sábado, 18 de setembro de 2010

Tem que ser PURA VIDA!

Cadernos de viagem.

As vezes encontro anotações de viagens... breves comentários, “pensamentos imperfeitos”... alguns extraordinários! Como é o caso desse, que rabisquei depois de ler um trecho de um livro do Saramago. Apesar da vontade, não mudei nenhuma palavra. Mas tenho que acrescentar um extraordinário muito obrigado ao pais da pura vida, que me inspirou a tentar definir o que é ... extraordinário!

“ Não invento nada. Faço esta declaração imediata porque adivinho já os sorrisos solertes e desconfiados daquela gente para quem o extraordinário é sempre sinônimo de mentira. Essas pobres pessoas não sabem que o mundo está cheio de coisas e momentos extraordinários. Não os vêem, porque para eles o mundo aparece como coberto de cinzas, comido de verdete baço, povoado de figuras que usam roupas iguais e falam da mesma maneira, com gestos repetidos sobre gestos já feitos por outros desaparecidos seres. É gente para quem talvez não haja remédio, mas a quem devemos continuar a dizer que o mundo e o que está nele não são o tão pouco que julgam...”

José Saramago (Apólogo da Vaca Lutadora)

E o que é o extraordinário? Talvez seja só o diferente, o que não foi previsto nas mais platônicas horas do sábio planejamento. Mas para saber extraordinário deve causar sensações... deve ter o frio na barriga de quem, por uns instantes, perde as rédeas da rotina e o controle da freqüência respiratória. Para ser extraordinário tem que acender o brilho do olhar, a umidificaçao excessiva que vem da expansão da alma para quem o corpo fica repentinamente pequenino. O olhar que quer a tudo ver e a tudo não alcança. Para ser extraordinário tem que dar medo, um receio, e assim impulsionar o espírito para a ousadia em cada pequeno momento. Tem que despertar o medo que pode ser o resquício de alguma dor, e esta assim também aparecer. Um soluço, ou vários, substituindo as virgulas de um breve relato. O extraordinário não pode ser nada que não existe. Pode e deve ser sim um profundo agradecimento simplesmente por existir. E pode ser tão simples, mas tão simples, que simplesmente muitos não o percebem, não o tocam e não são por ele acariciados.

Tem que ser PURA VIDA!

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