"Uso a palavra para compor meus silencios. Nao gosto das palavras fatigadas de formas. Dou mais respeito às que vivem de barriga bem no chao, tipo agua, pedra, sapo. Entendo bem o sotaque das aguas. Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais do que avioes. Prezo a velocidade das tartarugas mais do que a dos misseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundancia de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdicios: amo os restos, como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu nao sou da informatica: sou da invencionatica... So uso a palavra para compor os meus silencios."
Manoel de Barros
sexta-feira, 23 de abril de 2010
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