...eu
caçadora de mim!
Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim
quinta-feira, 31 de julho de 2008
terça-feira, 29 de julho de 2008
"Esperar é reconhecer-se incompleto"
Perguntou-me por que lhe presenteava tal texto. Que intenção haveria nesta escrita. Qual mensagem se esconderia na sugestão da leitura de tais palavras.
Nenhuma oras. é o conto que eu mais gosto. Queria simplesmente compartilhar. Que se deliciasse também, mais e mais a cada expressão, a cada leitura...
Leu. Ainda desconfiado. Nada comentou. Guardou-o em seguida.
O tempo passou...
Hoje, comprimida no enorme espaço que me cerca, em um vazio repleto de esperas, lembro e reparo que tudo estava ali naquele texto. Nao queria eu comparar-me a uma Livíria, Rivília ou Irlívia, nada contra a personagem. Mas o que dizer do amor, da coragem e da iniciativa de Jo Joaquim? Ah sim, esse sim eu queria para mim!
Desenredo
João Guimarães Rosa
Do narrador seus ouvintes:– Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. Como elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu. Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.Até que -deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que a ferira, leviano modo.Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudo personagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.Ela -longe- sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou -ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.Mas.Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou a mulher, a desconhecido destino.Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.Mais.No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade -idéia inata. Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conte inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar ou, a gente não se desafaz. Ele queria os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como fritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado -plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar -e qualquer causa se irrefuta.Pois produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos. Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.E pôs-se a fábula em ata.
Nenhuma oras. é o conto que eu mais gosto. Queria simplesmente compartilhar. Que se deliciasse também, mais e mais a cada expressão, a cada leitura...
Leu. Ainda desconfiado. Nada comentou. Guardou-o em seguida.
O tempo passou...
Hoje, comprimida no enorme espaço que me cerca, em um vazio repleto de esperas, lembro e reparo que tudo estava ali naquele texto. Nao queria eu comparar-me a uma Livíria, Rivília ou Irlívia, nada contra a personagem. Mas o que dizer do amor, da coragem e da iniciativa de Jo Joaquim? Ah sim, esse sim eu queria para mim!
Desenredo
João Guimarães Rosa
Do narrador seus ouvintes:– Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. Como elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu. Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.Até que -deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que a ferira, leviano modo.Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudo personagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.Ela -longe- sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou -ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.Mas.Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou a mulher, a desconhecido destino.Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.Mais.No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade -idéia inata. Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conte inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar ou, a gente não se desafaz. Ele queria os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como fritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado -plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar -e qualquer causa se irrefuta.Pois produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos. Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.E pôs-se a fábula em ata.
A vã pergunta
Esta jovem pensativa, de olhos cor de mel e de longas pestanas penumbrosas
Que está sentada junto àquele jovem triste de largos ombros e rosto magro
É ela a amada dele e é ele o amado dela e é a vida a sombra trágica dos seus gestos?
Este trem veloz cheio de homens indiferentes e mulheres cansadas e crianças dormindo
Que atravessa esta paisagem desolada de árvores esparsas em montes descarnados
É ele o movimento e é ela a fuga e são eles o destino fugitivo das coisas?
Que dizem os lábios murmurantes dele aos olhos desesperados dela?
Que pronunciam os lábios desesperados dela aos olhos lacrimejantes dele?
Que pedem os olhos lacrimejantes dele à paisagem fugindo?
Não são eles apenas uma só mocidade para o tempo e um só tempo para a eternidade?
Não são seus sonhos um só impulso para o amor e os seus suspiros um só anseio para a pureza?
Por que este transtorno de faces e esta consumição de olhares como para nunca mais?
Não é um casto beijo isso que bóia aos lábios dele como um excedimento da sua alma?
Não é uma carícia isso que freme nas mãos dela como um arroubo da sua inocência ?
Por que os sinos plangendo do fundo das consolações como as vozes de aviso dos faróis perdidos?
É bem o amor essa insatisfação das esperanças?
