terça-feira, 18 de setembro de 2012

‎"O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais." Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

bactéria num meio é cultura

Cultura é identidade. Mais que isso, é tudo o que o homem imaginou para moldar o mundo, para se acomodar nele e torná-lo digno de si próprio. É isso a cultura: tudo o que o homem inventou para tornar a vida vivível e a morte afrontável. Sobre o(a) autor(a): Aimé Césaire nasceu na Martinica, ilha no Mar das Antilhas, América Central, em 1913. Em 1934 fundou a revista "O Estudante Negro", com Senghor e outros militantes do movimento. Em 1936 começou a escrever e três anos mais tarde retornou à Martinica.

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mexico por uma mexicana

''O México, como sempre, está desorganizado e confuso. A única coisa que lhe resta é a grande beleza da terra e dos índios. Todos os dias, a parte feia dos Estados Unidos rouba um pedaço; é uma lástima, mas as pessoas têm que comer e é inevitável que os peixes grandes devorem os pequenos.'' ''Querem que eu retrate cinco mulheres mexicanas importantes em nossa história; faço pesquisas para saber que tipo de baratas foram essas heroínas, que tipo de psicologia era o seu fardo, a fim de, ao pintá-las, as pessoas possam diferenciá-las das mulheres comuns e vulgares do México, as quais, para mim, são mais interessantes e poderosas do que as damas mencionadas.'' FRIDA KAHLO

diário de Frida

''Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria."

domingo, 16 de setembro de 2012

fomos juntos pra Berlim, ele ficou por lá...

Em um amor a maioria procura eterno lar. Outros, muito poucos, porém, o eterno viajar. Esses últimos são melancólicos, que têm a temer o contato coma terra mãe. Quem mantiver longe deles a melancolia do lar é quem eles procuram. A este mantêm fidelidade. Os livros medievais de complexões sabem da aspiração dessa espécie de homens por longas viagens. Walter Benjamin - filósofo alemão - companheiro de viagem

sábado, 15 de setembro de 2012

atmosfera

O mais difícil dos lugares estranhos é compreender a atmosfera.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Acho que a Clarice encarnou em mim...

"Pernambuco marca tanto a gente que basta dizer que nada, mas nada mesmo nas viagens que fiz por este mundo contribuiu para o que eu escrevo. Mas Recife continua firme." "e acho que viver no Nordeste ou Norte do Brasil é viver mais intensamente e de perto a verdadeira vida brasileira...minhas crendices foram aprendidas em Pernambuco, e as comidas que mais gosto são pernambucanas."

SAUDADE DE SI

EU PRETENDIA CHORAR NA VIAGEM, PORQUE FICO SEMPRE COM SAUDADE DE MIM... C.L.

terça-feira, 24 de julho de 2012

F A L A R

‎"Ou estarei apenas adiando o começar a falar? por que não digo nada e apenas ganho tempo? Por medo. É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do que sinto. É como se eu tivesse uma moeda e não soubesse em que país ela vale. Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? E porque não tenho uma palavra a dizer." Clarice Lispector

segunda-feira, 4 de junho de 2012

As molas de San Blas

As índias cunas fazem molas, nas ilhas de San Blas, no Panamá, para exibi-las pregadas nas costas ou no peito. Com fio e agulha, talento e paciência, vão combinando retalhos de panos. Coloridos em desenhos que jamais se repetem. às vezes imitam a realidade; às vezes a inventam. E às vezes acontece que elas, querendo copiar, só copiar, algum pássaro que viram, se põem a recortar e costurar, ponto após ponto, e terminam descobrindo algo mais colorido e cantor e voadeiro que qualquer um dos pássaros do céu. Eduardo Galeano, em "Mulheres"

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Eu e o Ubaldo pelas ruas de Berlin

