Adoro o termo 'mercar' bastante usado pelo capeta Carybé ao relatar o mercado mais popular e autêntico de Salvador. Não é o mercado Modelo não! Longe disso! É o mercado onde filmaram o "Cidade Baixa", aquele que as pessoas fazem caras e bocas quando escutam você comentar que pretende visitá-lo e emitem um estrondoso "mas, sozinha?!?!?!?" e em seguida te despejam dezenas de conselhos, dicas e precauções a adotar para o intento. Só após tudo isso você está apto a se aventurar por tamanho submundo, é né, já que você insiste... e aí sim pode se maravilhar... Claro que até chegar lá carrega-se uma boa carga de receio que pesa mais do que tudo, mas que se desfaz nos primeiros minutos ao chegar e começar a adentrar as ruelas de barracos... aos poucos vai se transformando em um torturante sentimento de vergonha... um sentimento que se tenta esconder dentro dos mesmos artifícios que se usou para chegar! De que perigos estamos mesmo falando? Mesmo assim nada de fotos... a máquina ficou no seguro esconderijo da casa..., mas as imagens, ah estas ficaram estampadas na melhor parte da memória ...
Durante a sequência de visitas a dezenas de mercados salpicados no roteiro errante da viagem, este quadro se repete... Só a nossa postura é que vai mudando... Quantos e quão diversos são! Haja mercado pra escancarar tanta realidade...
E tem a Feira de Água dos Meninos
“É como se fosse a enxurrada das ladeiras do Canto da Cruz, do Quebrabunda, da Lapinha e da Água Brusca. Fica lá embaixo, junto ao mar, num amontoado inverossímel de barracas, divididas por becos, ruelas e passadiços, formigando de gente, de saveiros, de jegues, frutas, legumes, jabá, cestas e tamancos, camarão seco e raladores de coco, fifós, cana e farinha de guerra.
Cerâmica de todo recôncavo. De todos os feitios e para todos os usos.
Como os depósitos de inflamáveis invadiram o território da feira, um areal alvo onde se comia, à noite, sarapatel e mocotó, onde se amava, se dormia ou se ouviam histórias do mar ao pé dos saveiros. Areal que deu nome aos famosos capitães de areia; pois bem, como os depósitos de inflamáveis invadiram seu território, a feira invadiu a rua. Começa do lado de fora entre as palmeiras reais. Mercam-se ali panelas de alumínio, bacias, canecos e bules. Banha de jibóia para reumatismo, canela de ema para a asma e folhas, casca de paus para curar de tudo. Quase sempre há uma barraca onde se exibe o “homem fera” ou a “mulher-macaco”, bancas de ferro velho e algum cego tirando cantigas.
Na principal rua, a rua que atravessa a feira, mal se pode passar de tanto povo, carroças, caminhões, jegues encangalhados, vendedores, camelôs, balaios. Para andar com um sossego relativo é preciso passar às estreitas ruas entre barracas, ali o espetáculo humano é inesgotável, as mulheres do carimã peneirando a puba, sumidas no cone de sombra de seus enormes chapelões, quando mercam deixam ver seu riso tão branco como os cubinhos de goma que estão oferecendo. Há barracas especializadas em passarinhos onde esvoaçam campeões do canto e da cor, às vezes algum macaco enriquece a fauna, e, um pouco avacalhado com a cor das cuiúbas e dos sofrês, se movimenta amarrado pelo meio fazendo caretas e obscenidades para regozijo da molecada.
Há montanhas de cachos de bananas, de laranja, de pinha, de limas, de cana-de-açúcar, pois é aí que se abastecem os vendedores ambulantes, os hotéis, restaurantes e famílias pobres, Hercúleos carregados descarregam os saveiros, entram na água até o umbigo e voltam carregados com tijolos, carvão, balaios imensos de jiló, porcos, capoeiras de galinhas d’angola ou feixes de caibros, numa técnica toda especial passam a carga a outro e este a outro mais conforme a distância entre o saveiro e o depósito.
No setor das carnes verdes há um personagem sinistro, é o homem que tira miolos e língua das cabeças de boi. Com seu cepo da jaqueira e seu grande machado, este carrasco proletário destrincha as cabeças esfoladas onde os grandes olhos esbugalhados parecem perguntar onde estava o resto do boi. Este personagem está rodeado de mandíbulas e ossos e descarrega suas machadadas com a mesma precisão que seu velho antepassado inglês, o encarregado de decapitar Ana Bolena.
Em água dos meninos, se concentra a produção do recôncavo, chegam as mercadorias de Santo Amaro, Nazaré das Farinhas, Cachoeira, São Francisco do Conde e outras cidades, estivadas na barriga chata dos saveiros que esperam banzos, adernados que os livrem desse peso todo.
O mal da feira é o cheiro espesso a maresia, o barro se chove ou a poeira se faz sol, mas o colorido e a vida compensam e um gole de cachaça com arruda de um dos inúmeros botequins nos limpa a goela e o coração fazendo-os esquecer o cheiro do mangue na maré de vazante, o pó e a inhaca das capoeiras de galinha.”
Carybé
Para colorir...
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