quinta-feira, 31 de maio de 2012
Eu e o Ubaldo pelas ruas de Berlin
Bom é o que é, simplesmente, diferente.
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E como não estamos sós no mundo, divertido também. Compartilhar impressões, angústias, estresses, prazeres e vivências em ambientes hostis à normalidade pode fazer descobrir que elas podem ser também experiências semelhantes!! Compartilho dois meses de perambulações pela capital alemã com pitadas de 15 meses vivenciados por João Ubaldo Ribeiro, que escreveu o delicioso “ Um Brasileiro em Berlim”. .
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Estive dois meses em Berlin. Por sessenta dias circulei por dezenas de ruas, ruelas, praças, pontes, trilhas e ...ciclovias. Utilizei o pé - principal meio de locomoção, a bicicleta - o mais prazeroso, e o transporte público - o mais eficiente. Constatei ruas largas, as calçadas mais largas ainda. Prédios baixos significam mais céu na paisagem, alargamento dos horizontes. Sem muitos andares sobrepostos, o fluxo de carros e pessoas fica mensurável, além de extremamente organizado. Todo e qualquer trajeto é seguro, mesmo porque a sensação de uma câmera onipresente é constante. Não me esqueço da sensação criminosa que experimentei ao tentar remover uma lasca do antigo muro, um fragmento mantido em uma região isolada da cidade: nem que eu tivesse planejando um assalto a algum caixa eletrônico em São Paulo teria experimentado tamanha adrenalina. Mas por que então não é tão relaxante caminhar e desfrutar do conforto e da praticidade das charmosas ruas berlinenses?
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O Ubaldo começa com a seguinte constatação: “ Para brasileiros, uma das atrações turísticas de Berlim, é assistir às pessoas esperando disciplinadamente que o sinal abra, para que elas atravessem a rua. Isto é considerado uma absoluta e inédita maravilha, merecedora de contemplação, comentários abismados e cartas estarrecidas para os amigos. Quanto ao tráfego a admiração é ainda maior e , quando um berlinense se queixa do trânsito, os brasileiros pensam que ele está brincando...”
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Mas é justamente aí que o confronto cultural se expressa. Essa aparente maravilha pode ser realmente uma maravilha na primeira semana. Quando passa dos dez dias e vira rotina é que as úlceras se manifestam. Olhar para um dos lados e não vislumbrar o menor sinal de um veículo, olhar para a contramão e verificar o mesmo vazio, checar a transversal e não ver um único carro, e, ainda assim, permanecer com o rosto virado para o chão aguardando que o semáforo de pedestres abra... faz qualquer estômago paulistano retorcer até ir parar na boca!! Importante frisar que é muito comum apresentar taquicardia. E em dias mais tepeemísticos o corpinho pode ousar suar frio. Mas para todos os sintomas há sempre uma terapia, claro. Seguindo a lógica do “há sempre algo que pode ser pior do que isso, sem ser isso, é ótimo para aliviar os sintomas”, passemos à segunda etapa de adaptação ao dia-a-dia alemão. Para explicar o que poderia ser tão tenso, uso de novo o Ubaldo, quando narra seu encontro com um...POLIZEI !!!
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“...Só não morri por razões genéticas..., mas meu primeiro impulso foi correr à sacada, gritar “sou inocente”, “pular e procurar asilo na embaixada de Gabão...” “...Fiquei calmo e apenas pernas trêmulas e outros sinais discretos traíam a minha apreensão. Alguém havia me denunciado por jogar um cigarrinho na calçada? Teria cometido um crime ao olhar com excessivo vagar uma gordinha nua no Hallensee? Comer uma Bratwurst sem mostarda, como fiz outro dia, seria uma grave ofensa? Estaria sendo confundido com um terrorista?...”