Bom é o que é, simplesmente, diferente. . E como não estamos sós no mundo, divertido também. Compartilhar impressões, angústias, estresses, prazeres e vivências em ambientes hostis à normalidade pode fazer descobrir que elas podem ser também experiências semelhantes!! Compartilho dois meses de perambulações pela capital alemã com pitadas de 15 meses vivenciados por João Ubaldo Ribeiro, que escreveu o delicioso “ Um Brasileiro em Berlim”. . . Estive dois meses em Berlin. Por sessenta dias circulei por dezenas de ruas, ruelas, praças, pontes, trilhas e ...ciclovias. Utilizei o pé - principal meio de locomoção, a bicicleta - o mais prazeroso, e o transporte público - o mais eficiente. Constatei ruas largas, as calçadas mais largas ainda. Prédios baixos significam mais céu na paisagem, alargamento dos horizontes. Sem muitos andares sobrepostos, o fluxo de carros e pessoas fica mensurável, além de extremamente organizado. Todo e qualquer trajeto é seguro, mesmo porque a sensação de uma câmera onipresente é constante. Não me esqueço da sensação criminosa que experimentei ao tentar remover uma lasca do antigo muro, um fragmento mantido em uma região isolada da cidade: nem que eu tivesse planejando um assalto a algum caixa eletrônico em São Paulo teria experimentado tamanha adrenalina. Mas por que então não é tão relaxante caminhar e desfrutar do conforto e da praticidade das charmosas ruas berlinenses? . O Ubaldo começa com a seguinte constatação: “ Para brasileiros, uma das atrações turísticas de Berlim, é assistir às pessoas esperando disciplinadamente que o sinal abra, para que elas atravessem a rua. Isto é considerado uma absoluta e inédita maravilha, merecedora de contemplação, comentários abismados e cartas estarrecidas para os amigos. Quanto ao tráfego a admiração é ainda maior e , quando um berlinense se queixa do trânsito, os brasileiros pensam que ele está brincando...” . Mas é justamente aí que o confronto cultural se expressa. Essa aparente maravilha pode ser realmente uma maravilha na primeira semana. Quando passa dos dez dias e vira rotina é que as úlceras se manifestam. Olhar para um dos lados e não vislumbrar o menor sinal de um veículo, olhar para a contramão e verificar o mesmo vazio, checar a transversal e não ver um único carro, e, ainda assim, permanecer com o rosto virado para o chão aguardando que o semáforo de pedestres abra... faz qualquer estômago paulistano retorcer até ir parar na boca!! Importante frisar que é muito comum apresentar taquicardia. E em dias mais tepeemísticos o corpinho pode ousar suar frio. Mas para todos os sintomas há sempre uma terapia, claro. Seguindo a lógica do “há sempre algo que pode ser pior do que isso, sem ser isso, é ótimo para aliviar os sintomas”, passemos à segunda etapa de adaptação ao dia-a-dia alemão. Para explicar o que poderia ser tão tenso, uso de novo o Ubaldo, quando narra seu encontro com um...POLIZEI !!! . “...Só não morri por razões genéticas..., mas meu primeiro impulso foi correr à sacada, gritar “sou inocente”, “pular e procurar asilo na embaixada de Gabão...” “...Fiquei calmo e apenas pernas trêmulas e outros sinais discretos traíam a minha apreensão. Alguém havia me denunciado por jogar um cigarrinho na calçada? Teria cometido um crime ao olhar com excessivo vagar uma gordinha nua no Hallensee? Comer uma Bratwurst sem mostarda, como fiz outro dia, seria uma grave ofensa? Estaria sendo confundido com um terrorista?...” . Me lembro bem, foi na dobra da minha primeira esquina sobre duas rodas, enquanto eu ainda procurava qual seria a parte destinada à circulação de bicicletas. O dia estava claro, as pessoas caminhavam sistematicamente pela calçada e eu... estava fora da rota ciclística oficial (!!!) quando ouvi um estrondoso som gutural a tremer o chão e estremecer