De Santarém ficou uma paixão: o rio Tapajós. Verde, verde esmeralda, transparente, ou seja lá qual cor for, se é que é possível ter uma destas em se tratando de águas tão enfeitiçadoras. Águas que não se misturam às águas barrentas do rio Amazonas. Águas que refrescam só de olhar e matam a sede sem serem ingeridas. Que contrastam com a vegetação ao redor. Sustentam frutos e pessoas. Que tocam as margens de Santarém assim como tocam as partes do nosso corpo. Nunca tive uma sensação assim como esta, ao ver e sentir o rio Tapajós.
Ônibus de linha e cerca de uma hora depois, após muitas paradas no caminho, o destino seguinte. Apesar do cansaço e das muitas bagagens, foi fácil chegar à pousada da Tais, com o sugestivo nome de “Pôr do Sol”, quase na hora em que o astro planejava o seu majestoso repouso. Na medida! Bem simples, quarto pequeno, com ventilador, SEM TV, e uma mesinha de café da manhã no corredor da varanda, bem na frente da na nossa porta. Na varanda estavam também os ganchos para o nosso mais novo ítem imprescindível de viagem, a rede, e um estratégico varal, que já sugeria a presença de uma desejada lavanderia. No quintal um espaço coberto abrigava uma geladeira e a mesa de jantar, um fogão, e mais um pouquinho a frente, uma maloca para os adeptos da hospedagem econômica ou do aconchego a céu aberto. Não parei aí e dei mais uns passos adiante: Praia do Cajueiro! De frente para uma das mais famosas praias do Tapajós, a pousada margeia a praia de rio que pouco a pouco vai submergindo e desaparecendo aos pés dos turistas, literalmente encoberta pelas águas! A tarde estava linda e já ameaçava um belo pôr do sol. Antes do mergulho no entanto, uma conversa rápida com Jorge Luis já antecipou o que faríamos no dia seguinte.
Se é que é verdade que não existe paraíso perfeito, o que atrapalha neste é o medo das arraias. Elas ficam camufladas na areia (na verdade preferem os fundos mais lodosos, onde aproveitam para se alimentar) e preferem lugares mais calmos e o pior, à noite vêem mais próximo das margens. O grande problema é que se não as vemos e elas também não nos percebem, corremos o sério risco de pisar em um destes animaizinhos, levando a famosa “ferroada de arraia”. Quem já passou por esta experiência, realmente não recomenda. A dor é muita. Sem contar o veneno inoculado e a tal laminha cheia de bactérias que vêem junto para dentro da sua pele: se não limpar muito bem, infecção das boas! Isso já bastou para que nenhum mergulho, principalmente em águas mais escuras ou à noite, fosse assim tão relaxante e divino... Mas que ainda assim, era muito bom! ... Cinco da manhã acordamos para uma grande empreitada com o Jorge Luis e sua namorada: ir para Maguarí de bicicleta! O projeto efemeramente traçado naquela véspera de pôr do sol consistia em sair cedo e seguir pedalando a espreita do rio, parar nas pequeninas comunidades ribeirinhas onde poderíamos respirar e beber água, almoçar, tomar banho de rio, comer frutos do caminho, até encontrar uma maloca para pendurar as redes e capotar à proteção de um extenso teto estrelar. Isto deveria acontecer em Maguarí, uma comunidade que ficou famosa na região pela confecção artesanal de couro “ecológico”, uma mistura de fibras com o látex das seringueiras. A distância do percurso ninguém sabe dizer ao certo até hoje e deve estar em torno de 35 km (8km até Pindobal, cerca de 10 km até Belterra, e segundo o IBAMA mais uns 12 km de Belterra até a entrada da Flona de onde seguem-se mais 1,5 km até Maguarí). Há quem jure de pé junto que dá mais. Mais até Pindobal, mais até Belterra! Na prática, seja la quantos kilômetros, eu só tenho a dizer que é muito, mas muito mesmo, e que por vários momentos eu pensei em desistir e que não iria agüentar.