Que está sentada junto àquele jovem triste de largos ombros e rosto magro
É ela a amada dele e é ele o amado dela e é a vida a sombra trágica dos seus gestos?
Este trem veloz cheio de homens indiferentes e mulheres cansadas e crianças dormindo
Que atravessa esta paisagem desolada de árvores esparsas em montes descarnados
É ele o movimento e é ela a fuga e são eles o destino fugitivo das coisas?
Que dizem os lábios murmurantes dele aos olhos desesperados dela?
Que pronunciam os lábios desesperados dela aos olhos lacrimejantes dele?
Que pedem os olhos lacrimejantes dele à paisagem fugindo?
Não são eles apenas uma só mocidade para o tempo e um só tempo para a eternidade?
Não são seus sonhos um só impulso para o amor e os seus suspiros um só anseio para a pureza?
Por que este transtorno de faces e esta consumição de olhares como para nunca mais?
Não é um casto beijo isso que bóia aos lábios dele como um excedimento da sua alma?
Não é uma carícia isso que freme nas mãos dela como um arroubo da sua inocência ?
Por que os sinos plangendo do fundo das consolações como as vozes de aviso dos faróis perdidos?
É bem o amor essa insatisfação das esperanças?
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Farewell
Claro que o corpo não é feito pra sofrer,
mas para sofrer e gozar.
Na inocência do sofrimento
como na inocência do gozo,
o corpo se realiza, vulnerável
e solene.
Salve, meu corpo, minha estrutura de viver
e de cumprir os ritos de existir!
Amo tuas imperfeições e maravilhas,
amo-as com gratidão, pena e raivas intercadentes.
Em ti me sinto dividido, campo de batalha
sem vitória pra nenhum lado
e sofro e sou feliz
na medida do que acaso me ofereças.
Será mesmo acaso,
será lei divina ou dragonária
que me parte e me reparte em pedacinhos?
Meu corpo, minha dor,
meu prazer e transcendência,
és afinal meu ser inteiro e único.
Carlos Drummond de Andrade
E concordando com ele, ou vice versa...
Fernado Pessoa
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento …
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva …
que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja …
mas para sofrer e gozar.
Na inocência do sofrimento
como na inocência do gozo,
o corpo se realiza, vulnerável
e solene.
Salve, meu corpo, minha estrutura de viver
e de cumprir os ritos de existir!
Amo tuas imperfeições e maravilhas,
amo-as com gratidão, pena e raivas intercadentes.
Em ti me sinto dividido, campo de batalha
sem vitória pra nenhum lado
e sofro e sou feliz
na medida do que acaso me ofereças.
Será mesmo acaso,
será lei divina ou dragonária
que me parte e me reparte em pedacinhos?
Meu corpo, minha dor,
meu prazer e transcendência,
és afinal meu ser inteiro e único.
Carlos Drummond de Andrade
E concordando com ele, ou vice versa...
Fernado Pessoa
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento …
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva …
que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja …
Lua cheia
E o melhor remédio pra curar gripes, resfriados, clima seco, stress de trabalho, coriza, olhos ardentes, dor de garganta, cabeça, nauseas e afins, use:
Mas atençao: contra indicado em sintomas de dor de amor, cotovelo, palpitaçoes noturnas e saudades profunda!
Mas atençao: contra indicado em sintomas de dor de amor, cotovelo, palpitaçoes noturnas e saudades profunda!
Por que fugir pra uma casa na praia?
È por causa da mariposa
O fato é que havia um bicho muito próximo, muito mesmo. Mas era invisível: bastava que eu acendesse a luz e ele desaparecia. Quando apagava nao demorava para ele se debater. Acendia, e o bicho calava. Apagava e ele caminhava. Acendia, e cadê de o danado se mexer? Apagava... e ele me intrigava! Acendia...apagava...acendia... e,... e,... e acabei arrebatada pelo sono profundo... Profundo.