a alma de seres inocentes como eu. Acho que as rodas da bicicleta ficaram tão bambas quanto as minhas, e por pouco não me estatelei no chão. Ficar e permanecer em pé, de frente, para aquele alemão do pé de feijão, alto-gordo-e-loiro, foi o maior desafio que eu enfrentei durante a viagem. E pronunciar qualquer palavra em qualquer língua foi bem mais difícil do que para um recém-nascido. Isso explica a minha conduta nos dias subsequentes: passei a pensar no mínimo 10 vezes antes de REALIZAR qualquer contravenção, e rezar uns 10 pais nossos para não ESTAR realizando nenhuma delas. Também tomei o cuidado de não cogitar a menor possibilidade de contar com o jeitinho brasileiro ou de usar um xaveco furado pró-redenção. Mesmo as meninas mais descoladas, mais gostosas, mais simpáticas ou mais qualquer coisa, podem conferir que nesses casos não há “inho” que dê jeito, é MULTA pra todo lado, pra todo mundo! 40 euros sem dó nem piedade! . Mas os estresses das caminhadas não param por aí. Em Berlim há uma enorme diferença entre estar em uma bike e estar a pé! É uma diferença que confronta a sensação de liberdade e a sensação de stress puro. Fala Ubaldo, como é: “...Sim, porque não fui atropelado por carros, ônibus ou caminhões, mas pelo mais terrível, impiedoso e ameaçador veículo que circula pelas ruas de Berlin: a bicicleta. Desenvolvi tanto medo da bicicleta que, outro dia, ao vislumbrar a distância uma horda de bicicleteiros tornada ainda mais ensandecida porque o sol nessa hora fazia uma de suas cinco aparições anuais, não resisti e me abriguei atrás de uma árvore até eles passarem, numa velocidade que certamente lhes garantiria uma boa classificação no Tour de France. Se existe algo mais sagrado do que a bandejinha , é a pista das bicicletas. .. . Acho que nunca mais na vida vou poder encarar uma bicicleta sem estremecer, mas há sempre um aspecto positivo. Nesse caso, pelo menos a ciência fez algum progresso, pois creio que sou o primeiro caso documentado de uma doença que pode vir a tornar-se epidêmica e para a qual sugiro o nome de Bicyclophobia berlinensis. Ainda nãos e conhece a cura, mas andar em ruas arborizadas ajuda a minimizar os sintomas. E a prevenir atropelamentos, é claro.” Impressionante, bastava engatar qualquer assunto com a Helô e pronto: lá estava eu invadindo alguma ciclovia! Como são onipresentes! Em alguns momentos era a Helô que me puxava pelo braço, me repreendia e me realinhava na calçada; nos outros eram os próprios ciclistas que me assustavam para fora da pista com aquelas buzininhas repentinas, velozes e vorazes. Mas quero registrar o protesto de que muitas vezes não era eu que invadia o caminho delas, mas eram os traçados ciclísticos que se projetam para frente do meu! Impossível fugir, impossível relaxar, impossível simplesmente descer do ônibus ou sair do metrô tranquilamente... Definitivamente as bicicletas de Berlin são implacáveis!! Mas o saldo foi positivo: nada além de arranhões. . Mas nem com todos esses espasmos todos passamos percebidos pelos alemães, não é mesmo Ubaldo? . “ No Brasil, muitas vezes me queixo de que as pessoas falam alto demais, se olham, pegam esfregam, abraçam, e beijam demais. Já aqui, sinto uma espécie de privação sensorial. Penso em Montaigne, que, se não me engano, escreveu que o casamento é como uma gaiola: o passarinho que está dentro quer sair, o que está fora quer entrar. Acho que isso pode estender-se a tudo na vida, porque hoje, particularmente, eu gostaria de ter voltado para casa com a sensação de que alguém na rua me viu, e fiquei com saudades de casa. “ . Não ser notada na rua, a longo prazo, também deve causar úlceras. Mas não fiquei em Berlim para constatar isso. Preferi antes voltar à tranquilidade do trânsito paulistano e evitar males mais graves à saúde...