Bem, algumas coisas não aconteceram exatamente como o previsto (muitas outras sequer foram planejadas) e isto acarretou em conseqüências para a nossa, hummm, expedição. No início achei que o Jorge estava fazendo paradas demais. Logo após a partida paramos em um igarapé tomar água e banho (local onde a nossa única garrafa de água caiu e estourou). Em seguida paramos em Pindobal onde comemos murici do pé e tomamos guaraná. Um pouco mais adiante paramos em uma propriedade abandonada tomar banho “de Tapajós” e minutos mais pra frente paramos na “casa” de uma família próxima à outra comunidade, onde Jorge decidiu que iríamos almoçar. Eram quase 9:00 da manhã!
Se é que é verdade que não existe paraíso perfeito, o que atrapalha neste é o medo das arraias. Elas ficam camufladas na areia (na verdade preferem os fundos mais lodosos, onde aproveitam para se alimentar) e preferem lugares mais calmos e o pior, à noite vêem mais próximo das margens. O grande problema é que se não as vemos e elas também não nos percebem, corremos o sério risco de pisar em um destes animaizinhos, levando a famosa “ferroada de arraia”. Quem já passou por esta experiência, realmente não recomenda. A dor é muita. Sem contar o veneno inoculado e a tal laminha cheia de bactérias que vêem junto para dentro da sua pele: se não limpar muito bem, infecção das boas! Isso já bastou para que nenhum mergulho, principalmente em águas mais escuras ou à noite, fosse assim tão relaxante e divino... Mas que ainda assim, era muito bom! ... Cinco da manhã acordamos para uma grande empreitada com o Jorge Luis e sua namorada: ir para Maguarí de bicicleta! O projeto efemeramente traçado naquela véspera de pôr do sol consistia em sair cedo e seguir pedalando a espreita do rio, parar nas pequeninas comunidades ribeirinhas onde poderíamos respirar e beber água, almoçar, tomar banho de rio, comer frutos do caminho, até encontrar uma maloca para pendurar as redes e capotar à proteção de um extenso teto estrelar. Isto deveria acontecer em Maguarí, uma comunidade que ficou famosa na região pela confecção artesanal de couro “ecológico”, uma mistura de fibras com o látex das seringueiras. A distância do percurso ninguém sabe dizer ao certo até hoje e deve estar em torno de 35 km (8km até Pindobal, cerca de 10 km até Belterra, e segundo o IBAMA mais uns 12 km de Belterra até a entrada da Flona de onde seguem-se mais 1,5 km até Maguarí). Há quem jure de pé junto que dá mais. Mais até Pindobal, mais até Belterra! Na prática, seja la quantos kilômetros, eu só tenho a dizer que é muito, mas muito mesmo, e que por vários momentos eu pensei em desistir e que não iria agüentar. Esperamos um bom tempo para que a Dona Selva preparasse a galinha que seu marido mineiro acabara de estrangular em uma cena parecidíssima com aquela em que o Gael estrangula uma destas aves no filme Babel. Iriam também preparar o arroz, o macarrão com molho de tomate e pasmem, o feijão com carne de porco!! Enquanto isto tomávamos mais um banho em outro igarapé delicioso, lindo, paradisíaco. Comemos, nos fartamos e obviamente gastamos um bom tempo na digestão deste gordo banquete ribeirinho enquanto os meus mal treinados músculos esfriavam e o clima começava a esquentar consideravelmente. Quando finalmente saímos desta parada, não sabia se era eu quem empurrava a bicicleta ou se era ela a me arrastar pelo caminho. Minhas nádegas e minha virilha começavam a dar sinais de alerta. Este primeiro trecho tinha o chão todo forrado de areia grossa, ainda bem úmida da chuva que caíra durante toda a madrugada, e, mesmo no plano, o esforço para pedalar era grande. Na descida, a areia diminuía a velocidade das bicicletas e nos obrigava a continuar pedalando incessantemente. Isto por si só, já gerou um bom desgaste. Da Dona Selva, senhora um tanto gorda, de traços marcadamente indígenas, ficaram algumas histórias de trabalhos e viagens por vários estados do Brasil afora. Lembro-me de Minas e São Paulo. Trabalhara