quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Embarcando em "O Turista Aprendiz"

O dia de partida para uma grande viagem é sempre único e inesquecível. Para cada um provoca sensações diferenciadas... a consumação de tão grandiosos planos no ato da despedida é um marco emocional, que se inicia em alguma estação, aeroporto, porto, rodoviária... e vai se transformando, ao longo da travessia...

Assim como Mario Quintana

Eu sempre que parti fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...

Alguns partem dispostos a transformar esta travessia em bloco de notas, que podem ser extensos relatos ou apenas anotações rápidas, "telegráficas". As minhas não foram nenhuma nem outra! Foram notas esparsas, preenchidas por outras realizadas apenas no registro da memória, que é bastante falha... Agora tento recuperar algumas delas e durante este processo embarco com Mario de Andrade em "O Turista Aprendiz", uma espécie de releitura de suas notas de viagem muitos anos depois de seu regresso, notas tomadas durante sua passagem pelo norte do Brasil lá pelos idos 1927. Ele, no entanto, adverte logo no prefácio: 'provavelmente mais resolvido a escrever que a viajar, tomei muitas notas... nenhuma intenção de obra de arte, nem com a menor intenção de dar a conhecer aos outros a terra viajada...' Eu? Advirto: 'muitas intenções em uma única viagem, talvez nenhuma realizada de forma plena... evocar sensações e impressões... mudar o foco, ver através de outros olhares...'

E Mario partiu...

São Paulo, 7 de maio de 1927 - Partida de São Paulo. Comprei pra viagem uma bengala enorme, de cana-da-Índia, ora que tolice! Deve ter sido algum receio vago de índio... Sei bem que esta viagem que vamos fazer não tem nada de aventura ou de perigo, mas cada um de nós, além da consciência lógica possui uma consciência poética também. Às reminiscências de leitura me impulsionaram mais que a verdade, tribos selvagens, jacarés e formigões. E a minha alminha santa imaginou: canhão, revólver, bengala, canivete. E opinou pela bengala.
Pois querendo mostrar calma, meio perdi a hora de partir, me esqueci da bengala, no táxi lembrei da bengala, volto buscar bengala e afinal consigo levar a bengala pra estação. Faltam apenas cinco minutos pro trem partir. Me despeço de todos, parecendo calmo, fingindo alegria. "Boa Viagem, "Traga-me um jacaré"... Abracei a todos. E ainda faltavam cinco minutos outra vez!
Não fui feito pra viajar, bolas! Estou sorrindo, mas por dentro de mim vai um arrependimento assombrado, cor de inceto. Entro na cabina, agora é tarde, já parti, nem posso me arrepender. Um vazio compacto dentro de mim. Sento em mim.

Eu...
Eu não anotei nada sobre as sensações da partida desta última viagem. Nem soube fazer relatos como este, de Mario...Mas me lembro da convicção e da certeza que me acompanharam até o dia derradeiro, depois de abandonar trabalhos, recusar projetos, criar e controlar expectativas e acreditar na escolha. Abraçar causas e crer nelas é como se fosse uma necessidade, um pré requisito fundamental, algo visceral, tem que ser pleno. Algo que me impede ou esconde de mim, a minha tristeza, essa tristeza que acompanha as despedidas, esse olhar encolhido, distante... esse frio na barriga...

OBS: eu, optei pelo canivete suisso, mas o que mais me serviu foi a opçao "lanterna" do meu primitivo aparelho celular!

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