segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

ilhas que eu desconhecia, em todos os sentidos

E por falar em ilhas desconhecidas...foram muitas as que encontrei ao longo da viagem. Eu começaria citando Alcântara se Alcântara fosse uma ilha...mas é o contrário e apesar de todos os pesares ainda não me convenci disso! Já os cayos venezuelanos de Tchitchirivche seriam a representação do paraíso na terra, não fosse o feriado da páscoa e não fossem os venezuelanos tão descuidados com o seu patrimônio ambiental (exceção feita é claro para a cobiçada água negra que os venezuelanso têm de sobra). O caminho navegado de Cartagena rumo à América Central me presenteou, eu, humilde mortal, com suas cristalinas águas caribenhas e mais de 3 centenas de ilhas paradisíacas espalhadas ao longo do litoral sul ocidental do Panamá: San Blás! Anotem este nome e nunca, mas nunca mais esqueçam dele! O mergulho mais belo aconteceu justamente em uma ilha (!) em Honduras, de nome Utila, e eu descobri que o azul profundo e cristalino do Caribe contrastante com o colorido de gorgônias, esponjas, corais e infinitos peixes é de verdade, existe! E é sempre muito mais bonito do que nunca se imaginava tanto...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

para seguir em frente...uma ilha desconhecida!

" E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida não passa duma idéia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo..."
e
"Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas , aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra que sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas,..."

"Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como oderia falar-lhes duma ilha desconhecida, se não a conheço..."

"tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és...Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós..."

O conto da ilha desconhecida - José Saramago

Mera coincidência?

Lendo dois livros e nos dois encontro:

Livro 1:

"-Fazer amor, sim e sempre. Dormir com mulher, isso é que nunca. E explicava: dormir com alguém é intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, issó é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de uma mulher e a sua alma se transfere de vez."

Livro 2:

" Tomas pensava: deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher). "

* livro 1: Dito Mariano em "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" - Mia COUTO
* livro 2: Tomas em "A Insustentável leveza do ser" - Milan KUNDERA

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Começando um novo livro no meio de uma decisão que pode ser um fim para um novo começo...

"...torturava-se com recriminações, mas terminou por se convencer de que era no fundo normal que não soubesse o que queria: nunca se pode saber aquilo que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.
Seria melhor ficar com Tereza ou continuar sozinho?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro."
A insustentável leveza do ser - Milan Kundera

domingo, 13 de janeiro de 2008

Informações úteis para atravessar a américa latina...

Caso queiram enviar e-mails!

Um cyber em alguma pequena vila de algum lugar - 2006

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Ainda não é tarde para postar...