como assistente de topógrafo, abrira negócio de turismo, seguira carreira de faxineira. Experimentara uma série de funções enquanto mandava dinheiro para os filhos que deixara com a mãe. Em Minas conheceu o mineiro que estrangulou a galinha e voltara ao Pará por motivos de enfermidade e morte da mãe. Ele a acompanhou. Moraram em Santarém, mas o calor era demais. Ficaram alguns poucos anos em Belterra e agora completavam 2 meses em uma maloca que tinha uma cama de casal, uma mesa de mantimentos, uma espécie de freezer com uma televisão em cima, tudo isso reunido em baixo de um toldo de palha, em cima do chão batido, e no meio de uma pequena clareira aberta no caminho. Este amontoado de coisas ainda tinha uma parabólica em cima! Impressionante. Após deixarmos este local o caldo entornou. Jorge deve ter percebido o horário e a extensão do combinado, por isso saiu em disparada com sua bicicleta e nos deixou para trás. Belterra fica no alto de uma colina e era para lá que estávamos pedalando. O céu foi abrindo cada vez mais, tanto quanto o caminho foi ficando íngrime e a água escassa. Não tinha mais rio, não tinha mais bica, e um pouco mais pra frente não tinha mais casinhas para pedirmos arrego. O sol já estava a pino. Suor, dor e cansaço. Chegamos a uma bifurcação no caminho: à direita Belterra (1 km?), esquerda Maguarí (14 km?). Mas segundo Jorge Luis seriam apenas 10 km de pura descida, e em cerca de 2 horas estaríamos no sonhado vilarejo. Resgatando o pouco da bateria que ainda existia e reunindo toda a esperança de que esta descida kilometral fosse verdadeira, topamos desviar para a esquerda. Ah...se eu pudesse voltar atrás...que tarde sofrida foi aquela...O que seria esta longa descida na realidade era um plano enorme, com suaves aclives e declives, mas que com aquela bicicleta pesada não fazia diferença alguma, nada aliviava. Tinha que pedalar, sempre. O chão era bem esburacado e cheio de pedras, o que fazia trepidar muito e judiava do corpo todo. O calor ficava ainda mais e mais intenso. A paisagem era especialmente bonita, mesmo quando a vegetação se abria em enormes campos de plantação de arroz, que nesta época do ano estavam recém plantados e seriam colhidos em meados de junho-julho. Sem casa por perto, nem pessoas, sem água e nem comida. Com muito atrito, começavam as lesões. As dores mais profundas, agora se concentravam na carne. Somados ao calor e ao suor resultavam em queda de pressão. Medo, até desespero, receio de desmaiar, de não agüentar, de estar no meio do nada. E o idiota do nosso guia já era um pontinho preto no horizonte plano, reto e distante. Parei um pouco. Resolvi que iria alternar períodos de caminhada com períodos de dor, pedalando. Isto fez com que diminuíssimos o ritmo, mas definitivamente não havia outra alternativa, estava muito cansada e com muita dor. Mais ao final da tarde tivemos a oportunidade de constatar nosso estado animal: nos deparamos com uma majestosa mangueira e seus preciosos filhos espalhados pelo chão...suculentos frutos amarelados...doces como o açúcar. Inexplicável a maneira como atacamos aquelas mangas, como vorazmente as descascamos, e mais ainda como as engolimos. Doces, suculentas, deliciosas. Nunca tão magníficas. Literalmente insaciáveis. Também havia no quintal desta casinha laranjas (grandes), e cupuaçu. Foi o combustível que precisávamos para abastecer e seguir este caminho sem fim. A tarde caía cada vez mais rápida e o pôr do sol parecia estar lindo em alguma beirada de rio. Só apreciávamos as trocas de cores espelhadas nas nuvens do céu. Mateiros começavam a cruzar nosso caminho retornando para as suas casas. Carregavam facões enormes e tinham panos enrolados na cabeça...Casinhas beiravam novamente nosso caminho, as vezes soltas e espalhadas, as vezes reunidas em pequenas vilas, como a de São Domingos que se aproximava. Interessante como muitas delas eram feitas de palha, não só na cobertura, mas também nas paredes e nas divisórias