O Siqueiros também dança

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ítaca

Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.

Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
é bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
e que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.

DE PIAUÍ,KONSTANTINOS KAVÁFIS

sábado, 24 de março de 2012

Uma metáfora para a insônia...

eu surpreendia o sol, antes do sol raiar...

domingo, 11 de março de 2012

e a letra já tinha sido composta...

Saudade, torrente de paixão
Emoção diferente
Que aniquila a vida da gente
Uma dor que eu não sei de onde vem
Deixaste o meu coração vazio
Deixaste a saudade
Ao desprezares aquela amizade
Que nasceu ao chamar-te meu bem
Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de amor, saudade

Saudade

quinta-feira, 8 de março de 2012

só uma conversa?

De como nasciam ilusões e de como as destruía logo a seguir, só quero falar com ela, ao menos uma vez, é tudo, saber da folha, dos netos, fazer uma série de perguntas que só ela poderá responder , e contar certas tristezas e derrotas sofridas durante a vida sem ela. Não contava com mais nada, trinta e cinco anos depois de a perder. Não tinha o direito de esperar alguma coisa, ela refizera a sua vida e não poderia aniquilar, passado tanto tempo. Mas me concedam, ó deuses inexistentes e apesar disso cruéis, a consolação de falar uma com ela e de poder esperar contemplar aquele rosto redondo de Lua Cheia.

O planalto e a estepe
Pepetela

domingo, 4 de março de 2012

foi um tiro

Um dia um ladrão me surpreendeu com sua poderosa arma na minha desajeitada cabeça, e tomou conta dela. Ela, que andava visitando lugares do passado, descobrindo dores e amores, chorando e sorrindo, se perdendo entre as lembranças e os quereres... parou e tremeu, por longas horas. Ah, essa arma... ao invés de apagar todos os sentimentos de uma só vez, libertou um monte. Que quiseram sair correndo atrás dos seus donos. “Como formiguinhas brancas”.
Levantar de um banco e dar de cara com um possível e repentino fim é algo um tanto revolucionário. Desperta uma urgência repleta de objetividade. Eu descobri que tenho uma urgência de dizeres, dizeres para pessoas especiais. E é o que ando fazendo por hora.

quinta-feira, 1 de março de 2012

medo

As saudades não vencem o medo!

Pepetela

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

o vento viaja

A maior dor do vento é não ser colorido.
Mário Quintana

sábado, 21 de janeiro de 2012

CQD = conforme queríamos demonstrar

Em primeiro lugar, um agradecimento pela poetiza que me vem às mãos. Em segundo, por ela emprestar palavras e clareza às minhas sensações e impressões, após um longo-suave-ansioso-e-duro mês de janeiro...

AGRADECIMENTO

"Devo muito
aos que não amo.

O alívio de aceitar
que sejam mais próximos de outrem.

A alegria de não ser eu o
lobo de suas ovelhas.

A paz que tenho com eles
e a liberdade com eles,
isso o amor não pode dar
nem consegue tirar.

Não espero por eles
andando da janela à porta.
Paciente
quase como um relógio de sol,
entendo o que o amor não entende,
perdoo,
o que o amor nunca perdoaria.

Do encontro à carta
não se espera uma eternidade,
mas apenas alguns dias ou semanas.

As viagens com eles são sempre um sucesso,
os concertos assistidos,
as catedrais visitadas,
as paisagens claras.

E quando nos separam
sete colinas e rios
são colinas e rios
bem conhecidos dos mapas.

É mérito deles eu viver em três dimensões,
Num espaço sem lírica e sem retórica,
Com um horizonte real porque móvel.

Eles próprios não veem
quanto carregam nas mãos vazias.

“Não lhes devo nada”-
diria o amor
sobre essa questão aberta."


Wislawa Szymborska