumplicidade da velocidade das horas, a armadilha que é a falta de percepção do tempo. O tempo. É outra a noção que construímos dele, um tempo que significa distância física, e esta, que nos traz uma sensação de impotência e saudade. A compensação nos faz pensar, refletir, procurar, comunicar e assim, nos aproximar, conhecer! Compreender o que diariamente passeia invisível no meio das horas.
meu, a partir de Amores Risíveis
Milan Kundera
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