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Me lembro bem, foi na dobra da minha primeira esquina sobre duas rodas, enquanto eu ainda procurava qual seria a parte destinada à circulação de bicicletas. O dia estava claro, as pessoas caminhavam sistematicamente pela calçada e eu... estava fora da rota ciclística oficial (!!!) quando ouvi um estrondoso som gutural a tremer o chão e estremecer a alma de seres inocentes como eu. Acho que as rodas da bicicleta ficaram tão bambas quanto as minhas, e por pouco não me estatelei no chão. Ficar e permanecer em pé, de frente, para aquele alemão do pé de feijão, alto-gordo-e-loiro, foi o maior desafio que eu enfrentei durante a viagem. E pronunciar qualquer palavra em qualquer língua foi bem mais difícil do que para um recém-nascido. Isso explica a minha conduta nos dias subsequentes: passei a pensar no mínimo 10 vezes antes de REALIZAR qualquer contravenção, e rezar uns 10 pais nossos para não ESTAR realizando nenhuma delas. Também tomei o cuidado de não cogitar a menor possibilidade de contar com o jeitinho brasileiro ou de usar um xaveco furado pró-redenção. Mesmo as meninas mais descoladas, mais gostosas, mais simpáticas ou mais qualquer coisa, podem conferir que nesses casos não há “inho” que dê jeito, é MULTA pra todo lado, pra todo mundo! 40 euros sem dó nem piedade!
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Mas os estresses das caminhadas não param por aí. Em Berlim há uma enorme diferença entre estar em uma bike e estar a pé! É uma diferença que confronta a sensação de liberdade e a sensação de stress puro. Fala Ubaldo, como é:
“...Sim, porque não fui atropelado por carros, ônibus ou caminhões, mas pelo mais terrível, impiedoso e ameaçador veículo que circula pelas ruas de Berlin: a bicicleta. Desenvolvi tanto medo da bicicleta que, outro dia, ao vislumbrar a distância uma horda de bicicleteiros tornada ainda mais ensandecida porque o sol nessa hora fazia uma de suas cinco aparições anuais, não resisti e me abriguei atrás de uma árvore até eles passarem, numa velocidade que certamente lhes garantiria uma boa classificação no Tour de France. Se existe algo mais sagrado do que a bandejinha , é a pista das bicicletas. ..
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Acho que nunca mais na vida vou poder encarar uma bicicleta sem estremecer, mas há sempre um aspecto positivo. Nesse caso, pelo menos a ciência fez algum progresso, pois creio que sou o primeiro caso documentado de uma doença que pode vir a tornar-se epidêmica e para a qual sugiro o nome de Bicyclophobia berlinensis. Ainda nãos e conhece a cura, mas andar em ruas arborizadas ajuda a minimizar os sintomas. E a prevenir atropelamentos, é claro.”
Impressionante, bastava engatar qualquer assunto com a Helô e pronto: lá estava eu invadindo alguma ciclovia! Como são onipresentes! Em alguns momentos era a Helô que me puxava pelo braço, me repreendia e me realinhava na calçada; nos outros eram os próprios ciclistas que me assustavam para fora da pista com aquelas buzininhas repentinas, velozes e vorazes. Mas quero registrar o protesto de que muitas vezes não era eu que invadia o caminho delas, mas eram os traçados ciclísticos que se projetam para frente do meu! Impossível fugir, impossível relaxar, impossível simplesmente descer do ônibus ou sair do metrô tranquilamente... Definitivamente as bicicletas de Berlin são implacáveis!! Mas o saldo foi positivo: nada além de arranhões.
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Mas nem com todos esses espasmos todos passamos percebidos pelos alemães, não é mesmo Ubaldo?
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“ No Brasil, muitas vezes me queixo de que as pessoas falam alto demais, se olham, pegam esfregam, abraçam, e beijam demais. Já aqui, sinto uma espécie de privação sensorial. Penso em Montaigne, que, se não me engano, escreveu que o casamento é como uma gaiola: o passarinho que está dentro quer sair, o que está fora quer entrar. Acho que isso pode estender-se a tudo na vida, porque hoje, particularmente, eu gostaria de ter voltado para casa com a sensação de que alguém na rua me viu, e fiquei com saudades de casa. “
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Não ser notada na rua, a longo prazo, também deve causar úlceras. Mas não fiquei em Berlim para constatar isso. Preferi antes voltar à tranquilidade do trânsito paulistano e evitar males mais graves à saúde...
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