Bom, eu teria transformado o bicho em um personagem dos meus sonhos, fantasiando grandes proporções e aventuras com um ser mutante e inexistente! Sonharia e voaria muito mais não fosse o bichano voltar a se mexer logo de manhazinha. Sono leve, coração apertado, despertei. E o misterioso ser alado agora me desafiava se debatendo fortemente, mais próximo do que nunca. Mas que coisa, o que seria isso enfim? Encolhida debaixo do lençol- já que os cobertores às primeiras horas da manha estavam todos arremessados ao chão- e, protegendo o rosto do temido ataque do ser invisível, (mais a mais lutando contra a preguiça ou ainda querendo evitar o desagradável encontro), percorria as menores distâncias com os olhos varrendo os arredores da cama. E o bicho....tá tá tá tá tá.
Estaria ele dentro do meu ouvido?
Nada, era bicho de asa grande, não era zumbido de mosquitinho pentelho. E assim como o previsível e inevitável susto, subitamente o bicho surgiu esvoaçando na minha frente, quase na minha cara, partindo bem de baixo da minha cama, pelo centro do colchão. Um tanto incompreensível, a princípio... Mas em seguida, explica-se: a cama, de concreto, fixada no canto da parede, possuía um extrato para uma cavidade interna que não se comunicava com o meio externo, sendo assim, usada também como depósito para pequenos pertences...o colchão, sem que eu percebesse, preenchia a cama, porém, não toda ela, ficando assim um singelo canto no encontro das paredes a expor uma pequena abertura entre o vão, o extrado e colchão...
E foi exatamente aí que o mistério e o enlace se sucedeu: pela pequena fresta saiu a enorme mariposa a bater e debater-se freneticamente pelo quarto. Ah, coração descompassado, buscou o ritmo e abriu os olhos espremidos e tremulos, afastou as maos do rosto e em poucos segundos a graça e o medo que disparavam pelas veias estavam liquidados! Mas ainda não o incômodo barulho que fazia a enlouquecida mariposa dar rasantes pelo quarto e a se pôr na tela que revestia a unica janela. Em intervalos calculados, com intensidades escalares, ela batia as suas asas contra a tela e pouco a pouco estimulava os meus nervos ainda dormentes.
Mas por que eu não levantava logo e acabava com aquilo de vez?
Mistério esse ainda não revelado, tudo tem seu tempo, e tal qual o tempo da mariposa que pouco a pouco me despertava, incansável de seu objetivo, eu aguardava o meu, plena de cansaço misturado com mau humor e os sonidos de bandos de passarinhos logo ali do lado de fora. Como poderiam também estar tão vibrantes estes alados penados bichinhos àquelas horas da manhã!?
Ah, desavisados passarinhos...
Derrotada e enfim acordada levantei, joguei o lençol junto dos cobertores, caminhei rumo à janela e girei a maçaneta pra direita, (mas era para a esquerda), puxei as telas pra dentro e as empurrei as venezianas para fora, com força e ... salve à primeira mariposa matutina que eu nunca vi em algum lugar: conduziu-me a um nascer do sol único (alias, como são todos os sois que nascem) que, sem me dar conta, havia meses eu não presenciava. Como uma coisa tão singela pode tocar tão fundo a alma das pessoas? Subi para a varanda da casa e não cansava de olhar as tonalidades e brilhos que iam se sucedendo naquela explosão de vida matutina. Queria sair, fazer coisas, respirar fundo, estar em todos os lugares daquele lugar, correr, vibrar... mas, impossibilitada de agir, simplesmente estatuada pelas imagens e pelas sensações do poderoso astro, permanecia ali, imóvel, estática, plena, enfim....
fim.
O fato é que havia um bicho muito próximo, muito mesmo. Mas era invisível: bastava que eu acendesse a luz e ele desaparecia. Quando apagava nao demorava para ele se debater. Acendia, e o bicho calava. Apagava e ele caminhava. Acendia, e cadê de o danado se mexer? Apagava... e ele me intrigava! Acendia...apagava...acendia... e,... e,... e acabei arrebatada pelo sono profundo... Profundo.