"Já clareou, Fabi, já clareou" - Texto de Nei Lopes

Em um texto recém publicado em livro (O racismo explicado aos meus filhos. Rio, Agir, 2007), escrevemos a certa altura sobre a “opção étnica” por pessoas de ascendência biológica e cultural mista. Acentuamos neste texto que, por exemplo, quando uma pessoa filha de um negro com uma descendentes de europeus ou vice-versa se reivindica como afro-descendente, o que ela está ressaltando ou querendo evidenciar é a parte de sua herança etnocultural que a faz ser uma discriminada em potencial e que, por isso ela assume em sua postura contra a discriminação e o racismo.Escrita alguns meses antes de ouvirmos o CD Quando o céu clarear de nossa querida e talentosa amiga Fabiana Cozza, essa maravilhosa afro-italiana que o intenso movimento musical de Sampa colocou em nosso caminho, essa afirmação cai como uma luva não só no conceito do disco quanto na postura de Fabiana diante da vida.Filha de negro sambista ‘gogó de ouro’ da Barra Funda, mas carregando um sobrenome com dois ‘zz’ que não deixa a menor dúvida, Fabi é isso. E, por isso, abre seu disco pedindo licença para incensar nossos ouvidos, nossa sensibilidade e nossa mente com um oloroso samba-de-roda de um dos mestres da recriação dos eternos temas do samba-de-roda baiano, Roque Ferreira. E feita essa aromática abertura, diz claramente a que veio.Fabiana diz – e como diz! – na envolvente doçura dos já imortais Dona Ivone Lara-Délcio Carvalho, representantes da mais pura tradição lírico melódico dos terreiros do samba carioca. Depois, literalmente “arrebenta” num samba de meu ‘cumpádi’ Paulinho Pinheiro com Rubens Nogueira, que me remete ao mais vibrantemente negro das interpretações sambísticas da saudosa Elis Regina, dos tempos do Vou deitar e rolar e da Lapinha. Para, mais lá pra frente, fazer o mesmo, em Nação, me levando até à divina mulatice de Clara Nunes, numa recriação personalíssima do clássico boscoblanqueano. Aí, traz a jovem fidalguia do canto afro-mestiço de meus parceiro do Quinteto BP, uma das melhores coisas que São Paulo, em termos de arte não colonizada, produziu nos últimos tempos. E, então, depois de passar por outros sambas também da melhor qualidade, cai dentro, literalmente com força e coragem, de algo do qual há muito tempo eu desejava falar, que é a presença da tradição dos orixás na música popular.Fissurado que sou na música tradicional afro-cubana, observo que em cada 14 faixas de cada CD que chegam lá da Ilha, direto ou por outras vias, é raríssimo que uma ou mais não sejam dedicadas às divindades africanas que vieram com nossos ancestrais escravizados, ajudando-os a resistir ao martírio e a construir as duas melhores tradições musicais do Planeta. Só que Cuba, por razões políticas e até econômicas é hoje a Meca das religiões de matriz africana, enquanto que o Brasil é esse vasto mercado neo-pop-pentecostal que nos polui olhos e ouvidos a cada girada do botão ou do controle-remoto e a cada esquina. Então, não é que Fabi teve a fé e a ousadia de fazer um disco em que quase metade das canções menciona orixás? E até chamou músicos cubanos para participar!?Só essa coerência para mim valeria a obra e a produção. Mas por trás disso tem muito mais. Tem a força de uma cantora total e comprometida. Que duvido que daqui a pouco seja capaz de ‘dar um pulinho noutra praia’, só ‘de brincadeirinha’. Ou, cá entre nós, pra faturar uns trocados. Duvid-o-dó. Do borogodó. Porque Fabi, como artista e pessoa, é uma das criaturas mais íntegras que já conheci. E o céu para ela, com esse belíssimo disco (que muito mais que afro ou italiano é brasileiro, da silva), é claro que já clareou.

Nei Lopes Seropédica, RJ, jul.2007.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ela quer

Ela quer

entremear as raízes
terra
elevar as folhas
ar
quando ao sol
violeta
à sombra
verde-leve
o que não se prevê
é o lugar dela
em sua vida

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

De repente termino este livro e penso nas relações

Do dia a dia

Concordo com a experiência própria de quem tem um fio extremamente sensível à mão, de quem pisa sobre ovos, de quem caminha no meio fio. Uma palavra, um gesto, um olhar, uma brincadeira...em geral uma mudança de atitude pode pôr o improvável no lugar da certeza e esta ilusória condição que a custo perseguimos se transforma em um delicado resquício do passado. O que faz com que as coisas sejam tão vulneráveis, ou será ainda que esta metamorfose da realidade não passa de um grande engano, e nós que nos armamos com tanta cautela, acabamos por se tornar suas principais vítimas. Será o inseguro mundo da existência a nos conduzir a este instável mundo das relações humanas? De relações humanas...
Da travessia
As relações efêmeras em uma viagem adquirem um status de estabilidade e congelam imagens que ficam como estátuas na memória. No fundo sabemos que não seriam perfeitas também, mas elas prosseguem na imaginação a partir do ponto em que cairiam no esquecimento, e seguem no paralelo mundo do "se encantado". No paralelo mundo platônico.
De viagens
Delicadas mesmo são as relações entre companheiros de viagem. Aí tudo se encontra e se confunde: o "se encantado' do que foi ficando para trás, a sedução do novo que está sempre por vir, as aguras da convivência diária, inseguranças junto com perspectivas, medos com audácias, esquecimentos e descobertas, e aquela explosão abafada da pólvora que dia a dia se acumula, mas que não pode ser plena...senão detona, destrói!
De longe...
Nunca o que está longe é tão idealizado quanto aquilo que está perto. Sentimos que perdemos com a distância, quando na verdade ganhamos muito. Longe, fora, no caminho, não temos o sobrepeso da rotina, o cansaço dos dias corridos, a cumplicidade da velocidade das horas, a armadilha que é a falta de percepção do tempo. O tempo. É outra a noção que construímos dele, um tempo que significa distância física, e esta, que nos traz uma sensação de impotência e saudade. A compensação nos faz pensar, refletir, procurar, comunicar e assim, nos aproximar, conhecer! Compreender o que diariamente passeia invisível no meio das horas.
meu, a partir de Amores Risíveis
Milan Kundera