internas. A palha é de uma palmeira de folhas largas e bem compridas, onde as folhas são sobrepostas e entrelaçadas, da nervura central até as pontas. Apagado o último raio de sol e estavam acesas as estrelas de uma noite sem lua, a mais bela até então. Faltava céu para comportar tantos pontinhos luminosos, tanto brilho. Mas faltava também um pouco mais de luz para guiar as nossas bicicletas, que já há muito era o que nos guiava. Lógico que o nosso guia não havia pensado nas lanternas. Entramos na Flona dos Tapajós no escuro, tateando o caminho com os pneus e os pés, exaustas, e deixando uma taxa de R$3,00 para o IBAMA. Foram mais 30 minutos para que chegássemos finalmente, e enfim, a Maguarí! No meio do breu adentrávamos na vila que aos poucos se preparava para o toque de recolher. A maioria dos habitantes estava reunida em uma palhoça jogando bingo à luz de velas. Fomos socorridos pelo “presidente” da comunidade, o Sr. Raimundo, que àquelas horas se entregava ao sono a ao cansaço, mas não demorou para nos providenciar um lugar de encosto e ainda contamos com a caridade de sua esposa a nos preparar um delicioso macarrão com molho de atum e farofa. Quem mais abriria as portas de casa para quatro desconhecidos esfomeados, àquelas horas da noite, e ainda mobilizaria tantos esforços para os acolher? Quando percebemos estávamos na melhor casa da vila, embora a idéia de não mais dormir ao relento era um tanto triste...o cintilante céu ficou apagado pelas telhas. O banho noturno no Tapajós também foi descartado em função da ameaça das arraias e trocado por um banho de igarapé muito raso e gelado. Já o corpo não reclamou de nada disso, tão acabado só pensava em despencar em qualquer pedaço plano de chão que estivesse livre. Acordei com um barulho que eu não sabia se era de tiro. Mas para caçar não se deve atirar tanto...Talvez fosse alguém derrubando uma árvore a inúmeros golpes de machadada. Levantei e saí ver a chuva que caía em forma de garoa, o tempo havia mudado radicalmente. E os tiros, ou machadadas, nada mais eram do que três mulheres lavando roupa no igarapé...As mesas que na noite anterior visualizei cheia de petiscos e cervejas, eram na verdade estruturas para serem surradas por redes, tecidos, roupas, ... todos cheios de sabão. E de muita força também. De resto crianças curiosas e galinhas protetoras, patinhas passeando e alimentando as suas crias. Posso dizer que isto foi tudo que conheci de Maguarí. Após uma bela e merecida discussão entre a Gabriela e o Jorge Luis, que dispensa comentários, resolvemos partir logo cedo. Frustrada e chateada com o pouco tempo na comunidade, ainda vou voltar para este lugar. Volto, mas será a pé! Da pedalada igualmente sofrida de volta para Belterra me lembro da chuva maravilhosa que caiu e lavou a alma, a agua entrou pelos poros, além de encharcar os campos de arroz, e levantar o cheiro de terra molhada. Em seguida, o peso da bicicleta, a roupa ensopada, os pés carregados de lama... A trilha foi longa, mas desta vez resolvi respeitar os limites do cansaço e da dor. E foi o que eu fiz.Quase chegando a Belterra, já no entrecruzar de ruas e ruelas, encontrei um tal Sr. Zacarias indo para a roça de arroz, conheci a Dona Regina fazendo a casa de farinha funcionar, cruzei com alguns moradores carregando sacos de paes, outros conduzindo os produtos do roçado, e acabamos indo localizar o nosso ilustríssimo guia instalado e dormindo em uma simpática pousada! Absolutamente inacreditável. Alegou mau jeito na coluna...quisera eu dar um mal jeito nele! Largamos as bicicletas lá e caminhando respirei fundo, senti o cheiro úmido do lugar, nos dirigimos ao modesto terminal quase na curva da rua e subimos no ônibus que partia para Santarém. Não hesitei, olhei pra trás, registrando na memória essa maravilhosa essência que ficou do povo ribeirinho e das margens imagens do rio Tapajós, do verde mangueira e deste sombreado litorâneo estado. Tranqüilo e pacifico. Muito acolhedor!