Bom, eu teria transformado o bicho em um personagem dos meus sonhos, fantasiando grandes proporções e aventuras com um ser mutante e inexistente! Sonharia e voaria muito mais não fosse o bichano voltar a se mexer logo de manhazinha. Sono leve, coração apertado, despertei. E o misterioso ser alado agora me desafiava se debatendo fortemente, mais próximo do que nunca. Mas que coisa, o que seria isso enfim? Encolhida debaixo do lençol- já que os cobertores às primeiras horas da manha estavam todos arremessados ao chão- e, protegendo o rosto do temido ataque do ser invisível, (mais a mais lutando contra a preguiça ou ainda querendo evitar o desagradável encontro), percorria as menores distâncias com os olhos varrendo os arredores da cama. E o bicho....tá tá tá tá tá.
Estaria ele dentro do meu ouvido?
Nada, era bicho de asa grande, não era zumbido de mosquitinho pentelho. E assim como o previsível e inevitável susto, subitamente o bicho surgiu esvoaçando na minha frente, quase na minha cara, partindo bem de baixo da minha cama, pelo centro do colchão. Um tanto incompreensível, a princípio... Mas em seguida, explica-se: a cama, de concreto, fixada no canto da parede, possuía um extrato para uma cavidade interna que não se comunicava com o meio externo, sendo assim, usada também como depósito para pequenos pertences...o colchão, sem que eu percebesse, preenchia a cama, porém, não toda ela, ficando assim um singelo canto no encontro das paredes a expor uma pequena abertura entre o vão, o extrado e colchão...
E foi exatamente aí que o mistério e o enlace se sucedeu: pela pequena fresta saiu a enorme mariposa a bater e debater-se freneticamente pelo quarto. Ah, coração descompassado, buscou o ritmo e abriu os olhos espremidos e tremulos, afastou as maos do rosto e em poucos segundos a graça e o medo que disparavam pelas veias estavam liquidados! Mas ainda não o incômodo barulho que fazia a enlouquecida mariposa dar rasantes pelo quarto e a se pôr na tela que revestia a unica janela. Em intervalos calculados, com intensidades escalares, ela batia as suas asas contra a tela e pouco a pouco estimulava os meus nervos ainda dormentes.
Mas por que eu não levantava logo e acabava com aquilo de vez?
Mistério esse ainda não revelado, tudo tem seu tempo, e tal qual o tempo da mariposa que pouco a pouco me despertava, incansável de seu objetivo, eu aguardava o meu, plena de cansaço misturado com mau humor e os sonidos de bandos de passarinhos logo ali do lado de fora. Como poderiam também estar tão vibrantes estes alados penados bichinhos àquelas horas da manhã!?
Ah, desavisados passarinhos...
Derrotada e enfim acordada levantei, joguei o lençol junto dos cobertores, caminhei rumo à janela e girei a maçaneta pra direita, (mas era para a esquerda), puxei as telas pra dentro e as empurrei as venezianas para fora, com força e ... salve à primeira mariposa matutina que eu nunca vi em algum lugar: conduziu-me a um nascer do sol único (alias, como são todos os sois que nascem) que, sem me dar conta, havia meses eu não presenciava. Como uma coisa tão singela pode tocar tão fundo a alma das pessoas? Subi para a varanda da casa e não cansava de olhar as tonalidades e brilhos que iam se sucedendo naquela explosão de vida matutina. Queria sair, fazer coisas, respirar fundo, estar em todos os lugares daquele lugar, correr, vibrar... mas, impossibilitada de agir, simplesmente estatuada pelas imagens e pelas sensações do poderoso astro, permanecia ali, imóvel, estática, plena, enfim....
fim.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Zipolite na lembrança
“Aí estava o mar, a mais inteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais inteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara o mais inteligível dos seres onde circulava sangue. Ele e o mar.”
Clarice Lispector
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